Américas

Bolívia: De Villazón à Sucre

29/05

Acordei cedo. Às 5hs30min já estava de olho arregalado, disposta a sair pra rua, mas ainda estava escuro lá fora. O termômetro marcava 1 grau. Fiquei fazendo hora na cama e às 6hs finalmente levantei. Organizei minha mochila, fiz a higiene e tal. Queria aguardar até às 8hs para tomar o desyuno servido pelo hostel. E o Marcelo tinha me informado que o trabalho da aduana começava nesse horário também. Então o jeito era esperar…

Quando era 8hs saí em direção à recepção, onde também ficava o refeitório. Para minha surpresa, estava tudo chaveado, escuro, em total silêncio. Nenhuma alma viva naquela manhã de domingo gelado no Hostel Copacabana.

Saí às catas de alguém, de alguma porta aberta, mas tudo estava chaveado. Eu estava trancada naquele lugar. Forcei algumas portas, fiz barulho. E então, eis que surge o Marcelo, com jeito de quem acabou de sair debaixo das cobertas, cabelo desgrenhado, cara amassada. Desculpou-se num espanhol incompreensível, e foi abrindo a porta de saída do hostel. Nem se justificou pela ausência do desayuno.

Nessa altura do campeonato eu só queria sair de lá, cair no mundo. Que coisa, isso. Que falta de profissionalismo, gente. E isso que ele é o proprietário do hostel. Aff…

O ar gelado da rua me despertou de vez. Aquele céu azul lindo, sol de inverno. Delícia… As ruas ainda quietas, poucos passantes naquela hora da manhã. Tão cedo, num domingo. Segui pelas ruas, caminhando com minha mochila nas costas, fazendo o trajeto indicado pelo mapa da cidade que ganhei no hostel. Não tardou a ver a identificação da fronteira. Segui sem qualquer problema. Primeiro me apresentei à aduana argentina, para carimbar minha saída do país. No mesmo prédio acessei a aduana boliviana, carimbando o ingresso no país. Atravessei uma pequena ponte e… pronto. Eu estava na Bolívia. Muito simples.

A cidade boliviana na fronteira chama-se Villazón. Típica cidade fronteiriça, pobre, simples, comércio informal, locais circulando entre os dois países. Troquei alguns pesos argentinos que sobraram numa casa de câmbio, recebendo então os bolivianos, a moeda local. Depois de me informar sobre a localização do terminal rodoviário, caminhei por cerca de cinco quarteirões. A movimentação de pessoas, ônibus e vans determinou que eu havia encontrado o terminal. Várias pessoas me cercaram, querendo vender passagens. Ignorei-as e segui para os guichês.

Constatei que haveria passagens para Sucre somente no final da tarde. Já para Potosi sairia às 11hs. Melhor impossível, pensei. E comprei esse ticket. Viagem confirmada, fui atrás de um café.

Encontrei uma “cafeteria” (nada a ver com o que identificamos como um estabelecimento desses no Brasil) onde encomendei um café “negro” e um sanduíche. O local era típico da fronteira,simplíssimo. Me abanquei para esperar meu café, com os pés gelados. Minha mochila cargueira no chão. Na televisão passava o Grande Prêmio de Mônaco, em volume alto. Meu interesse por Fórmula 1 é nível zero. Ignorei.

Achei que era melhor ficar ali na cafeteria do que ficar na bagunça da rua, com passantes, vendedores, ambulantes, pedintes. Depois do café, puxei papo com o proprietário, de forma amistosa. Já solicitei água quente e fiz um chimarrão. Sorvei vários “mates” na cafeteria e o tempo de espera, então, passou rápido.

Na saída ainda observei uma movimentação numa praça existente na frente do terminal, com vários militares num palanque, uma banda, pessoas reunidas. Me aproximei para conferir. Constatei uma faixa que fazia referência ao Dia de Las Madres. Então conclui que naquele domingo era o Dia das Mães na Bolívia. A Polícia Militar organizou um evento alusivo à data, com música, brinquedos para as crianças, discursos. Acompanhei de longe, até que se aproximou o horário da saída do ônibus do terminal.

