Brasil

Expedição ao Jalapão, no Estado do Tocantins

Interessante que hoje não consigo lembrar como foi que surgiu na minha mente a ideia de conhecer o Jalapão. Sei que, em algum momento, depois que retornei da trip à Bolívia, a qual relatei aqui no post Mochilão Sul-Americano 2016 , decidi que minha próxima mochilada seria no Brasil. Estava cansada de me esforçar no portunhol e no inglês, e enfim, queria relaxar e falar a boa, velha e conhecida língua pátria.

Sei lá como, mas possivelmente lendo relatos de viagens, me deparei com imagens de dunas de areia, nascentes, cachoeiras de águas cristalinas, riachos, serras, lagoas e chapadões e… foi amor à primeira vista. Fui contaminada pela vibe rústica e bruta daquela fantástica região do centro norte do país, mais especificamente, do Tocantins.

À partir daí foram muitas horas navegando na net,  realizando pesquisas sobre roteiros, relatos de mochileiros e viajantes, pontos de maior interesse no Jalapão, e claro, as opções de logística sobre como chegar e circular pela região. Foi durante essas leituras, muitas feitas na madrugada, durante crises de insônia, que conheci a Norte Tur http://www.nortetur.com.br/.

As referências positivas feitas por viajantes que já haviam aderido às expedições organizadas pela agência me direcionaram ao site da empresa. Daí foi um pulo para trocar uma sequência de emails, telefonemas e mensagens via whatsapp com a querida Telma e seu filho Flávio, que se intitula “capixaba de nascimento, tocantinense de coração e jalapoeiro de profissão”. Um cara cativante e também super  profissional, que depois vim a conhecer pessoalmente, como guia das expedições. Formado em turismo com certificado de guia nacional, graduado como bacharel em turismo (turismólogo), com conhecimento de causa (trabalhando a 15 anos no Parque Estadual do Jalapão, e desde 2009 com expedições para a Chapada das Mesas, no Maranhão), Flávio é ao mesmo tempo um competente profissional e um cara de bem com a vida,  brincalhão, agregador, rapidamente induz à formação de um espírito de equipe, de grupo, que torna os viajantes bons amigos, no mínimo, pelo tempo que dura a expedição. Para os grupos aos quais pertenci, o “O Jalapão te liberta da Prisão” e a “Allah-la-ô”, quero crer que por bem mais tempo que isso (depois explico sobre a denominação das expedições).

img-20161013-wa0165
Ganhando um mimo do Flávio, uma super disputada paçoquinha, que até foi motivo da instauração da CPI da Paçoca durante a Expedição. Uma das tantas brincadeiras…

Em meio a esses planos, ainda no mês de julho deste ano, durante as férias de inverno das crianças, fui conhecer Bonito, no Mato Grosso do Sul, acompanhada de toda a família. Fiz esse relato aqui Bonito/MS .

Ao retornar de Bonito/MS, defini meu período de férias no trabalho, de 15 dias, e tratei de fechar contrato com a Norte Tur, não apenas para conhecer o Jalapão, mas sim para a Jalapada. O que é a Jalapada? É quando você reúne na mesma viagem duas expedições sequenciais a dois lugares próximos, sensacionais e peculiares: o Jalapão, no Estado do Tocantins, e a Chapada das Mesas, no Sul do Estado do Maranhão. Na verdade, a Jalapada é um produto turístico criado pelo Flávio, da Norte Tur, e que tem se revelado um sucesso entre os viajantes interessados em conhecer genuinamente essas paisagens impressionantes do centro norte do país.

Ainda como argumento matador, e até dispensável naquele momento, soube que no período da expedição à Chapada das Mesas estava prevista, e efetivamente ocorreu, a Super Lua. A Super Lua é o fenômeno que ocorre em intervalos de tempo e que nos dá a sensação de maior visibilidade da lua à partir da Terra. Então conclui (rapidamente!) que fazer essa Jalapada seria uma experiência única e sensacional. E foi!

Contratada as duas expedições, tratei de comprar as passagens de ida e volta Porto Alegre/Palmas para o mês de outubro/16, que fiz com a Gol.

Como as experiências das viagens ao Jalapão e à Chapada das Mesas foram tão intensas, tão ricas, achei melhor dividir os relatos em dois posts, pra não ficarem tão longos. Então, teremos este aqui, dedicado à Expedição ao Jalapão e depois haverá outro post para o relato da Expedição à Chapada das Mesas.

