Américas

Buenos Aires – Argentina

Já escrevi aqui no blog que acredito que vale a pena revisitar lugares, pois sempre temos um novo olhar para a mesma paisagem, seja ela qual for. Embaso esta afirmação pelo fato de que, como seres mutáveis que somos, percebemos e sentimos um lugar dependendo de variáveis, como nosso estado de espírito, nosso conhecimento sobre o lugar (sempre há novidades, coisas a serem descobertas), nossas experiências anteriores, confrontando o formato da atual viagem e das anteriores. E óbvio, também pela companhia de viagem.

Recentemente retornei de mais uma viagem à Argentina, onde revisitei as cidades de Buenos Aires e Mendoza. Buenos Aires foi visitada pela quarta vez, e em Mendoza estive pela segunda vez. E afirmo com certeza: em ambas eu tive uma experiência absolutamente única, singular.

Na minha primeira visita à Capital Portenha viajei num formato de excursão, acompanhada do pai de minhas filhas e de alguns amigos, naquele tradicional “pacote com city tour e tango”, aproveitando um feriado, a muuuitos anos atrás. Na segunda vez já fui “por conta própria”, quando passei lá um Reveillon animado na companhia de amigos. Na terceira vez estive novamente no formato excursão, na companhia da minha filhota Sara, em mais edição do que chamamos aqui em casa de “brincando de filha única”, viagem relatada aqui  Chicas em Buenos Aires – Argentina e aqui Buenos Aires – Argentina – O Retorno.

Desta vez fui com o amore Lu. E claro, achei a cidade romântica, adorável ♥! Tudo num clima “love in the air”… Embora na maior parte dos dias de nossa estada na cidade nos deparamos com muitos períodos chuvosos, bastante umidade, céu nublado, com pouco sol, eu achei tudo lindo. Aaah, o amor…

O Lu também já esteve anteriormente em Buenos Aires, numa viagem de estudos relacionada a seu trabalho, a mais de 20 anos atrás. Na ocasião não deu pra fazer muitos passeios pela cidade, então, tudo soava como novidade.

A realização desta viagem atrasou em um ano. Em 2018 eu reservei hospedagem para uma semana numa “casita”, um chalé instalado num bosque de plátanos, num Clube de Campo em Maipu, um distrito de Mendoza, e a viagem não saiu. De última hora o Lu teve um compromisso de trabalho que o impediu de usufruir das férias já acertadas. Embora eu não tenha nenhum problema em viajar sozinha, não era o caso de Mendoza. Eu sonhei Mendoza a dois, num clima romântico, com muitos Malbecs saboreados com a vista da Cordilheira dos Andes e dos vinhedos a perder de vista.

Suspendi a viagem, consegui manter o crédito da hospedagem, para ser usufruída em nova data a ser definida, e enfim, quase um ano depois, partimos os dois rumo à Argentina.

Antes da partida propriamente dita, que ocorreu no mês de abril, nós tivemos muito trabalho, por meses. Eu e o Lu organizamos previamente a logística da coisa, leia-se, deslocamento até Buenos Aires e depois para Mendoza, reserva do hotel em Buenos Aires, agendamento das visitas às bodegas, ao show de tango e para a apresentação da Orquestra Sinfônica de Buenos Aires no Teatro Colón. Isso implicou horas de pesquisas na internet e sequências de trocas de e-mails. Mas afinal, deu tudo certo.

Considerando que moro mais ou menos no meio do caminho entre a capital gaúcha – Porto Alegre – e a fronteira com a Argentina, optei por desde casa já seguir em direção aos vizinhos hermanos.

Compramos pelo site da Crucero del Norte as passagens para o busão que nos levou para Buenos Aires desde Paso de los Libres, cidade argentina que faz fronteira com a cidade gaúcha de Uruguaiana, tendo o Rio Uruguai como divisor. Cada passagem custou 1.640 pesos argentinos. Como viajamos numa conversão do real valendo entre 9 e 11 pesos (numa média de 10), considerando a qualidade do serviço da empresa, eu achei o preço da passagem muito bom.

Segui de carro até Uruguaiana, numa viagem por cerca de 5 horas. Lá encontrei o Lu e guardamos nossos veículos. Tomamos um táxi (35 reais) para atravessar a ponte internacional, que faz a fronteira entre Brasil e Argentina. Depois dos trâmites de imigração, que foram rápidos, seguimos para o Terminal de Ómnibus (a escrita em espanhol é assim mesmo, tá) de Paso de Los Libres.