Então me dirigi para o terminal e esperei, esperei… Os bolivianos, como viria a comprovar depois, não tem qualquer compromisso com a pontualidade, nenhuma preocupação em cumprir horários. O ônibus deve ter saído do terminal uns 20min depois e o povo aguardando. Certamente estavam em busca de passageiros de última hora, pois o coletivo não estava lotado.

Deu tempo de comprar água, lanches, frutas, chicletes, para enfrentar a viagem, que seria, à princípio de 6 à 7 horas até Potosi.

Quando enfim o ônibus deu partida no terminal, para meu alívio e dos outros passageiros, depois de um quarteirão, parou novamente. As pessoas reclamaram. Entendi do burburinho que corria, que ainda aguardavam a venda de mais uma passagem no ônibus. Parece que as passagens vendidas fora do terminal são mais em conta para o passageiro, algo assim. Fiquei na minha, não tinha o que fazer. Passado mais alguns minutos, enfim seguimos…

Mas seguimos assim… muito lentamente, pelas ruas empoeiradas da cidade. O ônibus, muito sujo, desleixado, cortinas puídas, bancos manchados, com um tapete imundo no chão, do qual levantava pó ao se caminhar, as janelas abriam, entrava vento e pó. Inútil perguntar se havia ar condicionado, né?!

Quando enfim o ônibus alcançou o asfalto, descobri qual seria o drama da viagem. Não entendo de mecânica, mas o fato é que o ônibus se movimentava muito devagar, se arrastava pela estrada. Parecia que o motor não tinha força. Creio que fosse um problema de motor ou velas, sei lá. A velocidade não passava dos 60 km/h nas descidas. Nas subidas deveria andar a uns 30 km/h. Um teste de paciência…

E era do tipo “pinga-pinga”. Parava a toda hora na estrada para descer passageiros e pegar outros. E entrava nos vilarejos. A paisagem era desoladora. Semi-árida. Casas de adobe, de aspecto muito simples, pastores com ovelhas e cabras. Muito de vez em quando algum filete de água, pequenos córregos. Assim transcorreu o dia, por entre montanhas e paisagem árida, por NOVE horas, até chegarmos em Potosi.

Eu estava tão cansada, em tal estado de exaustão, que nem me animei a tirar a câmera fotográfica de dentro da mochila para tirar fotos daqueles rincões bolivianos e das figuras locais, “cholas, pastores, crianças, sacolas, sacos”, tudo entrava e saía do dito ônibus.   Nem cochilar eu consegui. Ora sol na cara, ora solavancos da estrada, freiadas bruscas, movimentação de sobe e desce de pessoas. Em dado momento da viagem o povo resolveu assistir a filmes no DVD, na televisão instalada acima de minha cabeça, em volume altíssimo. Resultado da Sessão da Tarde boliviana: umas 4 horas de volume alto passando dois filmes que eu já assisti. Na presente ocasião, claro, numa dublagem em espanhol, da série Se Beber Não Case. Ao término do segundo filme, me puxei no portunhol, bati na porta do motora e exigi que retirasse o som da televisão, no que fui atendida.

O  motorista, creio que, por vingança, ligou então música boliviana, em volume correspondente ao do DVD. Então não soube dizer o que era pior. Tortura, tortura… Tentei abstrair. Pensei: isto deve ter algum propósito. De elevação espiritual, algo assim…

Na chegada em Potosi, por volta das 20hs,  já tive a visão do onipresente Cerro Rico, à dominar a paisagem da cidade. O trânsito na cidade estava caótico e o ônibus demorou tempo, trancado no engarrafamento, até chegar no terminal rodoviário. Potosi tem dois terminais rodoviários. O novo e o antigo. Chegamos no Terminal Novo.

Ao descer do ônibus negociei um táxi por 15 bolivianos, para me levar até um hostel, o Koala Deu, sobre o qual tive referência no Guia Criativo para o Viajante Independente na América do Sul, minha bíblia nessa viagem. Detalhe que a edição do meu guia é de Junho de 2013.

