Américas

Uruguai

A idéia dessa viagem ao Uruguai seguiu na proposta de fazer passeios curtos, de fácil acesso, em finais de semana e feriados, sem ocupar as férias anuais, destinadas para viagens mais longas.

Escolhi o Uruguai porque tenho boas lembranças e referências de turismo no país, que é nosso vizinho, bem pertinho aqui do Rio Grande do Sul. E também porque achei o valor pago pela viagem bem legal, dentro do contexto. Também porque o período da viagem se encaixou no Feriado de Páscoa de 2016, quando então eu já estava ansiosa para respirar outros ares e sair da província.

A última vez que estive no Uruguai foi a dez anos atrás. Lembro que fui viajar gestante, grávida de minhas filhas gêmeas. Fui acompanhada do pai delas e de outros casais conhecidos. Numa excursão de ônibus.

Voltar agora, dez anos depois, me traz várias reflexões e constatações. A primeira e mais óbvia:  como nosso olhar sobre as mesmas paisagens  é outro, em diferentes momentos de nossa vida . Mudamos, e as perspectivas sobre as coisas, até sobre as já conhecidas, mudam também.

Eu tinha lampejos das lembranças da viagem que havia feito anteriormente, algo muito nebuloso…

Desta vez fui acompanhada de duas amigas, a Mardjele e a Iris, numa excursão com outras pessoas até então desconhecidas, oriundas de várias cidades.

Viajar em excursão. A experiência atual foi somente para sedimentar a minha convicção que, a pessoa que sou hoje, o ser viajante que mora em mim, não se enquadra mais nesse tipo de empreitada. Ou seja, eu mudei. E muito.

Os horários rígidos para chegar e sair das cidades e pontos visitados, os locais pré-determinados a visitar, suportar os humores de um ônibus interiro… Aff… Me senti cumprindo uma maratona. Isso, definitivamente, não é mais pra mim.   Acabo me estressando, o que, óbvio, não é o objetivo da viagem.

Mas claro que, para uma apaixonada por viagens como eu, qualquer saidinha tá valendo. E… foi um passeio bacana. Ou melhor, eu fiz dele um passeio bacana.

Depois de encarar uma noite inteirinha na poltrona do buzão, chegamos por volta do meio dia em Colônia de Sacramento, na Sexta-Feira Santa. A cidade transbordava de turistas brasileiros, argentinos e os próprios uruguaios. Já me deu um comichão… Totalmente previsto, né?!

O guia já quis nos empurrar para um restaurante, “sugerindo” que todos almoçássemos juntos, o que, claro, não rolou, porque não só o dito restaurante, como muitos ao redor, na avenida principal de Colônia estavam lotados.

Combinamos então de cada um procurar seu almoço e foi marcado um horário e local para fazermos um city tour à pé pelo Centro Histórico de Colônia, guiado.

Felizmente, decidimos, eu e minhas amigas, caminhar por ruas transversais à principal, e nos deparamos com o El Drugstore, um misto de café, restaurante e bar. Um charme de lugar, com mesinhas na calçada, com uma ótima música ao vivo, uma cantora muito talentosa que cantava circulando entre as mesas. Um clima muito agradável mesmo. Adorei!

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Adorável clima em Colônia de Sacramento

No Drugstore comi a melhor refeição que fiz no Uruguai. Um peixe com um tempero delicioso, arroz e vegetais. Acompanhado de um vinho branco uruguaio. Feliz da vida!

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O interior do Café Restaurante Drugstore

Na hora marcada (muito cedo a meu ver), fomos encontrar o grupo para o tal do city tour. Deveras “meia boca”, devo dizer. Nem foi culpa do guia, mas sim, da horda de turistas que estavam em Colônia, que não permitiam fotografias sem que estivesse enquadrado também várias pessoas estranhas. Era difícil até de caminhar, quanto o mais, parar para escutar explicações sobre a história local. Sem condições.

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E o guia estava com pressa para cumprir o itinerário no Centro Histórico no tempo previsto. Me “perdi” do grupo e fui circular pelo cais do porto, outras ruelas, até, por fim, e a contragosto, ir ao encontro do ônibus, no horário da saída. Que dó…

O roteiro da viagem previa uma parada na Granja Colônia Arenas, que fica na saída da cidade de Colônia de Sacramento. Trata-se de uma tradicional granja da região, que produz produtos como doces, geléias e queijos. Também existe um museu, que trata da compulsão do proprietário por coleções, como de lápis e chaveiros.