Chegamos cedo por lá, por volta das 19 horas, sendo que o horário da partida do busão estava previsto para a meia-noite. Só previsto mesmo, porque o ônibus pegou a estrada já era passado de uma hora da madrugada. Faz parte, né, esses perrengues de viagem. Para suportar a espera só bebendo Quilmes de litrão, comendo umas papas fritas e navegando na wi-fi emprestada do restaurante.

A visão do Terminal de buses era típica dos confins de qualquer cidade do interior da América do Sul: uma paisagem empoeirada, com muitos perros (cachorros) de rua, comércio de quinquilharias made in China, pessoas fumando, vento frio e sujeira em geral. Depois de um tempo sentados num banco duro de madeira nos refugiamos no único restaurante do terminal, onde a televisão transmitia um jogo de futebol qualquer.

Canseira batendo, ventinho frio vindo da rua, sono chegando, e nada do busão aparecer no terminal, pois ele vinha de outras paragens. Com uma hora de atraso, aportou. Ufa…

A notícia boa é que tive a feliz ideia de comprar os assentos no modelo “cama”, baseada em experiência anterior de viagem também feita de ônibus para Buenos Aires. Realmente, a poltrona ficou na horizontal, com direito à travesseiro e mantinha. A televisão transmitia um filme, que ignorei completamente, e felizmente logo foi desligada ou eu adormeci em minutos, não tenho certeza.

Chegamos em Buenos Aires passava das 10 horas da manhã. Viagem tranquila pelas planuras das rutas argentinas. Com o endereço do hotel em mãos pegamos um táxi. Embora o check in estivesse previsto para às 14 horas, assim que chegamos fomos autorizados a ocupar nosso quarto, sem nenhum custo extra. Maravilha!

Um aparte sobre nosso hotel em Buenos Aires. Eu me considero uma pessoa simples e nada exigente sobre hospedagens quando estou viajando. Bem sei (e eventualmente minhas companhias de viagem) das espécies de hostels e hotéis em que já fiquei por esse mundão. Não sou de frescuras mesmo. Alguns poderiam ser classificados desavisadamente como verdadeiras “espeluncas”. Eu menciono que apenas tinham “uma pegada very roots”. Experiências que se converteram em boas histórias recheadas de risadas. Mas confesso que tenho uma queda por lugares com certo peso histórico. Como eu digo, “lugares com fantasminhas”, onde eu perceba que ali se passaram histórias de vidas.

Foi assim que, ao definirmos que eu ficaria encarregada de pesquisar hospedagem e reservar 3 diárias em Buenos Aires, me joguei com afinco na tarefa. Grande metrópole que é, imã de turistas das mais variadas nacionalidades, é óbvio que a oferta de hotéis e hostels é enorme, com todas as variáveis de estrelas e para todos os bolsos. Mas minha mente me direcionava para pequenos hotéis, que cultivassem um charme portenho.

Foi assim que dei de cara e caí de amores pelo Cruce Hotel Boutique, localizado no Bairro Montserrat, na Calle Mexico, pertinho da Avenida 9 de Julio, a espinha dorsal de Buenos Aires. Está instalado numa casa reformada do ano de 1830 e respira charme, bom gosto e tranquilidade. Um lugar para descansar do agito da cidade. Uma gracinha de lugar. Gente, eu adorei dormir numa cama com dossel!

Feliz da vida com nosso hermoso cantinho em Buenos Aires, largamos nossas coisas no quarto e fomos pra rua procurar um restaurante para almoçar e bater perna pelo centro histórico da cidade.

Acatando a sugestão do taxista que nos trouxe até o hotel, fomos até um restaurante italiano localizado bem próximo dali e nos jogamos nas pastas. Com a questão da fome resolvida, fomos caminhar. Inicialmente pela Avenida 9 de Julio, seguimos até o Obelisco, para aquela fotinho super básica.

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Mais amor no ar de Buenos Aires

Depois, seguimos pela Avenida Corrientes, e em certa altura tomamos a direção para o shopping Galerias Pacífico. Entramos no shopping, conferimos as vitrines, circulamos, observamos a linda pintura do vão central, xeretamos numa loja, e depois nos tocamos para a Plaza de Mayo.