Como moro em Ijuí, a 450 kms de Porto Alegre, a logística para qualquer viagem já começa no deslocamento até o aeroporto na Capital. Peguei o buzão das 20 hs e tentei dormir, já prevendo que passaria a madrugada no aeroporto Salgado Filho. Mas quando é pra pessoa dormir ela não dorme, né.

Cheguei no aeroporto às 2 hs da madrugada e aí foi punk. Não consegui me acomodar naquelas cadeiras infames do aeroporto, especialmente projetadas pra pessoa não conseguir se ajeitar, nem dar uma cochiladinha sequer. Foi longa a madrugada, até próximo às 6 hs da manhã, quando finalmente entrei no avião.

Ainda rolou uma rápida conexão em Brasília e depois mais algumas horas de voo até Palmas, Capital do Tocantins, onde cheguei por volta do meio-dia, acabada de cansaço.

O Flávio me aguardava já na saída do portão de desembarque, segurando uma plaquinha da Norte Tur. Sim! A Norte Tur faz os transfers no aeroporto para seus clientes. Muito providencial para viajantes exaustos como eu.

Na saída do aeroporto já pude sentir o que me aguardava nos próximos 11 dias naquelas terras: um calor do tipo forno, panela de pressão, bafo de labaredas. Ôooo terra quente esse Tocantins!

E eu que saí com um clima ameno, quase friozinho no Rio Grande, me vi de blusa de lã num calorão de mais de 35 graus,com uma sensação térmica beirando os 40 graus. Desespero…

Apesar disso, ainda tive forças para solicitar ao Flávio que, antes de me deixar no hotel, passássemos num lugar onde fossem vendidos produtos típicos gaúchos, pois a gaúcha aqui, na correria para sair de viagem, esqueceu de colocar na mochila os apetrechos para meu chimarrão.

E é claro que o Flávio sabia , né. E assim fizemos um rápido pit stop na Adega do Cláudio, onde encontrei tudo o que eu precisava para fazer um bom chimarrão. E olha só! Conversando com a proprietária descubro que ela é uma desgarrada do pago, e que saiu de Ijuí (isso mesmo, mesma cidade que eu) a muitos anos atrás e fixou-se na Capital do Tocantins. Que mundinho pequeno, né. Aí rolou um papo óbvio, coisa de interiorana, tipo “de que família tu és? em que bairro tua família mora? você conhece fulano e beltrano?”

img_20161007_121157713
Ufa, meu chimarrão garantido,mesmo em terras tão quentes…

Compras feitas, seguimos para o Hotel Graciosa, onde pernoitei. Hotel bem simplesinho, mas que contém o principal: ar condicionado. Só por uma noite, tranquilo. Já fiquei em lugar infinitamente pior. E como não sou fresca, achei ok.

No caminho até o hotel o Fávio me falou um pouco sobre Palmas. Coisas que eu não sabia, como o fato de Palmas ser a última Capital planejada do século XX. Teve sua pedra fundamental lançada no dia 20 de maio de 1989 e instalou-se como Capital definitiva do Estado à partir de 1º de janeiro de 1990, quando o Tocantins desmembrou-se do estado de Goiás.

Enquanto me passava informações, Flávio me falou de outra mochileira que integraria a expedição e que queria dar uma volta na cidade, especialmente ver o pôr do sol. É óbvio que eu aderi, né. Almocei num restaurante próximo ao hotel, organizei minhas coisas, tomei um banho para espantar o cansaço, e foi assim que eu conheci a carioca super gente boa, Jamile. Nos encontramos no hotel em que ela se hospedou, e de táxi, nos tocamos para a Praia do Prata, com o tempo contado para chegarmos na hora do pôr do sol no Rio Tocantins.

