Dentro da Casinha

A “minha aldeia” – Um novo olhar sobre o lugar onde vivemos

Xeretando aqui no blog me dei por conta que, desde que eu o criei em 2015, até então eu não tinha escrito um texto que estivesse vinculado a esta Aba que fiz questão que estivesse aqui, a “Dentro da Casinha”. Relacionados a ela já publiquei posts como Imagens & Mensagens e Livros (indicações de minha biblioteca particular). Mas texto ainda não. Então, esta é a estréia!

A proposta da Dentro da Casinha era de que fosse um espaço aqui no blog para minhas reflexões e indagações pessoais, onde eu pudesse compartilhar minha vibe “viajandona”, não somente com temas relacionados às viagens, mas também à vida, que afinal, fazem parte de uma coisa só.

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Superando o medo de ser atropelada, para fotografar esse espetáculo

Tenho momentos de reflexão, especialmente quando estou caminhando por aí. Li  em algum lugar que os anjos sussurram nos ouvidos dos homens enquanto estes caminham. Acho que é isso mesmo.

O texto deste post não se refere a nenhum destino em especial, não é sobre algum lugar para onde viajei, reconhecido e indicado pelas revistas, sites e blogs de turismo. Não. Esse texto se refere ao lugar onde eu vivo. Onde você vive. Onde passamos a maior parte do ano, imersos na nossa rotina de trabalho, de escola (a sua e/ou a dos filhos), envoltos em cuidados com a família, com nossos afetos.

Proust escreveu lindamente que “A verdadeira viagem do descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, mas em ver com novos olhos.”

 

Tenho o hábito de fazer curtas caminhadas pelos arredores do bairro onde moro, uma cidade de porte médio, localizada no interior do Estado do Rio Grande do Sul. Às vezes sozinha, e na maioria das vezes, na companhia de nossa pet viajante, a Cora Coralina,  cumprindo um  ritual diário (ela precisa fazer o 1 e o 2, né), de manhãzinha e no final da tarde.

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Minha companheira de caminhada, versão Dálmata Fake

E nessas caminhadas tenho visto paisagens lindas. Agora, prestes a iniciar a primavera, percebo a florada dos ipês, as árvores e plantas, em seus diversos tons de verde, o colorido das flores. Tudo contrastando com o céu de um tom azul incrível. É claro que as imagens que vejo aqui nas outras estações também não perdem nada no quesito beleza.

 

Inspirar profundamente, estando ao ar livre, em especial no início da manhã, me faz um bem danado. Observar a beleza do mundo que nos é dado (e que, com nossa contribuição, se constrói, se modifica) me motiva a  caminhar, sair do lugar, e me dá a certeza que nada é melhor do que se mover por aí. Seja pelas ruas da cidade, pelas estradas ou pela própria vida.

Quando sou indagada sobre meu onipresente desejo em viajar, conhecer lugares e culturas diferentes, percebendo ali até uma pontinha de inveja (bem disfarçada numa opinião crítica) quanto ao meu estilo de vida, eu lembro do ensinamento de Ribeiro Couto: “Todas as viagens são lindas, mesmo as que fizeres nas ruas do teu bairro. O encanto dependerá do teu estado de alma.”

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Nessa vibe filosófica, questiono: “Você apenas enxerga ou vê o mundo ao seu redor?”

Para o cientista Masataka Watanabe, um dos maiores estudiosos do assunto, ver e enxergar são realmente ações muito diferentes. Para ele, ver está em aprofundar sua visão sobre o objeto visto e analisá-lo mais de perto. Já enxergar é apenas olhar sem avaliar com mais cuidado aquilo que se está enxergando. Quando estamos numa livraria, por exemplo, podemos dizer que ao folhear as páginas de um livro estamos apenas enxergando suas folhas, entretanto, quando passamos a ler suas páginas, estamos realmente vendo e interagindo com o conteúdo apresentado pelo autor.

Se este texto está lhe soando muito “viajandão”, resumo meu pensamento de forma mais didática e direta: já que as questões práticas da vida não nos permitem viajar tanto quando gostaríamos, sair por aí conhecendo novos lugares, proponho que a gente curta bem, de verdade, o lugar onde vivemos. Isso inclui aproveitar as oportunidades que surgem na agenda para termos contato com todas as formas de expressão artística. Isso refina nosso gosto, nos faz mais críticos quanto ao que nos é imposto diariamente pela mídia massificada.

Aproveitar qualquer intervalo de folga do trabalho e dos compromissos diários, para realmente ver, apreciar as ruas de nosso bairro, os recantos da cidade onde moramos, as paisagens que se descortinam frente aos nossos olhos… Garanto que só poderá nos fazer bem, alivia o estresse, desanuvia o coração de preocupações, traz leveza para o dia da gente. De quebra, acredite, você terá descobertas e aprendizados extraordinários e surpreendentes. Permita-se!

Exemplo disso: me sinto muito privilegiada por ter sido contemplada com a visão de um por de sol de babar, visto da janela da minha cozinha sempre que o tempo está aberto. As minhas meninas já estão acostumadas a ouvir minhas exclamações de admiração e elas vem correndo me acompanhar no espetáculo. Às vezes, são elas mesmas que percebem e me chamam até a janela.

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Vista da janela da cozinha de meu apartamento

“Vivemos em um mundo maravilhoso que é cheio de beleza, encanto e aventura. Não há fim para as aventuras que podemos ter se nós apenas as procurarmos com nossos olhos abertos.” (Jawaharial Nehru)

Ao olhar de uma forma diferente para o espaço urbano pelo qual circulamos todos os dias, ampliamos nossa percepção sobre os padrões de beleza e  é possível serem criados novos significados para o lugar onde vivemos. Essa nova forma de ver o bairro fortalece o sentimento de pertencimento e a autoestima em relação ao lugar em que moramos.

Poesia a uma hora dessas?! Vamos lá…

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro

Alberto Caeiro é um heterônimo do grande poeta português Fernando Pessoa. Musicada por Tom Jobim essa poesia ficou uma beleza só. Mas o que chama a atenção no texto, na minha modesta opinião, é o valor único e singular que o poeta empresta ao “rio que corre pela minha aldeia”, ao sentimento de pertencimento e de significado que o relaciona ao rio, à sua aldeia.

Que nos sirva de inspiração: ver e ressignificar o lugar onde vivemos. Afinal, viver intensamente a vida é realmente uma grande viagem. Que se inicia a cada amanhecer, aqui mesmo, no lugar onde moramos.

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Jardim, hortinha, meus vasos de chita… Meu cantinho que organizei com amor

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