Também existe um restaurante no local, que não quis atender os grupos que chegavam em sequência nos ônibus, alegando que o horário de funcionamento já havia expirado. Nem lamentei, porque as referências da qualidade da comida não eram animadoras.  Ou seja, visita totalmente dispensável.

Fiquei fazendo hora no pátio da granja, com um vidro pequeno de doce de leite que adquiri no local, meio na obrigação de comprar algo. E preparei meu chimarrão, que este sim, estava me fazendo muita falta.

Ainda bem que, como tudo na viagem, não nos demoramos porque havia pressa para chegar em Montevidéo, a cerca de duas horas dali. Aproveitei esse tempo para descansar e não chegar tão acabada na Capital.

Chegamos no NH Columbia, nosso hotel por duas pernoites na Capital, por volta das 19h. Já com horário previsto para saída para o jantar, na região central da cidade.

Sobre o hotel, nas margens do Rio da Prata, próximo ao Centro Viejo de Montevideo, cumpriu o seu papel de nos oferecer uma boa cama, lençóis limpos, e um bom banheiro. Confortável, sem destaques. O café da manhã poderia ser mais variado, mas ok.

Já fiquei em hotéis e hostels muiiitooo mais singelos. O adjetivo para eles é light, porque o correto é “espelunca” mesmo, como já me hospedei em O hotel, com letra maiúscula. Mas definitivamente, o lugar onde durmo não compromete a viagem, se o lugar visitado é estimulante.

O ônibus nos levou até o centro e nos deixou livres para escolher onde jantar, já que não havia muitos restaurantes abertos e os que estavam atendendo estavam muito cheios. A TV transmitia o jogo de futebol entre Brasil x Uruguai, que ocorria em Recife. Mantendo o clima de tranquilidade entre os espectadores , as seleções mantiveram um diplomático empate em 2 x 2.

Não exatamente por opção, mas sim por disponibilidade, escolhemos o restaurante La Pasiva, onde é claro, jantamos o tradicional “Chivitos com guarnicion”. O prato era enorme! Muitas “papas fritas”. Para mim, regado à vinho, claro.

O cansaço da noite anterior mal dormida no ônibus, o dia todo caminhando, aliado à barriga cheia e ao vinhote, culminei  num estado de coma. Desmaiei na cama do hotel, achando que era a melhor do mundo!

O sábado amanheceu com uma chuva fina que embaçava o visual da Rambla, que tem um calçadão generoso para caminhadas, margeando o “mar” do Rio da Prata em frente.

A manhã era livre e já estava programado a saída para o city tour para às 13h30min. Coisa que eu, mentalmente, já havia deletado da minha programação.

Depois do café da manhã, eu e as meninas pegamos um táxi e fomos passear. Não fomos ao Mercado del Puerto porque estava chuviscando, dificultando a caminhada ao ar livre, e também porque era 10 horas da manhã e nossa intenção, naquele momento, não era comer parrilla. Então, nos dirigimos ao MAM – Mercado Agrícola de Montevideo. Lugar bacaninha, limpo, bonito, onde se vendem temperos, hotifrutigranjeiros, vinhos, antiguidades, artesanatos e há alguns restaurantes. Como chovia, foi um lugar estratégico  para passar um pouco do tempo.

Lá garimpei uma maletinha de lata muito fofa, com menção à várias cidades do globo. Bem legal. Foi a compra que mais curti na viagem (e praticamente a única). Saímos também com típicas empanadas uruguaias, de vários sabores, que foi nosso almoço mais tarde, já no hotel.

De lá seguimos para o magnífico Teatro Solís, prédio neoclássico de 1856, onde fizemos uma visita guiada, bem interessante. O teatro é muito bonito. Foi nesse momento que soubemos que haveria dois espetáculos naquela noite. É claro que já me interessei por assistir um deles, “Las Maravillosas”, que trata sobre as mulheres na história do Uruguai. Um prato cheio para as feministas brasilenas, eu e Iris.

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O lindo interior do Teatro Solís

Antes de retornar ao hotel, demos umas voltinhas na Plaza Independência, que é o coração do centro histórico, marcada pela estátua equestre do general Artigas e pelo Palácio Salvo, de 1928. Findo o breve circuito, retornamos ao hotel, com a perspectiva do programa para a noite.

As amigas aderiram ao city tour e eu fiquei fazendo hora no hotel, na expectativa que o chuvisco cessasse, porque eu queria pedalar de bike pela cidade e o hotel tinha as magrelas para alugar.

Passado uns quarenta minutos e nada do chuvisco dar uma trégua. Pensei com os meus botões: “Guria, tu é doce mas não é de açúcar. Te manda, porque depois vai ficar o arrependimento por não ter feito o passeio planejado” .