Gente, foi chocante! Assim… no primeiro dia em Palmas, assistir o sol de pôr no rio, numa explosão de cores sensacional. Foi a melhor mensagem de boas vindas que o Tocantins poderia nos dar. Já deu para antevir o que seriam as paisagens dos próximos dias.

img-20161007-wa0032
Pôr do sol no Rio Tocantins, em Palmas

Ficamos ali, na beira do rio, na Choupana do Primo, com os pés na água, bebendo uma cervejinha, comemorando o fato de estarmos ali, pessoas privilegiadas, curtindo aquele super visual…

Quando a noite chegou seguimos para a Cabana do Lago, um restaurante que serve pratos típicos. Leia-se, uma grande variedade de peixes dos rios da região. Com a fome de leão que estávamos, devoramos tudo como piranhas do rio, um prato de tucunaré assado e todos os acompanhamentos, não deixando pistas do que foi servido.

Uma porção de tucunaré assado, com arroz de cuxá, vinagrete, banana à milanesa e pirão ficou em R$ 85,00 para duas pessoas. Comida boa, em quantidade suficiente para matar a fome das mocinhas.

Jantadas, angariamos forças pra nos arrastar até o hotel, descansar da viagem,  pois no dia seguinte iniciaria a Expedição ao Jalapão. Expectativa…

E assim foi meu roteiro de intensas emoções no Jalapão:

1º dia:

O Flávio vinha recolhendo a galera nos hotéis e me encontrou pronta, café da manhã tomado, mochila cargueira e mochila de ataque revisadas, por volta das 8 hs 30min. No caminho até o escritório da Norte Tur já rolou uma integração entre  o grupo. Éramos um grupo de sete viajantes, os paulista Vânia e Alê, as paranaenses Maura e Thay, as cariocas Jamile e Gigi, e eu, gaúcha. Ainda se juntou a nós o nosso “deuso” capixaba (exemplo de um dos vários jargões que criou-se no grupo) Thiago, primo do guia Flávio, além do pequeno Patrick, nosso “chaveirinho”, filho de uma funcionária da pousada onde ficamos hospedados em Mateiros, já no Jalapão.

Primeiro tivemos um briefing em frente à Norte Tur, na sombra de uma árvore, onde o Flávio repassou informações sobre o estilo da viagem, o que a diferenciava, por ser uma expedição, o necessário espírito de equipe, e tal. E também que teríamos que, até o final da viagem, definir um nome bacana para a nossa expedição, que foi a de número 451 da Norte Tur. Ligado a um acontecimento, alguma fala,  algo peculiar que acontecesse no decorrer dos próximos dias.Também rolou a brincadeira do “anjo”- tipo um amigo secreto que desvendaríamos no final da expedição. E uma oração onde pedimos a proteção divina nessa aventura. E por final, recebemos nossa missão: ser feliz no Jalapão. E fomos mesmo! Muito!

Mochilas no bagageiro do valente jipe Ford Amazon Turbinado e Interculado 4×4, um cooler com muuiita água, este um item imprescindível numa região tão quente como o Tocantins, lanches, câmeras e celulares com baterias bem carregadas, nas mochilas de ataque, partimos!

Não posso deixar de contar. Me perdoe, Gigi. O nome da expedição quase saiu como “Mala Rosa” pelo fato de Gisele se apresentar para a aventura com uma grande mala cor de rosa. De dentro dessa super mala brotavam biquínis (Gigi não repetiu nem um dia) e inúmeras combinações de roupinhas fofas e lindas. Em função deste episódio Gigi foi muito “bulinada (sofreu bullying)” durante a expedição. Uma lembrança doce e divertida, a querida Gigi (que aliás, foi a minha “anja”).

Lembro que cada vez que tínhamos que, juntos, retirar e depois guardar no bagageiro do jipe as nossas mochilas, a mala estilo “Penélope Charmosa” da Gigi era motivo de risadas e gozações, por estar totalmente deslocada do ambiente roots do Jalapão.

Iniciada a viagem, logo fizemos uma parada “técnica”, ou seja, para comermos tapioca no Mirante de Taquaruçu. O deslocamento neste dia, de Palmas  até o município de Ponte Alta do Tocantins foi de 170 km, somente por via asfaltada.

Chegamos em Ponte Alta por volta das 12h 30 min. Primeiro nos instalamos nos quartos da Pousada Águas do Jalapão e depois almoçamos no restaurante em anexo. Comida caseira deliciosa. A pousada conta com piscina, quartos simples e limpos,  climatizados, com banheiros privativos. O conforto necessário para mochileiros sem frescura como nós. Confere detalhes da pousada acessando o link http://www.aguasdojalapao.com.br/conhe%C3%A7a-a-pousada .

