Europa · Fora do Caminho

“Pilgrim: Uma aprendiz no Caminho” – Coisas que aprendi no Caminho de Santiago de Compostela – Espanha

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Quando decidi escrever sobre minha peregrinação no Caminho de Santiago resolvi que não faria na forma de um diário de viagem, como fiz em outros relatos postados aqui no blog. Falar sobre o roteiro da caminhada, listar as cidades e vilas pelas quais passei, os albergues que me acolheram, quais deles são os mais estruturados, os restaurantes e comidas que eu mais apreciei, os atrativos turísticos de cada região, quantos quilômetros diários eu caminhei…Não, absolutamente, desta vez minha proposta não é essa!

Sobre um relato, digamos assim, mais “técnico” e descritivo do Caminho, já existem excelentes sites e blogs especializados.

Para quem pensa em peregrinar no Caminho, em uma de suas rotas, e quer informações, dicas sobre o peso e o que levar na mochila, como se vestir, o melhor calçado, como se preparar fisicamente, sugiro, por experiência própria, leituras de livros sobre o assunto, entre os quais alguns estão na minha biblioteca, links aqui Uma Viagem em um bloco de notas – Tatiana Fadel Rihan, O diário de um Mago – Paulo Coelho, No Caminho de Santiago – José Eduardo IopPelas trilhas de Compostela – O relato de uma viagem laica – Jean-Christophe Rufin27 dias e algumas histórias no Caminho de Santiago de Compostela – Carlos Alberto Tenroller, pesquisa em sites como http://www.caminhodesantiago.com.br/ , https://acasargs.com.br/, usar o aplicativo para celular Eroski Consumer (engraçado constatar que até hoje tenho instalado no meu celular, sem vontade alguma de deletar).

Realmente todos esses foram muito úteis para mim. Me forneceram importantes subsídios que me transmitiram a segurança necessária para partir tranquila para a Espanha.

A ideia deste post é narrar sobre o que eu aprendi ao fazer a peregrinação do Caminho de Santiago de Compostela. O que eu trouxe comigo na volta para casa, de essencial, como lição para minha vida, depois de caminhar por cerca de 800 quilômetros, em 32 dias, desde o sul da França até a cidade de Santiago de Compostela, na Espanha.

Bom, inicialmente já respondo a pergunta que muitas pessoas me fizeram no retorno: “valeu a pena fazer? o que acontece lá, você sentiu algo de diferente, o que há de transcendental na peregrinação?”

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“Onde se cruz o caminho do vento com o das estrelas…” No Alto del Perdón

Com toda a convicção do mundo, eu respondo: fazer O Caminho superou em muito as minhas expectativas iniciais. É uma experiência singular, maravilhosa, mas de difícil descrição em palavras.

O Caminho, como a maioria das viagens, é pelo menos três jornadas em uma. É uma jornada física, na qual você descobre a distância que pode ser coberta em uma caminhada de um dia, e a estranha sensação de caminhar por um país inteiro. É também uma jornada interior da mente, à medida que sua perspectiva muda, seus pressupostos são desafiados e você tem a oportunidade de passar o tempo fora de uma agenda ocupada para ganhar uma nova perspectiva sobre a vida. Em terceiro lugar, é uma jornada cultural que abrange mil anos de história. Como a UNESCO declarou: “A Europa foi construída na estrada de peregrinos de Santiago”.

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Ponte medieval em Sahágun

Tenho nítidas lembranças de várias situações, desde os menores acontecimentos passados no Caminho, que para um ouvinte que não fez a peregrinação, podem parecer banais. Só o peregrino dá sentido a elas. É preciso ter vivenciado. Passado alguns meses desde que cheguei a Santiago, eu ainda tenho muita dificuldade de sintetizar as emoções e vivências.

A sensação inicial da peregrinação é de estranhamento e de questionamentos. As dores físicas iniciais se impõem, e eu me perguntava o que estava fazendo ali, caminhando em longínquas terras da Espanha, gastando em euros, passando um calor absurdo, suando em bicas, carregando o pouco que dispunha nas costas, numa mochila. rezando para encontrar ao final da caminhada diária, uma cama qualquer num simples albergue público e coletivo.