A primeira parada na Plaza foi na Catedral Metropolitana. A Catedral faz parte do centro histórico da cidade e vale a pena visitá-la para descobrir sua história e arquitetura. A arquitetura da Catedral Metropolitana é um misto dos estilos neoclássico, neo renascentista, neobarroco e rococó. Um fato curioso é que a fachada da igreja, um frontão triangular e grandes colunas, mais se assemelha a um antigo templo grego do que com as tradicionais construções católicas, mas, na verdade, suas 12 colunas representam os apóstolos de Jesus. Ao lado do templo é a sede da Arquidiocese de Buenos Aires. Ingressamos na Catedral, que é belíssima, caminhamos por seu interior, observamos o mausoléu do General José de San Martín, sobre o qual escreverei mais adiante, e é um ícone, não só da Argentina, mas de grande parte dos países sul americanos.

Depois atravessamos a Plaza de Mayo, chegamos quando iniciava a cerimônia de arriamento da bandeira, executada por militares da Casa Rosada. Acompanhamos toda a “encenação” do grupo e depois fomos para o Café Tortoni, ali pertinho, na Avenida de Mayo.

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Cerimônia de arriamento da bandeira nacional argentina em frente à Casa Rosada

Ir a Buenos Aires e não tomar um café no Tortoni fica esquisito, né? Ao longo dos anos o Café Tortoni se tornou um ponto turístico de Buenos Aires. Aberto em 1858, ele conserva uma decoração antiga e é a cafeteria aberta a mais tempo na cidade, então é um lugar muito tradicional para tomar um café e bater um papo. Como da última vez em que lá estive, repeti o chá com churros e dulce de leche. Delicioso. Só me chateei ao descobrir que a pouco havia encerrado uma apresentação de tango, que acontece no subsolo do Tortoni. Se eu soubesse, teria me programado para assistir, claro. Aff…

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Café Tortoni

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À noite fomos dar uma volta em Puerto Madero, para curtir a vibe do local. Tomamos umas cervejas artesanais num pub, comemos um lanche por lá e depois retornamos de Uber para o hotel. Assim encerramos nosso primeiro dia na cidade.

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Curtindo o clima de Puerto Madero e o skyline de Buenos Aires

O dia iniciou e seguiu alternando períodos de sol e céu nublado. Ventinho frio, típico da Capital Argentina. Não nos acanhamos. Depois do café da manhã fomos até a BA Biking alugar bicicletas para pedalar pela cidade. A empresa estava situada bem pertinho do hotel, a cerca de um quarteirão. Eu já conhecia o serviço, da outra vez em que estive na cidade e eu e a filhota Sara fizemos um pedal, acompanhadas do guia. Mas desta vez eu e o Lu queríamos nos aventurar “free” pela cidade.

Com um mapa nas mãos planejamos nosso itinerário e partimos. Na maior parte dele por ciclovias.  Bem de boas.

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Pose do Lu em frente ao Congreso de La Nación Argentina

A primeira parada foi na Plaza del Congreso. Circulamos por ali, admirando os monumentos e o lindo e imponente prédio do Congresso Nacional Argentino. De lá seguimos para a Livraria El Ateneo Grand Splendid. Eu soube deste lugar na volta de minha última viagem à Buenos Aires e fiquei muito triste por não ter conhecido. Agora rolou!

El Ateneo foi eleita pelo jornal britânico The Guardian como a segunda livraria mais linda do mundo. A El Ateneo é uma das cadeias de livros mais tradicionais de Buenos Aires e já comemorou 100 anos. A filial da qual estou falando fica localizada no bairro da Recoleta, no prédio onde um dia funcionou o Teatro Grand Splendid, palco de grandes nomes da cultura argentina como Carlos Cardel e Roberto Firpo. Eu fiquei encantada com o lugar.

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Euzinha perdida no meio da lindíssima livraria

Nosso passeio seguiu pelas calles, com parada na Plaza San Martín, no monumento dedicado a esse herói nacional, o General San Martín, e também no Memorial de Guerra, uma homenagem aos mortos na Guerra das Malvinas. Conhecido como “O Libertador”, San Martín é um dos personagens mais importantes da História Argentina, verdadeiro herói nacional que teve papel preponderante para a independência do País, bem como também do Chile e do Peru. A praça foi batizada com nome que leva até hoje em 1878, como homenagem pelo centenário de nascimento de San Martín.

Do mirador da Plaza apreciamos a linda Torre dos Ingleses, atual Torre Monumental, que fica em frente, na parte baixa do bairro do Retiro. Você sabe o porquê dessa troca de nomes da Torre?