Na Bolívia os táxis não tem taxímetro e você tem que negociar o preço da corrida antes de ingressar no veículo. Mas os valores, em geral, são muito baratos.

Da mesma forma que ocorreu em La Quiaca, havia uma mulher acompanhando o motorista do táxi, sentada ao lado dele, e com um bebê no colo. Estranhei, mas novamente, não fiz qualquer comentário.

Entrei no Koala. Havia quartos disponíveis. Pedi para olhar. Horrível. Muito ruim. Na hora pensei: só durmo esta noite, já é tarde, estou exausta, amanhã vejo outro. Assinei o Livro de Registro de Entrada, peguei a chave e fui para o quarto. Sentei na cama, olhei em volta e… não! Sem condições, não iria ficar ali. Voltei para a recepção. dei uma desculpa, que uma amiga estava me esperando em outro hostel. O recepcionista, é claro, resmungou, não gostou, mas nem esperei a resposta e me mandei, porta fora, ganhei a rua escura da cidade.

Com a mochila nas costas, pedi informações sobre a Plaza 10 de Noviembre, a praça principal da cidade, que ficava a poucos quarteirões dali. Supus que em torno da praça existiriam opções de hostels, mas não. Já passava das 21hs e circulei pelo centro, pedi informações, chequei alguns hotéis e hostels. Alguns muito caros, outros muito ruins. Lembro de um hostel que me apresentaram um quarto que parecia um cofre, sem janelas, com uma porta de larga espessura, como um isolante acústico, toda forrada com um carpete, que pelo aspecto, parecia ser da época da colonização espanhola. Nossa!

Até que encontrei o La Casona Hostal. De cara, na recepção, encontrei uma inglesa brigando com o recepcionista, porque não havia calefação e na descrição do Booking o estabelecimento afirmava que havia. Detalhe que eles não se entendiam, pois a inglesa não falava espanhol e o funcionário não falava inglês. Intervi na discussão fazendo a tradução, no que consegui. Não me intimidei com o climão e pedi para ver o quarto: cama de casal, com banheiro privado, iluminado pela janela que dava para uma pequena sacada, para a ruazinha de prédios coloniais, piso de tabuão, pé direito alto, lugar limpo e com preço razoável. Gostei e ali fiquei. O único senão é que realmente as noites potosinas são muito frias e a ausência da calefação inviabilizava a movimentação dentro do quarto e do hostal. Mas nada que um banho quente e várias cobertas não resolvessem. Dormi muito bem. Ufa! Depois do dia todo no buzão, eu achei a cama fantástica. Tudo muito bom. Pra ver que tudo depende da perspectiva que se olha e das nossas experiências anteriores.

30/05

Acordei às 6hs da manhã, com temperatura negativa na cidade. Mas eu estava quentinha embaixo das cobertas e fiquei assistindo televisão, o telejornal local. Durante o transcorrer do noticiário, e no que meu portunhol possibilitou, descobri que haviam manifestações dos transportadores rodoviários na região, e que estes tinham obstruído a “carretera”, a estrada que liga Potosi para Sucre, com seus caminhões. E ninguém passava. Vixi!, me preocupei. Mas como teria dois dias na cidade, resolvi deixar rolar e torcer para que o panorama se alterasse.

Às 8hs30min tomei o desayuno (fraco, como é o padrão boliviano, uma fruta, quando há, pão, geléia, leite e café) e encarei a fria manhã, com um ventinho gelado pegando.Primeiro uma parada na Central de Informações Turísticas, peguei um mapa da cidade e defini pontos para visitação. Eu tinha reservado aquele dia para conhecer a cidade e o dia seguinte para o tour ao Cerro Rico, se persistisse a coragem para fazê-lo.

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Ruas geladas de Potosi, e o onipresente Cerro Rico ao fundo

Dei um tempo no solzinho na Plaza 10 de Noviembro, “lagarteando”, me escondendo do vento. Na praça transcorria uma solenidade de aniversário de uma escola. Discursos e hino, as crianças enfileiradas e uniformizadas. O povo acompanhando. E eu também.