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Suando na subida do Cebreiro

“O que diabos fui inventar, quando poderia estar em uma capital da Europa, curtindo museus de arte, no conforto do ar condicionado…” pensamentos como esse foram recorrentes nos meus  primeiros dias de caminhada.

Demorei alguns bons dias para engrenar e começar a absorver o “espírito do Caminho”. Então num belo dia, o qual não consigo datar, as coisas começaram a fluir, e passei realmente a curtir o fato de eu ser mais uma peregrina, entre milhões, que seguiram os passos de mil anos, de outros peregrinos, que caminharam o mesmo caminho que eu estava fazendo, em condições muito mais adversas, obstinados por chegarem à cidade de Santiago de Compostela, em honra ao Santo Apóstolo.

No Caminho, me percebi com dificuldade de definir datas (que dia é hoje? eu perguntava repetidamente) e distâncias (quantos quilômetros andei e quantos faltam até Santiago? perguntava aos outros), me entreguei de corpo e alma, andava o quanto podia e fui muito humana mesmo… chorei, xinguei, agradeci, rezei, sorri, andei, parei, conheci, vivi, aprendi, ensinei ….

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Eu me vi no Caminho como estando num mundo à parte. Minha rotina diária e repetitiva de caminhar o percurso previamente previsto para aquele dia, encontrar um albergue para dormir, tomar banho, lavar minha roupa, comer e depois dormir, foi impondo um ritmo simples, que resultou na limpeza de minha mente de pensamentos mundanos e preocupações.

É claro que eu lembrava e sentia saudades de minha família, com quem me comunicava quase que diariamente, assim como de meus amigos, que ficaram no Brasil, e de meu namorado, e saber que tudo estava bem em casa me tranquilizava, me liberava para estar presente no Caminho e aproveitar a experiência.

Lembro de forma super especial dos momentos únicos de introspecção, longas caminhadas solitárias, os quilômetros de estradas, trilhas, com paisagens que variavam, em que me encontrei só, sem nenhuma presença humana por perto. Me sentia como entrando em um Túnel do Tempo, onde pude reviver os melhores e os piores momentos da minha vida. É isso: O Caminho é uma rara oportunidade para reviver experiências da vida anterior e ter novas, nunca antes vividas.

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Também ocorreram imprevistos que enriqueceram muito minha alma, que colocaram a prova os meus medos, que me conduziram ao inesperado, que me confrontaram com minhas crenças.

O Caminho é transformador e as mudanças operam de forma diferente para cada um. Fiz inúmeras descobertas, algumas curiosas, outras divertidas, adotei novos hábitos, aprendi muitas coisas.

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Disso tudo posso compartilhar o que aprendi no Caminho:

SIMPLICIDADE: Peregrinação não combina com peso. O Caminho me mostrou sobre o quão pouco precisamos para viver. Em 32 dias de caminhada, vivi muitíssimo bem com três mudas de roupa. Uma eu usava e as outras duas estavam na mochila. A vaidade deu lugar à praticidade. De calçados, o tênis velho de guerra, e uma papete para aliviar os pés depois do banho, no albergue. Poucos itens de higiene, nada de makes, nada de supérfluos…

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Minha querida mochila fazendo pose nos Pirineus

Eu havia listado os itens que iriam para a mochila, veja o link aqui Levo comigo só o essencial… A mochila mas um dia antes de partir, ainda em casa, a enxuguei ainda mais. Por exemplo, o kit de beleza não foi, e o kit de cuidados e higiene pessoal foi minimizado. Também economizei nas compras realizadas na Decathlon, em Pamplona, cortando alguns itens.

Até meu inseparável chimarrão foi grotescamente adaptado, para não fazer peso e volume na mochila. Acabei levando somente a bomba de chimarrão e meio quilo de erva-mate. Quando a vontade de chimarrear vinha forte, eu improvisava numa caneca, numa xícara qualquer. Uma heresia para o gaúcho, mas pelo menos matava a vontade e amenizava a saudade do pago.