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Mirante na Plaza San Martín, com vista para a Torre Monumental (dos Ingleses)

Enquanto aliados históricos (Argentina e Reino Unido), os britânicos, em homenagem à Revolução de Maio, que levou à independência da Argentina, decidiram presentear o país com a construção de uma coluna monumentalPois bem, a situação entre amigos que se presenteiam mudou bastante por uma razão: a Guerra das Malvinas. O conflito armado entre a Argentina e o Reino Unido ocorrido nas Ilhas Malvinas, em junho de 1982. Disputa essa pela soberania do arquipélago já dominado pelos ingleses. Como era de se esperar, em meio à hostilidade, mortes e prisões, a “amizade” entre os dois países chegou ao fim. Resumindo: a troca de nomes da linda Torre foi devido ao desentendimento militar envolvendo os dois países. Não adiantou muito a troca, porque os argentinos continuam se referindo a ela pelo antigo nome.

Conferida a Plaza San Martín, seguimos pedalando pela Avenida Del Libertador em direção aos Bosques de Palermo. Uma paradinha para foto com o lindo prédio da Facultad de Derecho, e seguimos para o Cemitério da Recoleta, considerado um museu, por dois motivos. Um deles é o grande número de obras de arte encontradas lá. A outra razão é porque, no cemitério estão os restos mortais de personalidades famosas da política, cultura, arte e ciência.

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Atrás de mim o lindo prédio da Facultad de Derecho
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A linda pintura do prédio do Centro Cultural Recoleta, ao lado do Cemitério

O cemitério foi inaugurado em 1822. As abóbadas são na maior parte das famílias aristocráticas do país. O pórtico neo-clássico, com colunas clássicas e símbolos sobre o tema da morte. As sepulturas são de propriedade de cada família e cada proprietário deve pagar uma taxa mensal de administração. O metro quadrado mais caro da cidade está localizado dentro do Cemitério da Recoleta. Em seus quase seis hectares estão sepultados heróis da Independência, presidentes da República, militares, cientistas e artistas. Entre eles, Eva Perón, Adolfo Bioy Casares e Facundo Quiroga.

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Pórtico do Cemitério da Recoleta
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O mausoléu onde está enterrada Evita Perón

Zanzamos pelas ruas internas, admirando os mausoléus, conferimos o da Evita, e depois fomos fazer uma lanche, que fez as vezes de “pequeno almoço”, no tradicional Café La Biela, localizado bem em frente ao Cemitério. Eu já havia estado ali na minha última estada na cidade e quis mostrar para o Lu. Está em funcionamento desde o ano de 1942.

No salão interno do La Biela, o ambiente é elegante e acolhedor. A decoração conta com alguns detalhes que revelam a estreita relação do local com o automobilismo. As paredes exibem radiadores, antigos faróis, bielas, buzinas e outras peças de carros antigos.

Reenergizados com o lanche e o pit stop para descansar as pernas, seguimos com o pedal. A próxima parada, para fotos, foi na Floralis Generica. Dali seguimos para os bosques de Palermo. Lá fizemos uma visita no Jardim Japonês e depois no Roseiral. No Jardim Japonês deixamos com os demais que lá estavam, o nosso recadinho, com nosso desejo escrito num cartão e amarrado com fita junto a um lindo origami.

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Os ciclistas e a Floralis Generica
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Nosso desejo ficou registrado no Jardim Japonês
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Rosas de várias espécies e cores no Roseiral de Palermo

Depois de tanto pedal, onde as pernas da sedentária aqui foram exigidas ao máximo, vento frio do final da tarde pegando,  confesso que eu só queria estar no conforto da caminha do hotel. Assim me arrastei, junto com o Lu,  pelas calles, até devolver as magrelas na BA Biking.

Enfim, após jantar um delicioso bife de chorizo, descansamos no hotel e nos aprontamos para o grande evento daquele dia: a apresentação da Orquestra Sinfônica de Buenos Aires, no salão principal do Teatro Colón.

Antes de viajar eu pesquisei no site do belíssimo Teatro Colón se haveria algum espetáculo agendado durante o período de nossa estada na cidade. Desde a visita guiada ao interior do Teatro, que fiz durante minha última visita à Capital Argentina, eu já sonhava em assistir um espetáculo desde um de seus balcões.