Por volta das 14 hs saímos para conhecer o Cânion do Sussuapara e depois passamos pela cidade para comprar artesanato de capim dourado, super típico da região do Jalapão. Na sequência fomos conhecer a formação geológica conhecida como Pedra Furada.  Uma pena que estava chuviscando, ventava, e não tivemos o esperado pôr do sol como desejávamos. Mesmo assim a beleza do lugar fizeram com que os 70 km de estrada de chão valessem a pena.

dscn2587
Cânion do Sussapara, aqui rolou nosso primeiro banho de cachoeira

img-20161009-wa0061

img-20161008-wa0015
O grupo em uma das tantas poses inspiradas
dscn2617
A Pedra Furada

Retornamos à Ponte Alta, com chegada na pousada às 19 hs. Antes houve uma breve parada na cidade para comprarmos “coisinhas especiais”, para comemorarmos o início de nossa expedição. Enquanto nos preparávamos para o jantar veio o mundo abaixo. Choveu muito, mas que não diminuiu em nada a disposição do grupo para nossa noite de “queijos e vinhos”. Embalados pelo vinho, o pessoal se integrou pra valer em meio a muitas brincadeiras e risadas. Já nesta primeira noite cunhamos o nome de nossa Expedição: “O Jalapão te liberta da prisão”. Esse jargão saiu da fala espontânea do filho do dono da pousada, um menino muito esperto para seus 10 anos. E nosso grupo incorporou como o nome da expedição 451 da Norte Tur. Depois do dia intenso, só coube a cama onde desmaiei, com a previsão de saída às 7 da manhã.

2º dia:

Depois do café da manhã, guardamos as mochilas no jipe e à partir daí foram 250 kms de estrada de chão já no Parque Estadual do Jalapão, conhecendo lugares lindos, até chegarmos à noite no município de Mateiros.

Bom, depois de rodar por 10 dias pelo Tocantins, sendo na grande maioria por estradas de chão, fiz uma classificação muito particular do estado de conservação e rodagem das mesmas: “ruim, péssimas e offroad”. E isso que o período das chuvas estava recém iniciando.

dscn2943

dscn2966

Terminei as expedições com vários hematomas nas pernas e braços, de tanto me bater dentro do jipe, tamanho era a quantidade de buracos, solavancos, costelas de vaca e irregularidades das estradas. E isso que eu estava presa no cinto de segurança, senão teria sido pior. Principalmente para as “vítimas” que sentavam na fileira de bancos traseira do jipe, onde o  balanço e os solavancos eram sentidos de forma mais intensa. Diante disso, de forma “espontânea, justa e solidária”, organizamos um rodízio na localização de nossos assentos, o que oportunizou que todos passássemos pelos famigerados bancos traseiros e também pelo assento vip, ao lado do nosso guia e motorista Flávio.

dscn2940

Nossa primeira parada foi na Cachoeira da Velha, no Rio Novo (interessante trocadilho!). Muito linda a imagem da cachoeira, vista à partir das plataformas de observação. Mas nada superou a vista privilegiada e a respectiva adrenalina que compartilhei com outros três corajosos ( além de mim, a Gigi, o Alê e o Thiago) ao encararmos o rafting no rio, incluindo uma parada atrás da cortina d’água da cachoeira e depois nas quedas. Tudo muito seguro e organizado pela competente equipe da empresa Novaventura http://www.novaventura.com.br/. Show de imagens e de experiência!

img-20161010-wa0068

img-20161009-wa0012

img-20161009-wa0016

img-20161009-wa0047

Os demais integrantes do grupo nos aguardavam mais abaixo no rio, no local conhecido como Prainha. Este local serviu de locação para o filme “Deus é Brasileiro”. Ali fizemos um piquenique, que  fez as vezes de nosso almoço, onde foi servido pelo Flávio suco geladinho, sanduíches e frutas.