E o incrível é que, mesmo tendo partido com pouca coisa na mochila, consegui, ao longo do Caminho, a deixar mais leve ainda. Alegrava meu coração doar alguns poucos itens que eu considerava desnecessários na peregrinação. Pensei que poderiam ser úteis a outros peregrinos, e que eu não precisava deles, não tinha porque os carregar. Então, deixei meias, casaco, uma rasteirinha, uma blusa, uma legging, nas caixas de coleta dos albergues. Bem contente, me dei por conta que, realmente, só carregava comigo o estritamente necessário.

A principal companheira, a mochila, deve estar em plena harmonia com o peregrino. Mochila pesada é sinal que o bens materiais estão em excesso. É através dela que observamos ausências e sobras na nossa vida.

A vieira (concha) é o detalhe visto em cada mochila ou em cada bicicleta. Ela é o símbolo do caminho. Significa purificação e renascimento e por isso os peregrinos a carregam durante todo o trajeto. O patriotismo também é marca registrada, pois os peregrinos também carregam consigo a bandeira de seu país! Eu tinha na minha, além da bandeira do Brasil, também a do meu amado Estado, o Rio Grande do Sul. E a do blog, claro!

Desapegar nos faz compreender que só precisamos do essencial. Descartar aquilo que nos pesa também na alma e no coração. Assim, mais leve, me aproximei da essência da minha natureza, ao longo do Caminho. Ali era apenas Eu, em minha inteira e absoluta verdade. E sendo genuína, me igualei aos demais companheiros de peregrinação, fui aceita e fiz amigos..

O que acumulei sim, foram amizades, histórias, lembranças, experiências inesquecíveis. Mais amigos, mais visão de mundo, mais tolerância a desconfortos, mais força física, mais lucidez espiritual. Voltei com mais senso de organização, mais introspectiva, mas ao mesmo tempo mais socializável. Mais magra física e mentalmente. Os problemas não sumiram, mas pareceram se reconfigurar sob uma outra perspectiva. Ficaram mais carregáveis, como se eu aprendesse a ajustar a mochila da vida. E sim, o Caminho de Santiago tem alguma coisa especial que nenhum outro lugar tem.

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RESPEITO: Convivi com pessoas do mundo todo. Muitas diferenças culturais, hábitos e costumes. O ambiente dos albergues coletivos, em que tive que dividir o mesmo quarto com homens e mulheres que até então não conhecia, foi um exercício de tolerância. Tentar dormir, depois de uma exaustivo dia de caminhada sob o sol, tendo bem perto peregrinos que roncavam, que faziam barulho, conversavam, soltavam flatulencias, me ensinou sobre paciência e resignação.

Eu me sentia agradecida pelo fato de ter conseguido vaga numa simples cama num albergue público, porque acontecia de alguns peregrinos às vezes não conseguirem, e terem que buscar, já muito cansados da caminhada diária, uma vaga em outros albergues ou até mesmo em hotéis.  Mesmo a fila para o banho, com água, por vezes fria e racionada, me desanimava. Eu me sentia feliz por ter aquilo que eu precisava naquele momento.

Nas ocasiões em que fiz uso das cozinhas comunitárias dos albergues eu aguardava a minha vez, depois limpava, lavava os utensílios que usei, enquanto interagia com outros peregrinos.

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Albergue em Roncesvalles

LIMITAÇÕES: Eu testei meus limites físicos e psicológicos na longa peregrinação. Quando a sensação de exaustão e solidão me tomavam, eu chorei. Muitas vezes eu chorei, resmunguei, falando comigo mesma, e segui adiante…

Teve dias em que a minha programação inicial era de caminhar uma determinada quilometragem. Mas por absoluta exaustão, eu encerrei a caminhada diária antes, ouvindo os pedidos do meu corpo e da minha mente. Eu respeitei meus limites.

Mas teve dias que eu fui mais além do que o previsto. Eu percebi que eu podia mais. E então eu fui. Eu me superei. Ambas foram sensações muito boas. Eu simplesmente me ouvi. Quando achei que podia avançar e quando eu devia ceder.

Mesmo quando ao acordar, ao me mexer na cama e constatar que todos os meus músculos doíam, quando o sono queria se impor, clamando por mais horas, eu sabia que devia levantar e seguir. E eu consegui.

Nunca duvide de sua capacidade. Nas dificuldades é que descobrimos nossas fortalezas. Viver na zona de conforto é bom, mas atrever-se é melhor.