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Plaza 10 de Noviembro, vista do alto do Campanário da Catedral de Potosi

Depois fui visitar a Iglezia, Museu e Mirador São Francisco. Um tour bem bacana nas dependências do prédio, até o alto, no telhado/mirador, de onde se tem uma bonita vista do centro histórico e de toda a cidade. Só o vento gelado judiava um pouco. Antes disso, entrei na Igreja e acompanhei parte da missa, comunguei, e o padre abençoou os fiéis (uma meia dúzia) individualmente com água benta. Me pareceu um banho gelado naquela manhã muito fria. Fiquei com a cabeça pingando água e creio, abençoada.

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Mirador da Iglezia São Francisco

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Depois fiz uma visita à Catedral de Potosi. Nova escalada por muuiiitos degraus até o campanário/mirador. Cheguei lá encima bufando. Desviando a cabeça dos grandes sinos, fiz várias fotos, enquanto aguentei o vento gelado.

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À tarde fiz um tour pela Igreja, Museo e Convento Santa Tereza. Arte sacra, histórias e peculiaridades da época da colonização espanhola e do claustro das Irmãs Carmelitas. Muito interessante.

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Interior do Convento Santa Tereza

Passando novamente pela Plaza 10 de Noviembro, me chamou a atenção a elegância dos jovens estudantes. Todos uniformizados com calça e blazer azul marinho, gravata, camisa branca, gel no cabelo. As meninas com saias e casacos. Achei lindos!

Fui até o supermercado e comprei itens para fazer meu jantar no hostal. Estava cansada de comida de restaurante. Fiz uma apetitosa “massa com sardinhas”, acompanhada de pães fresquinhos. Comprei um garrafa de vinho, mas me dei mal. Na pressa não reparei que o vinho era suave. Só gosto de vinho seco. Então fiz a doação do vinho para uns meninos que estavam no hostal, que adoraram o presente surpresa. Troquei pelo café que eles tinham e fomos todos muito felizes. De sobremesa, uma barra de chocolate. E caí na minha cama de casal, com pesadas cobertas, de barriga cheia. Quentinha..Delícia.

31/05

Acordei cedinho, ansiosa pelo tour às Minas do Cerro Rico, acertado na recepção do hostal na noite anterior. Um misto de medo, ansiedade e curiosidade.

Conhecer as minas do Cerro Rico é uma instigante aventura pelo lado obscuro da história boliviana – literalmente..

Do Cerro, hoje, são extraídos zinco, chumbo, cobre e, principalmente, estanho. Centenas de pessoas trabalham nas minas (e, nos disse o guia Jhonny, inclusive crianças, de forma ilegal e longe dos olhos dos turistas).

Fiz o check out e deixei minha mochila no depósito. Tomei o parco desayno e esperei pela saída do tour, previsto para às 8hs30min. Para minha surpresa, além de mim, faria o tour apenas a canadense Emily, monitoradas pelo guia Jhonny Salas, da agência Intrepid. O Jhonny é uma figuraça, se apresenta como Jhonny Louco. Muito divertido, extrovertido, nos ofereceu um gole de pisco para nos aquecer. Recusei, com medo de passar mal na altitude e por nervosismo, ter uma queda de pressão, fazer fiasco. Jhonny parecia ser conhecido de todos no Mercado Mineiro e no Cerro Rico. Já me senti mais confiante. Bem, pelo menos parecia que o cara não iniciou ontem no negócio.

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Com Jhonny, no Mercado Mineiro

Ainda no hostel Jhonny nos levou para uma sala nos fundos onde nos vestimos com roupas de mineiro. Calça e casaco, de um tecido resistente, capacete com lanterna embutida , botas, cinturão e um saco que serve como mochila. Vestidos assim, como “caça-fantasmas”, seguimos pelas ruas de Potosi, para pegar um ônibus urbano, que nos levou até o Mercado Mineiro. As pessoas nos ignoravam, indicando que tal cena é rotina na cidade.