Saciada a fome, encaramos mais estradas caóticas até as tão aguardadas Dunas do Jalapão. O clima intercalava períodos de chuva e sol, e o grupo na torcida pelo sonhado pôr do sol nas Dunas do Jalapão, expectativa projetada pelas imagens tantas vezes vista nos blogs, posts no Facebook, no Instagram. Que não ocorreu, infelizmente. Snif, snif, snif…

img-20161010-wa0051

Quando finalmente chegamos nas dunas chuviscava fininho, e em raros momentos alguns raios de sol conseguiram vencer as nuvens no horizonte e conseguimos fazer algumas fotos bacanas.

dscn2698

Mas mesmo sem a presença do sol, o lugar é de uma beleza e de uma singularidade que impressiona. As dunas são de uma coloração alaranjada e realmente são muito altas. O contraste com o cenário verdejante ao redor, a Serra do Espírito Santo ao fundo… somado ao esforço pra chegar até ali, chacoalhando dentro do jipe, a canseira do corpo, transmitia uma sensação de satisfação, de que éramos privilegiados por estarmos ali.

img_20161009_175239217_hdr

A noite já avançava quando deixamos as dunas e o jipe precisou de muita tração para superar o estradão de areia fofa do lugar até que encontramos a via de acesso para o município de Mateiros. Depois disso foi mais uma hora e meia de solavancos até chegarmos na cidadezinha e estacionarmos enfim, em frente à Pousada Jalapão.

Fomos muito bem recepcionados pelo pessoal da pousada, gente simples e calorosa, que serviam ali mesmo refeições caseiras saborosas. Os quartos são simples, contam com banheiro privativo e o tem o principal luxo para as circunstâncias : ar condicionado.

Depois deste dia exaustivo, só restou banho, jantar e cama na pousada. Com tanto estrada, chacoalhando no jipe, banho de rio, rafting, cheguei ao final do dia acabada.

3º dia:

Neste dia saímos da pousada em torno das 9h 30 min, em direção à Cachoeira do Formiga. Gente, o lugar é lindo demais! Água cristalina em tons de azul, temperatura ideal… um banho de rio maravilhoso.

dscn2885

dscn2760

Às 13 hs seguimos para o almoço, no Restaurante do Nô. E dá-lhe comida caseira deliciosa. Cada prato de caminhoneiro que saiu… A macaxeira (mandioca para os gaúchos) frita do lugar é maravilhosa. No mesmo lugar conhecemos o Fervedouro do Burtizinho e na sequência o Fervedouro do Buriti, uma nascente bem maior que a primeira. Chocada com a transparência da água.

img-20161010-wa0088
Fervedouro do Buritizinho

Esses fervedouros são nascentes de rios subterrâneos que emergem para a superfície com grande força, movimentando a areia do terreno, e esse ação dificulta ou mesmo impossibilita que os corpos submerjam. No centro deles existe um grande poço de água azul transparente, brotando das areias claras. A água é a responsável pela forte pressão que provoca o chamado fenômeno da ressurgência e isso impossibilita que alguém se afunde neles: por mais que se esforce, a pressão empurra o banhista para cima, sendo uma experiência belíssima que deixa os fervedouros entre as principais atrações do Jalapão. Atestamos isso. Impossível mergulhar nos fervedouros. É estranho, no início não me senti confortável lá dentro, mas depois relaxei e foi a maior curtição.

dscn2905
Fervedouro do Buriti

dscn2897

Ao retornar para a pousada só restou energia para o banho, jantar e cama, pois no dia seguinte o despertar seria às 3h 30 min da madrugada, para subirmos a Serra do Espírito Santo. Este é um passeio opcional oferecido pela Norte Tur, com custo de cem reais (R$ 100,00), mas que é imperdível. Do tipo “tem que ir”. No nosso grupo, óbvio, todos aderiram.

4º dia:

Caras sonolentas se apresentaram para o desjejum no horário combinado. Vestidos com calças e agasalhos leves, na mochila de ataque lanternas, o lanche composto de barra de cereais, biscoitos doces e salgados e chocolate, que recebemos do Flávio, e claro, câmeras fotográficas e celulares com as baterias carregadas ao máximo, para registrarmos o nascer do sol do alto do platô.

Depois de cerca de 30 min de estrada à bordo do jipe, chegamos ao pé da Serra por volta das 4h 30 min da manhã. Fizemos um alongamento ainda no escuro, iluminados apenas pelas lanternas, recebemos as instruções à respeito da subida e partimos para a escalaminhada (misto de escalada com caminhada) por cerca de 500 metros morro acima.