Uma lição importante que O Caminho meu deu: não existe certo ou errado. Aprendi que o Caminho deve ser feito no tempo de cada peregrino e que  devemos respeitar nossos limites e, principalmente, ter a humildade de saber que existe um poder maior, e a própria natureza. Peregrinar no Caminho é uma experiência única, pessoal, individual, e maravilhosa!
Descobri que tentar cumprir à risca a programação proposta pode ser um erro. É bom planejar, preparar uma programação, mas definitivamente, não devemos cumpri-la à risca. É muito importante fazer as adaptações de acordo com as circunstâncias que mudam com uma facilidade incrível! Cada momento exigiu uma decisão diferente e muito pessoal.

Aprendi logo no primeiro dia que tinha que manter o meu ritmo, que não deveria de maneira nenhuma acompanhar ninguém. Alguns peregrinos passavam por mim com uma pressa doida, mas no final do dia todos nos encontrávamos no albergue, ou na missa, ou no jantar. Ficava imaginando o quanto da paisagem eles curtiram? Com quantos locais, com quantos outros peregrinos eles interagiram, trocaram ideias, filosofaram? A peregrinação não é uma maratona em quem ganha é quem cumpre em menor tempo O Caminho ou quem caminha mais quilômetros por dia. Aí ela perde seu sentido, sua razão de ser.

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METAS: As pessoas me perguntam como eu consegui andar toda essa quilometragem… Eu respondo: andando de 25 a 30 quilômetros por dia. Um passo de cada vez, com calma, paciência, e tendo um objetivo a buscar.

Estar munida de muita força de vontade e disposição tenaz facilitou a empreitada e fez com que a busca pelo cumprimento das etapas fosse feita sempre com sorriso no rosto, mesmo que, em algumas ocasiões, as condições adversas se sobressaíssem. Dores, e cansaço… muito cansaço. Mas estes não impediram que a saudação universal do caminho fosse dada dezenas (ou centenas!) de vezes com um sorriso no rosto. Ouvir um “buen camino” quando encontrava com outro peregrino além de gratificante, foi motivacional.

No Caminho andei por cidades, vilas, estradas e matas, sempre procurando e seguindo as setas amarelas e as conchas de vieira, numa dinâmica feliz que lembra um jogo, uma gincana. Elas apareciam pintadas em muros, postes, árvores e placas, totens e até no chão. Em alguns lugares estavam a cada 30 metros, em outros, a cada quilômetro. Era com alívio e alegria que as localizava, pois me transmitiam segurança, tranquilidade, de que eu estava no caminho certo, de que não tinha me perdido.

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TROCAS: Sendo curta e grossa: recomendo ir sozinho ao Caminho. Você pode até pensar que se trata de um caminho solitário, mas não é. A não ser que você queira. E por que não é? Porque as pessoas precisam trocar para crescer, porque ali você é membro de uma família que nasce nos primeiros passos e que vai ganhando e perdendo parentes até chegar ao objetivo final.

Sozinho você está mais aberto, mais acessível e sem perceber acaba permitindo que as pessoas interajam mais contigo. Claro, conheci famílias caminhando juntas numa boa, mas vi amigos brigarem e perceberem que o ritmo de cada um era o mais importante. Se somos diferentes, nossos passos não têm porque serem iguais. Mas ali éramos todos peregrinos. 

Tive momentos únicos de solitude, e às vezes, de solidão. Eu optei por estar só, na maioria do tempo em que caminhei, embora pudesse, se quisesse, estar acompanhada de amigos do Caminho. Tive esse momentos com eles, e foram de trocas muito enriquecedoras. Encontrei pessoas de todos os continentes, e mesmo não falando a mesma língua, nos entendemos perfeitamente. Fiz amizades com muitos, que creio, serem para toda a vida. Recebi deles afeto, ânimo, ajuda, água e até mesmo alimentação.

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Minha querida  “mama italiana” Patrícia, a quem presenteei  com uma camiseta com a imagem de Nossa Senhora Aparecida

O Caminho mostrou-se um grande nivelador de grupos sociais, de pessoas, em tese, de idades diversas, de níveis sociais e de conhecimentos diferentes. Não existe regra. São homens e mulheres, sozinhos ou em grupos, idosos e jovens, casais, pais e filhos, juntos.  E o mais importante, com histórias de vida únicas. Mas ali, no Caminho, queríamos ser iguais. Todos chegam caminhantes e saem como peregrinos. Apenas peregrinos.