Demos sorte! Estava prevista a apresentação da Orquestra Sinfônica com o maestro Enrique Arturo Diemecke. Apresentaram a Sinfonia nº 3 em Ré Maior, de Gustav Mahler, que foi lindíssima! Comprei os ingressos pelo site do Teatro (900 pesos cada ticket) e na data, lá estávamos nós, encarapitados num dos balcões mais altos do teatro, imediatamente acima de onde ficam os músicos. Deu pra acompanhar tudo bem de pertinho e ainda apreciar os detalhes do belíssimo salão, com a movimentação do público. Pena que não pudemos filmar nem fotografar durante o espetáculo. Uma experiência ímpar, com certeza. Além da apresentação da Orquestra, assistimos e ouvimos o solo da mezzosoprano Adriana Mastrángelo e do Coro de Niños del Teatro Colón. Uma emoção só… Pareciam anjos…Uma noite memorável. Encerrado o espetáculo ainda circulamos pelos salões do teatro, ricamente decorados.

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Vista da Orquestra, desde o balcão que ocupamos
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O lindíssimo Salão do Teatro Colón

No encarte da programação da noite havia uma citação que achei apropriadíssima para a ocasião: “Há realidades que parecem ficção, e ficções que parecem reais. Depois estão as coisas incríveis”. Neste último nível se encontrou a descrição do que foi o conjunto desta noite, seja pelo ambiente, pela apresentação dos músicos e cantores, enfim, pela experiência.

Encerrado o espetáculo decidimos retornar caminhando para o hotel, desde o Teatro até o hotel, seguindo a Avenida 9 de Julio. Passamos pelo Obelisco, todo iluminado, e seguimos, acompanhando a movimentação da principal artéria da cidade. Uma caminhada longa, que fizemos devagar, sem pressa, na noite de Buenos Aires.

O dia seguinte amanheceu chuvoso. Então optamos por programas em ambientes fechados. Foi a oportunidade perfeita para conhecermos o belíssimo Palácio Barolo. Seguimos até lá de Uber, compramos ingressos para o tour guiado que já estava iniciando (820 pesos argentinos), e curtimos.

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A fachada do Palácio Barolo
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O hall de entrada do edifício, ricamente decorado

Gente, que tour super bacana pra se fazer em Buenos Aires. É difícil decidir o que é mais incrível no edifício: sua beleza, sua história ou a vista. De lá de cima dá pra enxergar toda a Buenos Aires, especialmente o lindo prédio do Congreso de La Nación Argentina e a Plaza del Congreso, que ficam bem pertinho!

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Em meados de 1923, data de sua inauguração, o Palácio Barolo era a construção mais alta de toda a América do Sul. Apesar de esse status ter acabado em 1935, a grandiosidade do edifício continua se destacando na Buenos Aires dos dias de hoje. O ponto mais alto da cúpula chega a 90 metros, atingindo 100 metros com um grande farol giratório de 300.000 velas que o tornaram visível desde o Uruguai. Atualmente muitos escritórios alugam salas e andares do Palácio, mas ele segue sendo um forte ponto turístico.

Declarado Monumento Histórico Nacional, o Palácio Barolo é inspirado no livro Divina Comédia, de Dante Alighieri, o que influenciou na arquitetura do edifício. Ele é dividido em três partes (assim como o livro), tem 22 andares (mesmo número de estrofes da obra) e 100 metros de altura (igual a quantidade de cantos da Divina Comédia). Detalhes cuidadosos caracterizam este projeto: Desde as citações pessoais em latim sobre a obra de Dante no edifício, até a inauguração, realizada na data do aniversário do poeta.

Uma visita ao Barolo rende fotos maravilhosas, além de muito conhecimento em arquitetura e um pouquinho de história. A melhor parte? Em cima da torre, a 100 metros de altura, está um farol lindo e todo de vidro!

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As escadarias do Palácio. Mas a gente subiu de elevador (que são da época da construção, lindos!)

As visitas guiadas pelo Palácio podem ser tanto diurnas quanto noturnas, mas é bom fazer reserva antecipadamente. Quando retornar a Buenos Aires quero fazer a visita guiada noturna. Nesta visita foi muito bacana subirmos pela escadaria apertada que conduz até a cúpula do prédio, onde o grupo tomou assento entorno do farol, se podendo observar toda a cidade e o Rio da Prata. Também estava incluso no ticket, no final do recorrido, uma limonada, que foi servida no lindinho Salón 1923 do Palácio, instalado no 16º andar do prédio, onde há um rooftop. Chama atenção a decoração antiga do café e a roupa de época dos atendentes. Além da vista da cidade, claro.

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Detalhes da arquitetura do Palácio e o grande “Faro” bem no alto

Também visitamos uma sala, decorada no estilo dos anos 20, reproduzindo o que seriam as “oficinas” daquela época. Rendeu fotos divertidas.

