Brasil · Casinha sob rodas · Dentro da Casinha

Me ajuda a olhar!

“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta imensidão do mar, e tanto fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: Me ajuda a olhar!”

Este trecho foi retirado da obra “O Livro dos Abraços” de Eduardo Galeano.

Me perdoe a ousadia o mestre Galeano, mas não basta olhar, é preciso ver!  Ao ler as obras de Galeano, em seu conjunto, concluí que não era outra coisa a que ele se referia em suas histórias: de ver! Ver é mais do que olhar. Ver é olhar com cuidado, com insistência, com atenção, com distinção. Ver é olhar com o corpo todo e não só com a visão.

Quando comecei a elaborar mentalmente um post para servir de fechamento na série que narra nossas aventuras a bordo de Frida, nossa Casinha sobre Rodas, no Litoral Brasileiro, especialmente na Região Nordeste do Brasil, e para expressar minhas impressões e reflexões sobre o que foi viajar por 17 dias tendo como casa nosso “caracol”, um espaço pequeno para convivência, e ao mesmo tempo, imenso, pois ali dentro coube muitos sentimentos, por vezes contraditórios, nem sempre tranquilos e felizes, e por apresentar um mundo novo para minhas filhas (e para mim também, muitas vezes), lembrei imediatamente dessa passagem escrita pelo talentoso escritor uruguaio Eduardo Galeano.

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A beleza da escrita de Galeano fez absolutamente sentido para mim na medida que me confrontou sobre qual foi o meu papel nessa viagem.  O de guia de turismo, a que mostrou pontos turísticos e paisagens maravilhosas? O de mediadora de conflitos, que separou dezenas de brigas e rusgas entre as três filhas adolescentes? O de dona de casa, que cozinhava, passava, lavava louças e roupas? O de viajante incansável e curiosa que tudo queria ver? O de psicóloga, que escutou e acolheu reclamações, percebeu frustrações e alegrias, oscilações de humor na turma? O de companheira romântica do Lu, que insistia e ainda insiste em “poetizar” tudo?

Em meus muitos papéis, que se alternaram e também conviveram (nem sempre pacificamente) fui “Santiago”. E confesso… foi um prazer sê-lo. Foi quando eu apresentei novas realidades para as minhas meninas. Não somente paisagens lindas, praias maravilhosas, mas também pessoas, e a forma como vivem, como lhes parece certo ou simplesmente, como lhes é possível. E isso foi realmente enriquecedor, e creio, inesquecível. Para elas, para mim, e para o Lu também, imagino.

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Pensando bem, acho que eu fui muito mais “Diego” do que “Santiago”, o pai, na história de Galeano. O fato do calendário acusar que eu sou a adulta aqui, junto com o Lu, não me afastou do espírito de criança que mora em mim.  Percebi, mais uma vez, “tremendo, gaguejando”, o quanto a beleza irretocável e pura da natureza me toca, me emociona, a ponto de eu precisar de ajuda para olhar. Meu socorro vem das palavras, vem da poesia, vem da literatura.

Lembro com nitidez quando, na parte final da viagem, para distrair as meninas, inventei uma das minhas tantas “dinâmicas”. Como eu queria fazer surpresa sobre o fato de já estarmos chegando em casa, quando elas imaginavam que estávamos próximos à Curitiba, usei do artifício de distraí-las com um jogo, uma brincadeira, para que não atentassem às placas de sinalização de trânsito.

Fizemos uso do microfone de brinquedo da Isa, “A Diva da Treta”, num jogo de entrevistas, em que todos respondiam às mesmas perguntas tipo “Qual o lugar que você mais gostou nessa viagem?”, “Que passeio você achou mais legal?”, “Qual foi sua maior dificuldade na viagem?”, “Você mudaria alguma coisa do que aconteceu na viagem, o que faria diferente?”, “O que será inesquecível pra você?” e por aí foi…

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Gente, vocês não fazem ideia das respostas delas! Além de elencarem seus “Top Dez”, tipo, o dia de navegação no Rio São Francisco, que ganhou por unanimidade e louvor como melhor passeio, e destaques para praias e paisagens como Morro Branco/CE, Maragogi/AL e Pipa/RN, a experiência de passar o Natal na pousada em Pontal do Coruripe/AL; elas também fizeram reflexões importantes, que me tocaram de modo especial.

Lamentaram o fato da ansiedade, das irritações e brigas bobas terem lhes furtado bons momentos na viagem. Disseram que poderiam ter aproveitado mais, mas que, de qualquer forma, a experiência foi inesquecível. Tudo valeu a pena para elas. Pra mim também, filhas.

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Eu e o Lu respondemos as mesmas perguntas, e também pudemos nos manifestar com honestidade sobre nossos sentimentos. Pude falar o quanto me custou abdicar de conhecer, de passear em regiões por onde passamos de forma muito rápida, num estilo Rally, para atender os desejos delas, especialmente de Sofia e de Isa, as “apressadinhas”. Também falei sobre minhas preferências, e principalmente, de como eu senti os lugares, como acolhi dentro de mim as experiências vividas. Sobre elas já compartilhei aqui nos vários posts relacionados a essa trip brasileira:

Reta final: do Espírito Santo até Dentro da Casinha – Brasil

Navegar no Velho Chico é preciso, viver não é preciso – Sergipe e Bahia – Brasil

Óh linda! Pernambuco e Alagoas – Brasil

Então é Natal! Rio Grande do Norte e Paraíba – Brasil

Entre Galos e Galinhos – Rio Grande do Norte – Brasil

Morro Branco e Canoa Quebrada – Ceará- Brasil

Oxente! Frida foi ao Nordeste – Brasil

Ainda sobre VER, percebi com mais atenção meu companheiro querido e amoroso de viagem, o Lu. Na maior parte do tempo a calma e a paciência em pessoa. Mas também, em raros momentos se permitiu, e permitiu que eu o visse assim, cansado, irritado, mau humorado. Foi muito bom saber que ele é igual a mim, também sai do prumo de vez em quando. Ufa…

Um homem “das Exatas”, ao conviver comigo, absoluta e inteiramente “das Humanas”, também se mostrou adoravelmente sensível, ao acolher meus muitos momentos de contemplações e divagações filosóficas, recheados por manifestações de encantamento diante das paisagens e das experiências que vivemos nessa viagem. Me ajudou a olhar, como referiu Galeano.

Encerro esse post e as narrativas sobre essa viagem em família como iniciei, com mais uma citação do maravilhoso escritor uruguaio, que é inspiração para mim:

” Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me contou que somos feitos de histórias”  Eduardo Galeano

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