Américas · Amigos Viajantes

Patagônia Argentina – A experiência do espírito Maiá-Kú

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Inaugurando a Aba Amigos Viajantes, chegando o relato de minha querida amiga Íris Campos…

Minha história de viajante não surgiu por escolha pessoal, mas por incentivo da dona deste blog: Jocelaine. Sabedora que iniciei um novo ciclo de vida, ela me motivou a passar a Páscoa/2016 em viagem ao Uruguai (ela foi também). Veja o relato de nossa viagem ao Uruguai clicando aqui Uruguai.  Desde ali comecei a pensar onde ir nas férias de verão, queria ir a lugares desconhecidos para meus olhos, reinaugurando minha vida sem minha mãe (que por anos foi minha companheira de férias, íamos o mais longe possível para ela: o litoral norte do RS). Acho que porque meu inconsciente estava provocado porque desejava viajar mas a realidade impedia eu escolhi ir 4.000 km longe de casa; trocando de país e de paisagens, para o sul do paralelo 40, de lá para a Antártica só 1.000 km.

Dei sorte: a Patagônia Argentina é linda, linda!  Visitei duas cidades: Ushuaia e El Calafate.

Antes de tudo, faltava o detalhe mais importante, uma vez que por razões pessoais ainda não me é possível viajar sozinha. Roseane, minha amiga de muitas datas (linda com seu cabelo vermelho), topou a viagem e bem mais experiente que eu, concluiu que para este destino era melhor ir com uma companhia de turismo. Fechamos o pacote um dia antes do Trump se eleger e alavancar o valor do dólar.

foto 1 Iris e Roseane
Pátio de loja de regalos na San Martin, em Ushuaia. Observe no telhado o bêbado caído ( alusivo aos prisioneiros, fundadores da cidade).

Não sei o que esperava encontrar, mas não me refiro às paisagens… me refiro a sensações, sentimentos. Um grande amigo me avisara que em Ushuaia se sentia de tudo. Andando por lá me descobri com o espirito Maiá- kú. Três lugares em especial fazem a gente repensar muitos conceitos. Dá uma vontade de parar o tempo e impedir que se faça qualquer modificação naquela paisagem tão natural. Me senti um pouco mal como se estivesse “esquentando o planeta” ( e estava) e com vontade de calcular os carbonos para repor os danos que minha passagem causava. Sei lá, pensei em um local muito sem ninguém e para surpresa minha tinha uma pá de gente por lá. Só em um dos navios de cruzeiro que estava no porto de Ushuaia havia 3 mil passageiros.

No Parque Nacional dos Glaciares eu pensei que verdadeiramente Deus existe. Uma sensação incrível.  Ai… quanto calor ali, vai derreter tudo, eu pensei.

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O mapa dá a ideia onde a viagem ocorreu

Viajamos de Porto Alegre a Buenos Aires e de lá a Ushuaia. Avião com tela para acompanhar o voo permitiu a primeira emoção: estar  pertinho das ilhas Malvinas, onde se travou a guerra em 1982. A Argentina perdeu a guerra para Inglaterra, mas isso não tem importância à medida que nós, do Rio Grande do Sul, também perdemos a Revolução Farroupilha e nem por isso deixamos de homenagear aos  que nela lutaram.

A segunda emoção foi a aterrissagem em Ushuaia (os argentinos pedem que digamos USSUHAIA, com dois ss e não com sh como se fosse shopping. Ah! Como os argentinos preservam seu idioma, que lindo isso!). Fiquei completamente tomada pela emoção de estar na cidade mais austral da América (Fim do Mundo), por estar mais perto da Antártida do que de minha casa. Enfim… emocionadíssima com o lugar e o pouso perfeito, aplaudi. Fui seguida por outros passageiros, mas sei que alguns  devem ter  se remoído pela demonstração de “falta de finesse”. Sei lá, se finesse é viver sem se emocionar, estou fora dessa.

Chegamos às 22 horas, chovia, mas era como se fosse umas 6 da tarde no horário de inverno em Ijuí. Lá escurece depois das 22 e amanhece cedo; antes das 6.  Ah, sem horário de verão lá.

foto 4 primeira vista da cidade
A primeira visão da cidade de Ushuaia

foto 5 amanhecer

Amanhecer, às 7h 12 min, vista do quarto do Hotel Resort Las Hayhas

Para entender a cidade, tem de ir ao museu do presídio. Ele foi muito importante para cidade, razão pela qual por todo o centro é comum encontrarmos representações de presidiários.