Vesti meu agasalho com capuz e encarei a rua, as ramblas de Montevidéo, pedalando faceira por quase três horas, na costaneira, com o vento que vinha do rio na minha cara, e depois pelas ruas centrais da cidade. A-do-rei!

Voltei encharcada para o hotel e feliz. Um banho quente foi providencial e reanimador. Logo chegou a Iris e nos arrumamos, nos embelezamos e partimos para o Teatro Solís.

O espetáculo era lindo, de excelente qualidade de produção e interpretação dos atores e atrizes. Um misto de teatro com musical. Show! Foi o ponto alto dessa viagem ao Uruguai, com certeza. Voltamos faceiras para o hotel. Jantamos no quarto. Eu mais uma vez acompanhada de vinho uruguaio.

Já perceberam que tenho “uma quedinha” pela bebida dos deuses, o suco fermentado da uva, né? Risos…

Na manhã seguinte, malas pra dentro do buzão, partimos rumo ao Balneário de Piriápolis e depois Punta Del Este. Bom, o que dizer… Que foi tudo muito rápido.

O povo do ônibus estava muito mais a fim de fazer compras nos freeshops do Chuí do que curtir o visual do Cerro San Antônio, em Piriápolis ou apreciar a vista em Punta Ballena, na Casa Pueblo.

Tudo bem que o tempo estava xarope mesmo, sempre chuviscando, mas não havia motivo para nos impor tamanha maratona.

Em Piriápolis, claro, não rolou o passeio de teleférico até o alto do morro. Acredito que, pelo tempo feio que fazia e também pela pressa.

Fiquei com muita vontade de retornar à Piriápolis no verão, de carro, para poder aproveitar e fazer todas as paradas que quiser, ficar por quanto tempo desejar. Aaah, se volto…

Na Casapueblo, em Punta Ballena, antiga residência do artista uruguaio Carlos Paez Vilaró, hoje um museu com obras do artista, galeria de arte e um hotel, fui praticamente arrastada pela mão pela guia para que retornasse ao ônibus. Não consegui ver todo o prédio porque já estava na hora de seguir. Controlando minha irritação…

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Correndo tudo, escolhi uma reprodução  de uma gravura, um desenho  feito pela filha de Vilaró para mim enquadrar e outro para presentear uma amiga.

O buzão seguiu para Punta de Leste, já com destino a um restaurante super  turístico, onde almoçamos mal pagando um preço elevado pela qualidade da comida. Fazer o que naquela altura do campeonato?! E seguia a maratona, pois o povo dizia pra nos apressarmos, estávamos atrasadas. Uma rápida paradinha para fotos na frente do Conrad Resort & Cassino. Entrar nem pensar, não havia tempo pra isso… Outra parada no monumento Los Dedos, aquela escultura em que os dedos de uma mão emergem da areia, na Praia Brava. Não consegui tirar uma fotografia decente, porque estava lotado de gente. Desisti.

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Punta del Leste
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Conrad Resort & Cassino

Dali, para alívio dos compradores compulsivos, seguimos para os freeshops no Chuí. No caminho passamos pela ponte ondulada Leonel Vieira, que introduz La Barra, o primeiro vilarejo que sucede Punta.

No Chuí eu achei absolutamente tudo sem graça, muito caro, diante a cotação do dólar. Minhas compras se resumiram as batatas Pringles e alfajores. Fiquei matando tempo jantando uma comidinha “sem vergonha” num botequinho que achei perto do ônibus. Sem comentários.

Depois do povo  acomodar as compras no ônibus, partimos de volta à terrinha, em mais uma noite mal dormida. Cheguei em casa por volta de 6h da manhã, exausta. Já abri as malas, organizei as coisas, banho, maquiagem pra disfarçar o cansaço e fui trabalhar, porque era segunda-feira, né.

Depois desse relato, fica a pergunta óbvia: se gostei? Se valeu? Claro que sim! Pra uma viajante inveterada como eu, não tem viagem ruim. Só depende da perspectiva pelo qual se olha.

Concluí que eu fiz dessa viagem empacotada o melhor possível. Houveram momentos bons, e é deles que quero lembrar. Eles fizeram a viagem valer a pena sim.

Por fim, foi uma oportunidade pra mim me reconhecer de vez. Excursão à toque de caixa, com pessoas que não tem o mesmo propósito que eu, no más…

Uruguai, voltarei!!! De carro, com calma, para realmente te conhecer e reconhecer.

 

3 comentários em “Uruguai

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