Neste passeio se põe à prova o preparo físico de cada um. Eu, particularmente, achei bem puxadinha a trilha morro acima, escalando pedras. Ainda bem que foram instalados alguns bancos de madeira (creio que cinco) ao longo da trilha, em que a gente dá uma descansadinha, pega um ar pra continuar.

Chegamos ao alto da serra, no platô próximo às 6 hs da manhã e as cores do alvorecer começavam a pintar o céu. Aí cada um tratou de procurar o melhor ângulo para assistir o espetáculo que se anunciava: o nascer do sol no Parque Estadual do Jalapão, do alto da Serra do Espírito Santo.

dscn2995

Gente, acreditem em mim! Foi de chorar de tão lindo… No meu rosto, pelo menos, as lágrimas rolaram. Sentimento de gratidão por estar naquele lugar mágico, por ter chegado até ali, e ser uma privilegiada por presenciar aquele espetáculo da natureza.

dscn3003

As fotos não fazem jus ao que meus olhos viram e ao que meu coração sentiu naquele momento. Inesquecível…

img-20161013-wa0164

Depois de muitas fotos na beira do penhasco, encarapitados nas pedras, partimos para explorar o platô da Serra, através de uma trilha, uma caminhada plana,  por cerca de três quilômetros. No final da trilha chegamos num mirante, de onde se contempla lá embaixo as Dunas do Jalapão e toda a região do Parque, até onde os olhos alcançam. Lindo!

dscn3024

dscn3052

Depois deste início de manhã sensacional, com os olhos cheios de paisagens lindas, tatuadas na memória, retornamos para a pousada para um café da manhã reforçado, onde repusemos a energia perdida na subida da Serra.

dscn3078

dscn3085
A Serra do Espírito Santo foi dominada!

Por volta das 11 hs da manhã retornamos às estradas para conhecer o  Fervedouro Encontro das Águas. Como o nome sugere, nesse lugar se encontram dois rios, o Rio Soninho e o Rio Formiga, este de águas cristalinas azuladas. Uma delícia de banho de rio depois de experimentarmos o fervedouro existente próximo. Esse fervedouro impressiona pela força com que projeta água e areia para a superfície, tornando impossível qualquer tentativa de de submergir. O detalhe curioso é que com toda essa pressão da água da nascente vem também uma  areia muito fininha, que gruda no corpo, entra dentro do maiô… Só de lembrar eu tô rindo da situação… hehehehehe

dscn3099
Fervedouro Encontro das Águas
dscn3109
Rio Soninho, de águas cristalinas
img-20161013-wa0211
Curtindo o encontro das águas dos dois rios

Feita essa visitação, seguimos novamente até o Restaurante do Nô onde nos regalamos da excelente comida caseira típica do Tocantins.

Eu e alguns do grupo ainda tivemos disposição para fazer bóia cross no rio que passa na propriedade. Nenhuma grande queda d’água, mas o suficiente para garantir a bagunça e boas risadas.

No retorno para a pousada em Mateiros teve parada na estrada para bagunça, risadas e fotos do grupo e na chegada na cidade novo pit stop para apreciarmos o lindo  pôr do sol no cerrado.

img-20161010-wa0102

dscn3121

Na chegada em Mateiros aproveitamos para comprar artesanato local, feito à base de capim dourado, especialmente para o “anjo”, que seria revelado no dia seguinte, o último de nossa expedição.

dscn3129
Residência em Mateiros. A beleza da simplicidade. A cara do Jalapão.

5º dia:

Depois do café da manhã organizamos as mochilas, guardamos tudo dentro do jipe e partimos para o último dia de nossa expedição. Nos despedimos do pessoal da pousada, gente muito querida, e nos dirigimos para o Fervedouro Bela Vista, no município de São Félix do Tocantins. Já pintava um clima de despedida e de saudades entre os integrantes do grupo. Rolou uma energia muita boa entre nós, todos na mesma vibe de conhecer as belezas da natureza local, sem frescura, só muitas brincadeiras e risadas. Sentia como se nos conhecêssemos a muito tempo…

img-20161013-wa0030

Como sempre, o Flávio organizou a logística, no “contra fluxo”, como ele dizia, para que chegássemos no Fervedouro e pudéssemos usufruí-lo com exclusividade. Foi uma hora no local somente para nosso grupo. Muito show! Esse fervedouro é o maior de todos que conhecemos e o mais estruturado. Tem uma passarela de madeira que leva até o atrativo pelo meio da mata, e um deck de madeira com uma escada para acessá-lo.

img-20161013-wa0248

Primeiro fizemos a revelação do “anjo”, uma brincadeira bacana para unir mais ainda o grupo, e depois almoçamos caranha, um delicioso peixe dos rios da região.