FOTO 6 PAINEL TEMÁTICO

 Para além de conhecer a história da povoação de Ushuaia , as formas de reabilitação social dos apenados e o farol, há uma galeria de arte. Quando estivemos lá havia três artistas plásticos expondo, e simpáticos, recebiam aos visitantes. Gostei muito de tudo. Na cidade a gente passeia praticamente em dois locais: a avenida San Martin e o porto. Clima muito instável, faz todas as estações do ano em quatro horas.

foto 8.0
Tem fila para fazer a tradicional foto na placa

Provei todos os pratos típicos da Patagônia, menos a Centolla- enorme caranguejo que fica exposto em aquários como se fossem vitrines, a gente escolhe  qual quer e eles tratam de torná-lo comestível. Eu não tive coragem de mandar matar o bichinho. Só comi os que não conheci vivos, risos. Merluza negra é uma delícia e o cordeiro patagônico achei meio pesado.

foto 9.1
Centoulla exposta em restaurante de Ushuaia

FOTO 10.1

Cordeiro patagônico no restaurante Marko, em El Calafate

Em frente ao porto de Ushuaia encontramos o jardim histórico. Lá e por toda a cidade as flores impressionam pela intensidade das cores e pelo tamanho.

 FOTO 12.1 PAPOULAS

Foto 13 painel na av. san Martin
Na avenida San Martin as mulheres argentinas encontram lugar de acolhimento. Lá e cá as mulheres na mesma “vibe”.
foto 17ruas de Ushuaia com a visão do porto
Porto de Ushuaia, no final da avenida San Martin
foto 18 a liderança de Evita Peron
Os argentinos respiram política e não esquecem de seus líderes

Em Ushuaia dois passeios maravilhosos: Parque Nacional Terra do Fogo e o passeio de catamarã no canal de Beagle. O Parque Nacional Terra do Fogo é imenso e estava cheio de gente. Era uma Amazônia gelada.  Pesquisei e entendi que este parque comporta os bosques/florestas subantárticas e os lagos que caracterizam o bioma. Ao me deparar com a destruição que os castores estão fazendo, ao saber que as Lengas foram usadas como lenha, aquecendo a cidade de Ushuaia comecei a ter raiva. Eu estava lá, contudo; e feliz por ver e viver aquele lugar. Amei a Bahia de Lapathaia e para lá pretendo ir outra vez. Vi inúmeras barracas de corajosos que passariam a noite naquele lugar. Tive frio só de pensar.

foto 19 MAPA DO PARQUE

Mapa do Parque

No Parque vemos as florestas de Lengas, árvores enormes. Diferente da mata tropical que é muito diversificada, esta é basicamente de Lengas. A introdução de castores prejudicou a floresta, porque os ratos constroem diques que “afogam” as árvores.

foto 20 LENGAS

FOTO 20.2 o trem do fim do mundo...
Trem do Fim do Mundo, permite uma visão geral do Parque Nacional da Terra do Fogo.

Há um paradouro com restaurante e exposição antropológica sobre os povos nativos da Patagônia. Abaixo foto de uma das lagoas do Parque.

FOTO 23.1 NATIVOS DA PATAGÔNIA

FOTO 24 JA VESTIDA

Vestir-se como “cebola” é segredo de sobrevivência, mesmo no verão

Vamos ao Beagle! Gentem… o que é aquele canal! Navegação tranquila, vida selvagem. Sensação de estar indo para a Antártida. Aliás, descobri que a Antártida já pode ser visitada por não pesquisadores; havia um navio turístico aportado em Usuhaia que rumaria para lá.

FOTO 25.1 Ushuaia vista do canal de Beagle foto 25
Ushuaia vista do Canal de Beagle

No passeio de catamarã pelo canal de Beagle o que encanta é a vida animal “in natura”. No dia que lá estive pude observar o chefe do bando de lobos marinhos levantar-se em fúria contra um invasor. Como se exibisse sua força e poder para nós. Arrepiei.

foto 26 lobos marinhos no canal de Beagle

Leões marinhos ao sol. Um espetáculo da natureza

foto 25.5.1 Comorones

Toda a beleza dos pássaros Comorones e leões marinhos parece pouca quando o rei do canal aparece. Eis o pinguim com sua graça, leveza e elegância.

FOTO 31.1 ULTIMO DIA EM USHUAIA

Foto acima é do último dia em Ushuaia. Fez algumas horas do mais lindo sol de verão. Uma imagem que jamais esquecerei, mas que preciso ver de novo ao vivo.

Saindo de Ushuaia fui a El Calafate. Outro bioma, agora seco, árido, ventoso. Uma cidade aconchegante, movimentada, pequena com 20.000 habitantes. Terra da ex-presidente Argentina.