Fomos de ônibus até o Mercado Mineiro, onde nos dirigimos até uma loja que vende artigos relacionados à mineração, inclusive pólvora, dinamite e acessórios para detonação. Também compramos alguns “regalos” para os mineiros, suco de laranja e folhas de coca. Carregamos tudo na mochila e tomamos outro ônibus, que nos deixou aos pés do Cerro Rico, em um dos seus acessos. Pausa para fotografias. Esse acesso é um dos 300 existentes no Cerro, situado a aproximadamente 4 mil metros de altitude. Gente, bateu um medão na hora de entrar…

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Acesso que usamos no Cerro Rico

Mas seguimos pelo túnel, vendo a luz do dia se distanciar, nos dirigimos para o coração da montanha. Logo no início do tour fomos apresentados à figura/escultura do Tio Supay, uma unificação da figura do Huari, deus do interior das montanhas, com a do diabo, que na religião católica, vive abaixo da terra, em mais um exemplo do forte sincretismo religioso presente na Bolívia. Em busca de proteção no trabalho, os mineiros fazem oferendas com álcool, cigarros e folhas de coca para o Tio Supay.

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Figura do Tio Supay, no interior do Cerro Rico

Iniciamos o tour em pé, mas em vários momentos tivemos que nos agachar, em outros andar “de quatro”, engatinhando e por fim, nos arrastar para acessar buracos, níveis e labirintos. Confesso que me controlei para não entrar em pânico nos momentos em que o túnel apertava, ou nos acessos aos níveis, quando se tem que escalar para andares superiores ou escorregar para andares inferiores, sem absolutamente nada para se agarrar, para se apoiar, na maioria dos casos,entrando em buracos escuros, nos quais não se vislumbra o chão. Em alguns trechos caminhamos por áreas alagadas, com água pelas canelas. Intercalava as sensação de frio e de abafamento dentro da montanha. Vi as vigas de grossas toras de madeiras  se entortando sob o peso das rochas. Evitava pensar se algum dos acessos cedesse. Como sairia dali?!

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Nos labirintos da montanha, somente com a luz dos capacetes

Definitivamente, não é um passeio tranquilo… Muito provavelmente um tour desses não seria permitido num país europeu ou mesmo no Brasil.Você realmente passa a ter idéia das dificuldades encontradas pelos mineiros – cujas condições de trabalho não parecem muito melhores do que séculos atrás.

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Passagem de nível dentro da montanha

Em alguns momentos sentamos para descansar no trajeto. Eu suava de nervosa dentro das roupas grossas. Muita poeira no ar, às vezes cheiro de enxofre, de minerais, não sei. Nos obrigava a respirar através de um lenço (depois ganhamos de regalo, lembrança da aventura). Jhonny brincava para descontrair, percebendo-me nervosa. Até propôs o exercício de desligar momentaneamente a luz dos capacetes. Breu total, escuridão. Luzes ligadas novamente, questionei sobre as baterias das lanternas. Jhonny informou que tem duração de 72 horas quando ligadas de forma contínua e com ele havia outras sobressalentes. Ah, tá, fiquei tão mais tranquila…

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Mineiros trabalhando no interior do Cerro. Bochechas cheias de folhas de coca para suportar.

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Nas andanças por dentro dos labirintos do Cerro, encontramos um grupo de mineiros trabalhando. Cinco deles, empurrando pesados vagões com cerca de 2 toneladas de pedras sobre trilhos. Um trabalho difícil, pesado e arriscado. Conversamos, brincamos, tiramos fotografias com eles. Seguimos pelos labirintos e depois encontramos outro grupo de mineiros. Nova pausa. Entregamos os “regalos” que trouxemos. Eles estavam extraindo pedras, minerais de um dos acessos. Muito pó no ar. Depois começamos o trajeto para sair da montanha. Foram cerca de 2hs30min nesse ambiente, conhecido entre os espanhóis do período colonial como “boca do inferno”. Quando finalmente, após caminhar pelos túneis, vimos os primeiros sinais da luz do dia, foi um alívio. Sair de dentro da montanha para ver o céu azul de Potosi, o calor do sol, o vento frio, foi motivo para festejar. Me senti uma vencedora. E uma sensação de alívio, de superação, tomou conta de mim. Estava exausta, fruto do esforço e da adrenalina da aventura. Mas feliz!