Gente, não posso me enganar. As roupas e o espelho me denunciam: engordei nessa expedição ao Tocantins e ao Maranhão. O feijão é de outro mundo, os peixes (adoro) bem preparados, o tempero, a comida toda é  deliciosa. Aliado às caminhadas, banhos de rio e cachoeira, resultava numa fome de leão. Muita disposição de comer pra muita comida boa disponível. O resultado não podia ser outro: voltei para o sul com uma bagagem indesejada na cintura e nos quadris. Aff…

Seguimos viagem em direção à Palmas, nosso ponto de partida e chegada. No caminho tivemos uma vista panorâmica da Serra da Catedral, local onde foram filmadas cenas do filme “Xingu”.

dscn3187

dscn3186

Depois o Flávio nos brindou com um atrativo “plus”, não previsto no roteiro original. Fomos conhecer o Morro Vermelho, onde existe a Pedra do Macaco e outras formações curiosas. Em certa altura precisamos do auxílio de uma corda pra poder escalar as rochas. Sol escaldante, suor, cansaço, sede, esforço físico… mas lá encima, fomos recompensados com uma vista sensacional da região. Muito show esse lugar!

dscn3192

dscn3195

img-20161013-wa0036

Durante a viagem de retorno, o Tocantins nos brindou com mais um pôr do sol de cair o queixo. Pra gente não esquecer do Jalapão e de suas paisagens maravilhosas.

img-20161013-wa0234

Ainda rolou uma parada no Rio do Sono, onde fizemos fotos encima do jipe, já quase escurecendo. Inesquecível…

Chegamos por volta das 21 h na Capital. Todo mundo exausto. Momento da despedida dos companheiros de expedição, pessoas queridas, que Deus colocou no meu caminho, um presente especial para mim no Jalapão. Com certeza, amigos espalhados pelos Estados do Brasil.

No total desta expedição foram rodados 1.150 quilômetros, sendo destes 300 quilômetros em asfalto e o restante em estradas de chão, nas condições já descritas neste post.

No jargão da Norte Tur consta “O Jalapão é bruto”. Realmente, a expedição não é pra todo tipo de viajante. É preciso estar com o espírito aberto para captar a beleza rude das paisagens do cerrado, não se importar com vento e poeira no rosto, de chacoalhar o dia inteiro dentro do jipe, de sentir o suor e a terra grudados na gente. De perceber dores no corpo exausto das caminhadas e escaladas. Depois da segunda expedição meu visual não era dos melhores: cabelo desgrenhado (sofri bullying, né, Flávio), mãos e pés implorando uma manicure. Até meu ouvido entupiu depois de tanto banho de rio, de cachoeira. Pra piorar, a restauração do meu dente da frente parcialmente quebrou enquanto eu comia com as mãos uma manga colhida no quintal da Dona Deusa. O quadro do horror…

Mas o brilho nos olhos, a pele do rosto, a paz que eu transcendia, evidenciava que tudo valeu muuuitoo a pena. As memórias que carrego, as histórias pra contar, as novas amizades conquistadas, fez dessa experiência um momento inesquecível pra mim. A constatação do quanto o nosso país é rico e diverso em belezas naturais. O quanto nós, brasileiros, não conhecemos nosso próprio país… Pretendo continuar fazendo viagens nacionais para desvendar nosso Brasil, de dimensões continentais, de variedade cultural ímpar e tão valiosa. E principalmente, feito de histórias e de pessoas tão especiais.

Para mim e as cariocas Jamile e Gisele a aventura continuava. Na manhã seguinte à nosso retorno para Palmas formaríamos um novo grupo para então seguirmos para o Maranhão, para conhecermos a Chapada das Mesas. Novos amigos, novas histórias, novas emoções…

Em breve sairá o post sobre a Chapada das Mesas. Aguardem…

 

Anúncios

3 comentários em “Expedição ao Jalapão, no Estado do Tocantins

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s