EL CALAFATE…. a pequena fruta que consegue crescer no árido solo  dando nome a cidade. Sua resina foi muito usada nas embarcações. Clima ameno, pegamos até 18 graus, sem chuva nenhuma (chove 200 ml ao ano), a umidade do ar é garantida pelo Lago Argentino, formado pelo derretimento do gelo dos glaciares.

FOTO 32.1 FRUTA QUE DA NOME A EL CALAFATE

A fruta que dá nome à cidade de El Calafate

Sempre a política. Da Plazoleta se avista o lago Argentino que circunda a cidade de El Calafate. A noite venta muito e a manta e o gorro, além do casaco, são imprescindíveis.

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Pertinho do grande glacial

Quando a gente vê este lugar tem a certeza que a beleza existe. Sobre as montanhas da Cordilheira dos Andes, eis o Glacial Perito Moreno. Paredes de gelo, 60 metros de altura…

FOTO 34 SÓ 300 MTS DE DISTANCIA

No catamarã, dentro do parque dos Glaciares, a somente 300 metros de distância do grande glacial Perito Moreno

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As passarelas por onde se caminha para curtir a imponência do Glacial

No restaurante do Parque dos Glaciares servem uísque com gelo glacial. Sei lá, não gostei da ideia. Pareceu-me que estão nem aí para o aquecimento global… fiquei até com remorso de estar ali, esquentando o gelo, risos…. E quando uma parte se desprende o espetáculo é lindo e ao mesmo tempo comovente.  Frio prá valer: camiseta térmica, casaco quebra vento e ainda outro impermeável. A gente vai botando e tirando, conforme venta.

 Neste ar puro… neste frio … o que senti é inexplicável, único….

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Eis o Lago Argentino. Passei em uma de suas margens por meio de um jipe 4×4. Guia argentino, duas moças argentinas e uma polonesa… todo o mundo quer conhecer El Calafate. Muitos europeus e asiáticos podem ser vistos nos pontos turísticos, uma babel de idiomas e de tipos físicos.

Fiz também uma visita a cavernas com inscrições rupestres do povo Tehuelche.

O sitio arqueológico a beira do Lago Argentino pode ser visitado ao meio-dia e a noitinha. Servem guisado de carneiro aos turistas. Venta muito, muito e é um vento frio, gelado demais. Ainda bem que fui ao meio-dia e o sol estava bem forte. De toda a viagem foi o único passeio que fiz sem ninguém conhecido (Roseane e praticamente todo o grupo da excursão foram no passeio Rios de Gelo. Eu não quis ir, achei que o dia inteiro em um barco seria muito monótono e frio.). Me senti bem, aprendi muito da história deste povo do qual, mesmo sendo graduada em História, nada sabia. Aliás eu nada sabia sobre o povo nativo da Patagônia e sobre os Tehuelchues. Descobri que andar sozinha não dói, mas o passeio foi breve. Ainda bem.

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Este cartaz está na porta do banheiro disponível aos turistas que visitam o sítio arqueológico

Que povo que preza a memória, esses argentinos! Emociona. Faz a gente ver a ignorância que cometemos contra eles quando, por razões menores, somos bairristas. Pensa bem, onde na nossa cidade há uma alusão aos povos que aqui habitavam quando da invasão branca?

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Panorâmica para ter noção da aridez do solo

Depois do passeio ao sitio arqueológico fui ao Glaciarium (museu do gelo). Nossa, vale a pena. Amigo Osmar me fez companhia.

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Na principal avenida da cidade de El Calafate há um museu onde se pode ver vídeos (um deles é o mesmo que se vê no Glaciarium) e passear pelo pátio onde há várias inserções lembrando a história de dois grandes da ciência: Darwin, que por lá esteve pesquisando, e Francisco Moreno, perito, ou seja, cientista responsável por várias das descobertas relativas a fauna e flora e aos glaciais. Foi homenageado ao dar o nome ao glacial.

A viagem me permitiu uma vivência em grupo muito legal, ressignificando para mim o que é viajar em grupo. Os lugares que visitei são lindos, enchi meus olhos de paisagens naturais belíssimas. Aprendi muita História, Geografia e Ciências Naturais. Aventura pouca, pois embora o lugar ofereça muitas oportunidades como cavalgadas, safáris e trilhas eu fiz um passeio mais contido. Respeitei meu tempo interno e retornei bastante livre da tristeza e pesar que me assolavam. Fiz o possível para mim, comecei a desenvolver o espirito Maiá-Kú. Voltei em paz.

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4 comentários em “Patagônia Argentina – A experiência do espírito Maiá-Kú

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