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Aliviada, na saída da montanha

Retornamos para o hotel com o transporte público. Lá saquei as roupas de mineiro, me limpei do jeito que deu e fui almoçar na companhia de Emily. Isso por volta das 14hs.

Passada a emoção do tour no Cerro Rico, minha preocupação voltou-se para o fato de que as carreteras continuavam bloqueadas pelos caminhões, impedindo o acesso regular para Sucre. A Polícia proibiu os ônibus de sair dos terminais rodoviários de Potosi.

Então lembrei de alguns comentários que li no Guia do Viajante Independente, de que atrás do terminal rodoviário antigo de Potosi haviam táxis, onde era possível compartilhar com outros passageiros a “corrida” para Sucre, ou seja, divisão das despesas com o trajeto. Resolvi tentar. Pensei: o máximo que pode acontecer é não ter jeito e eu ter que retornar para o hostal.

Chamei um táxi e paguei 15 bolivianos até o local. Quando cheguei no antigo terminal, fui cercada por dezenas de pessoas, de taxistas, oferecendo um lugar em seus veículos, me disputando, e gritando os valores da “passagem”.   Durante a confusão, o veículo que me trouxe partia. Sobressaltada, dei falta da minha mochila cargueira, que seguia esquecida, no porta-malas. Saí gritando pela rua, cerca de um quarteirão, até que o taxista me viu e parou seu carro.Pediu desculpas, abriu o porta-malas e entregou minha mochila. Quase…

Novo duelo com os táxis compartilhados. Acabei fechando com um cara que me pareceu mais confiável e prometia que eu só o pagaria se efetivamente ele me deixasse no centro de Sucre. Paguei pelo meu lugar no veículo o valor de 70 bolivianos. Ainda fui bem instalada, ao lado do motorista. Pior estavam três mulheres, espremidas no banco traseiro.

Já na saída de Potosi tivemos que fazer um desvio por estrada de chão, pois os caminhões bloqueavam a pista. Superado este momento inicial, seguimos por muitos quilômetros em boa estrada asfaltada, por paisagens de montanhas. A tranquilidade imperou e relaxei, curti o visual da estrada.

Até que em dado momento do trecho o motorista acessou uma estrada vicinal, de chão, e então seguimos assim por muitos quilômetros. Estrada esburacada, com muitas pedras na via, cascalho, poeira. Com o rosto ardido do sol e vento, cansaço, seguimos, na esperança que logo encontraríamos novamente o asfalto, mas demorou. Bem depois, já próximos à Sucre, acessamos o asfalto.O bloqueio de caminhões ficou a nossa direita. Atrás dele, muitos quilômetros de fila de caminhões, automóveis e ônibus. Mas para nós, pista livre até Sucre. Ufa! Nesta aventura se foram cerca de 4 horas.

O taxista cumpriu o prometido e nos deixou no centro da cidade. Paguei o combinado e segui para o Hostal Patrimônio, que havia reservado via Booking. Ótimo hotel, meio caro, mas, disparado, o melhor que fiquei durante toda a viagem. Cama fofa, lençóis macios, banheiro grande, limpo. Vista para a rua, através de uma pequena sacada. Eu merecia esse pequeno luxo, depois do dia intenso que eu tive. Primeiro,o tour no Cerro Rico. Depois, a aventura nos rincões bolivianos. Tomei um super banho, para expulsar do corpo os quilos de terra acumulados nas minas e na estrada até Sucre.

Durante o banho aproveitei para lavar no box a roupa suja que eu usei naquele dia e outras que eu trazia na mochila. Foi uma banho demorado e delicioso.

Saí para procurar um lugar para jantar. Encontrei o Café Condor, vegetariano. Adorei o astral do lugar e as comidinhas. Junto ao Café funciona uma agência de tours. Já acertei o passeio do dia seguinte.