Os diálogos que tivemos, as confissões que fizemos, as impressões que trocamos, foram de enorme valor. Sei que interferi de forma grave na vida de alguns, assim como eles interferiram na minha, com nossas respectivas falas. No Caminho todo mundo cuida de todo mundo, todos se conhecem de vista. O aprendizado humano foi monumental. Também este relato, sobre o que aprendi com O Caminho, deve ser compartilhado, pois pode contribuir ou aliviar O Caminho do outro.

Com meus amigos peregrinos aprendi sobre política, religião, amizade, companheirismo, tolerância, amor. As despedidas foram doídas… Sofri ao me despedir dos meus amigos do Caminho, até aprender que aquilo tudo era uma passagem.

E quero deixar aqui uma homenagem especial aos meus queridos companheiros: meus sticks, bastões de caminhada. Facilitaram em muito o meu caminho. Engraçado constatar que os esqueci dentro do carro alugado, em Santiago de Compostela, depois de chegar ao meu almejado objetivo, quando não precisava mais deles. Ou seja, ficaram lá, onde tinham que ficar…

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Nosso quarteto fantástico: Eu, Sílvia, Sinai e Tanya. Queridas amigas que o Caminho me deu.
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Depois de um trajeto cansativo, sombra, uma caña, e afeto peregrino

MEDO: Desde que eu descobri O Caminho eu nunca tive medo de fazê-lo. Nunca pensei em recuar, eu acreditei nesse sonho e fui atrás dele. Depois vi que foi fácil fazê-lo, praticamente não tive bolhas e calos nos pés, não tive problemas físicos importantes durante a peregrinação. Depois que o ritmo da caminhada se impôs eu já não me sentia cansada, a mochila foi ficando cada vez mais leve.

O Caminho é lindo, repleto de natureza, de flores, de paisagens maravilhosas, mas a sensação nem sempre é de plenitude e de contentamento. Tive momentos de desamparo e de solidão. Chorei sozinha muitas vezes, lavei a alma, literalmente, junto com o suor e com os pingos da chuva.

Lembro que algumas vezes tive receio de estar perdida e sozinha, na imensidão dos campos, em meio a estradas rurais, e depois me dei por conta que minhas suposições eram apenas frutos de meus medos.

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No céu. Nos Pirineus.

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CURTIR O MOMENTO: Durante O Caminho eu me sentia muito presente. Em cada minuto, em cada momento, eu efetivamente estava lá. Apreciei as paisagens por onde passei, sentei à beira da estrada, na sombra de árvores, na beira de rios e riachos,  onde também molhei os pés na água gelada, comendo bocadillos e as tortillas de batatas que eu amei e comprava em mercados e lanchonetes e trazia na mochila para a hora que a fome batesse, sem me importar com o horário que os ponteiros do relógio indicavam.

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Pausa para descanso em Zubiri

Mas que fique claro: O Caminho não serve para turistar . A rotina de caminhar o impede um pouco de ficar flanando e contemplando monumentos. O que se faz por lá é outra coisa e por isso que o Caminho conta com uma infraestrutura de turismo peregrino, mais barato e não badalado. Mas é claro que, por ter caminhado na história a gente acaba se enchendo de novas informações e engrandecendo o espírito.

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Linda Catedral de León

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Eu confesso que, inicialmente, eu até tentei cumprir uma agenda, uma lista prévia pesquisada, de check in a serem feitos  em pontos históricos e turísticos do tipo “tem que ver”. Mas logo fui vencida pelo cansaço diário das caminhadas.

Mas foram tantas visões inebriantes do céu de um azul ímpar e de alvoreceres e pores do sol, que me emociono só de lembrar. Paisagens de campos de trigo sem fim, parreirais e olivais, de florestas, de estradas a perder de vista.