Nos poucos quarteirões que caminhei até encontrar o hotel, já deu pra ver que Sucre é linda, fazendo jus às referências lidas à respeito da cidade em blogs e no Guia de Viagem. Prédios lindos, bem conservados. A Praça Central, muito bonita também.

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01/06

Na manhã seguinte fui ao Mercado Público xeretar, dar uma pernada pela área central da cidade. O walking tour estava marcado para às 10hs. Foi muito bacana, especialmente porque os integrantes do tour era apenas eu e um boliviano, o Frans, aprendiz de guia turístico, além do guia César.

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Foram várias paradas em pontos interessantes da cidade, explicações sobre a história da cidade e da Bolívia. Pitoresca foi uma visita a uma Chicharia, onde bebemos chicha, uma bebida feita a base de maiz. Programa bem típico de Sucre. Lá se joga “sapo”. O jogo consiste numa competição para ver quem consegue acertar mais moedas numa caixa com orifícios e a escultura de um sapo. Quem faz mais pontos está isento de pagar sua bebida. Quem perde paga a bebida dos demais. Acho que foi sorte de principiante, mas ganhei o jogo. Levei a chicha de graça. Risos.

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O tour seguiu até o Mirante de La Recoleta, num local bem alto da cidade, com uma vista legal. Retornamos ao café Condor por volta das 14hs30min.

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Chegando no centro já descolei um microbus para ir até o Parque Cretáceo, que fica numa área periférica da cidade, a 5 km do centro. No caminho até lá o transporte passou por uma grande mercado popular, tipo Ciudad del Este, no Paraguai. O microbus seguiu o tempo todo com a porta aberta. Muita fumaça de escapamentos. Pessoas entrando e saindo do transporte urbano. Paguei 1,50 bolivianos pelo trajeto. Muito barato.

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Achei o parque legal, interessante, mas não me demorei muito por lá. Estava muito cansada. Fiz algumas fotos, conferi o museu, observei a encosta onde ficam as cerca de 5 mil grandes pegadas de 150 tipos diferentes de dinossauros, vestígios de mais de 70 milhões de anos e ok, retornei à cidade da mesma forma que fui. Chegando no hotel fiz um chimarrão, que curti na sacada do hotel.

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Na recepção do hotel me informei sobre o espetáculo folclórico Orígenes, do qual havia ouvido falar no walking tour. Início previsto para as 20hs. Tomei um banho. Mesmo muito cansada, reuni forças e fui. O valor incluía o espetáculo e o jantar. Fiz uma caminhada de cerca de 5 quarteirões até lá. Fui a primeira a chegar. Fiquei com receio de que seria a única espectadora, pois o povo demorou para chegar e não foram muitos mesmo. Mas achei que o espetáculo valeu muito a pena. Eu adoro esse tipo de espetáculo folclórico. Acho que ele situa o viajante sobre a cultura legal. Dá um resumão. Considerei o espetáculo de muito bom nível, tanto quanto ao desempenho dos artistas, quanto os figurinos, as músicas, enfim, a produção.

Teve um momento bacana no final: os dançarinos desceram e chamaram a platéia para dançar junto no palco, numa grande roda de dança. Uma interação muito legal. Fechando a noite com chave de ouro, a comida servida era muito boa. Bem elaborada, um prato bonito, gourmet. Me deliciei. Fui para o hotel cansada, com muito sono, mas feliz por ter vivenciado o espetáculo naquela noite fria de Sucre. Excelente lembrança da cidade. Em La Paz não me ofereceram nada semelhante para assistir. Ainda bem que venci meu cansaço e fui conferir o Orígenes. Senão teria deixado a Bolívia sem a compreensão de suas danças típicas, manifestação da cultura local.

Para conferir outros posts sobre essa trip:

Mochilão Sul-Americano 2016

La Paz e Lima

Salta e Norte Argentino

Créditos da edição das fotografias: Elisa Mendes Fotografia

Fan Pagehttps://www.facebook.com/Elisa-Mendes-Fotografia-1400340960231906/

Site de imagens focado em natureza e paisagens = http://elisamendesfotografia.tumblr.com/
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2 comentários em “Bolívia: De Villazón à Sucre

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