Tive lindos momentos com amigos do Caminho, rodas de violão, cantoria, conversas ao redor da mesa, regadas a vinhos e cervejas, durante as refeições coletivas ou em pequenos grupos, nos albergues e em bares e restaurantes. As dezenas de missas de peregrinos, as orações em espanhol, já decoradas depois de tanta repetição…

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Em Foncebadón

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Acima de tudo, estive consciente da maravilhosa experiência que eu estava desfrutando, que eu me proporcionei, ao fazer O Caminho.

DIVINO: O Divino esteve presente em todo o meu Caminho. Sempre tive a certeza que tudo o que eu precisava, ou já estava comigo, ou se apresentaria a mim, por Providência Divina. Não me faltou nada no Caminho. Nem comida, água, nem cama para dormir, nem amigos para confraternizar.

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Amanhecer na Cruz de Ferro, no Monte Irago
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Sunset no Cebreiro

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SUPERAÇÃO: A chegada a Santiago é magnífica. A sensação de dever cumprido é uma emoção sem limites. Este ritual de chegada é milenar e celebra uma renovação espiritual. Muitos dizem que é à partir da chegada que o verdadeiro Caminho começa. O Caminho da vida. E se soubermos aproveitar o que o Caminho de Santiago tem a oferecer, podemos transformar muitas das nossas atitudes pelo resto de nossas vidas.

Eu cheguei a Santiago feliz e realizada. E muito, muito emocionada. Lembro que eu tinha planejado fazer um vídeo no celular do momento de minha chegada na Praça do Obradoiro. Até o texto eu já tinha mentalizado, estava decorado. Na hora a garganta apertou, engasguei, e não consegui falar praticamente nada, dominada pela emoção do momento. Só chorei lavado, feito criança, em meio aos abraços dos amigos peregrinos.

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Foi um momento de entrega ao meus sentimentos mais profundos de gratidão e felicidade, foi um choro convulsivo e em minha mente o Caminho ia passando como num filme… Os momentos em que precisei ser muito forte e que superei as dificuldades, os momentos de extrema felicidade simplesmente por estar caminhando, momentos de magia em que os fatos não encontraram tradução na lógica e que dispensam explicações..

Depois de passar pela fila na Oficina de Peregrinos e retirar minha tão sonhada Compostela, meu certificado de que cumpri a peregrinação com êxito, segui para a Missa dos Peregrinos, na grandiosa Catedral de Santiago. A cerimônia foi linda, emocionante. Mais choro, especialmente no abraço à estátua de Santiago, localizada atrás do altar, e quando estive de joelhos em frente à urna de prata que guarda as relíquias do Santo Apóstolo.

Recordo com carinho que nos últimos dias de peregrinação, quando já me aproximava da cidade de Santiago de Compostela, um sentimento de nostalgia, de saudade, uma melancolia, já dava as caras. Parece que até o passo eu diminuí. Consciente de que a peregrinação estava chegando ao fim, dias tão especiais… eu não queria…Assim também foi em Santiago, já tendo cumprido o itinerário de praxe: retirada da Compostela, assistir a Missa dos Peregrinos na Catedral, circulada pelo centro histórico. Diante da constatação de que o objetivo foi atingido, de que a hora de retomar a rotina da vida se aproximava, e ter que enfrentar o momento da despedida dos amigos… hoje compreendo que foi mais uma lição do Caminho: “Tudo vem. Tudo vai. Tudo muda e se muda. Tudo começa e termina. Tudo passa, inclusive o que não queremos.” Ita Portugal

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A tatoo que fiz na chegada à Santiago. Uma vieira estilizada, símbolo do Caminho

Enfim, foi um exercício de equilíbrio entre  espiritualidade, o prazer e a alegria. Atravessar cidades e pontes medievais, subir montanhas inacreditáveis, rodeada por exuberante natureza, tomar vento e chuva, caminhar sem parar até chegar a Santiago e cair emocionada no chão da praça, chorando, e com o vitorioso sentimento de superação. E depois voltar para casa feliz e renovada, cheia de boas energias. Inesquecível…

Já sinto que o relato sobre O Caminho não termina aqui. Outras lembranças virão, e me sinto feliz ao escrever sobre ele, pois reafirma minhas preciosas e doces lembranças sobre a experiência peregrina. Quando vierem, conto tudo aqui.

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