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Encerrado o tour no Barolo, chuvisco persistente, seguimos para o Congreso de La Nación Argentina, onde fizemos um tour guiado gratuito em suas dependências, passando por várias salas do Congresso, como o hall de entrada, a biblioteca e o local onde são realizados velórios de presidentes e ex-presidentes. Muito lindo o interior e o exterior do prédio.

O Palácio do Congresso Argentino ou Congreso de La Nación Argentina abriga o Senado e da Câmara dos Deputados e é considerado o segundo maior edifício parlamentário do mundo.

O primeiro prédio foi inaugurado em 1864, no governo de Bartolomé Mitre, primeiro presidente argentino. A construção foi oficialmente concluída em 1946, quando foi colocado o revestimento de mármore do exterior do Palácio.

A obra de construção do palácio do Congresso Nacional Argentino superou em muito o orçamento inicial, motivo pelo qual passou a ser chamado pela imprensa da época de “Palácio de Ouro”. Apesar das críticas, o governo considerou que era importante investir um pouco mais e ressaltar a beleza do prédio com a construção de uma praça no terreno em frente. Assim nasceu um conjunto de três praças: Praça do Congresso, Praça Lorea e Praça Moreno. Mas as três acabam sendo chamadas mesmo de Praça do Congresso e contam com fontes, jardins e estátuas, entre elas, uma das versões de O Pensador, de Rodin. A Praça do Congresso marca o quilômetro zero da Argentina e serve de parâmetro para calcular as distâncias à partir dele.

O edifício possui diversos recintos e salões, onde se destacam a Câmara de Deputados, a Câmara de Senadores, o Salão Eva Perón (que possui as paredes cor-de-rosa) e a Biblioteca do Congresso.

O Palácio tem visitas guiadas para a Câmara de Deputados e Câmara de Senadores. Além dos plenários, a visita passa por outras salas do Congresso, como o hall de entrada, a biblioteca e o local onde são realizados velórios de presidentes e ex-presidentes.

Almoçamos no restaurante La Gran Taberna, localizado bem em frente ao Congresso. Uma pizza e cervejas resolveram a questão momentânea de nossa fome. De lá retornamos de Uber para o hotel, onde descansamos até o horário do jantar. Como a chuva continuava, resolvemos hibernar.

Próximo às 20 horas seguimos para o Piazzola Tango, local do nosso jantar e do espetáculo de tango que reservei pelo site. Incluso no programa uma divertida aula de tango.

O Piazzola Tango está localizado na tradicional Galeria Güemes, bem no começo da Calle Florida, em um belíssimo e antigo teatro que foi cuidadosamente restaurado e conservado para dar espaço ao incrível espetáculo de tango em homenagem ao grande compositor e ícone argentino, Astor Piazzolla.

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Riqueza no salão do Piazzola Tango

O salão tem uma aparência muito chique, com uma decoração diferenciada e bem caprichada em todos os detalhes. Lembra a época de ouro do tango, a glamorosa década dos anos 40. Foi quando o tango argentino fez sucesso internacional, principalmente na Europa. Possui mesas na parte central e camarotes em ambos os lados. Nos instalaram numa das mesas centrais e a visão do palco era muito boa.

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As aulas de tango (que são opcionais, ) começam antes do jantar, que é servido a partir das 20 h 30 min pelas atenciosas garçonetes. O sistema é o mesmo que na maioria dos outros locais de tango: jantar em três passos e bebidas. Você escolhe e pede tudo junto, mas os pratos chegam um de cada vez. Achamos o padrão da gastronomia do Piazzolla Tango muito bom. Nós, óbvio, escolhemos vinho Malbec para bebermos durante o jantar, incluso no pacote da noite.

Com o vinho liberado, quando chegou a hora da aula de tango a gente já estava animado. Junto com os demais participantes da aula, seguimos as orientações do casal de dançarinos, nossos instrutores naquele momento. Primeiro sozinhos, mas depois como um par. Seguimos o desenho de passos indicados e dançamos bonitinho. Durinhos, né, tipo bonequinhos. Risos.

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Tem que ter a tradicional pose de tango com os dançarinos, né.

Voltamos para o hotel perto da meia-noite. Estávamos no quarto quando o Lu deu a falta do celular dele. Concluímos que ele esqueceu no Uber que nos trouxe até ali. À partir de então houve uma sequência de mensagens via aplicativo, que culminou praticamente com um “resgate” do aparelho, uma semana depois, quando regressamos de Mendoza. Me pareceu que o Lu não achou tão ruim ficar off line durante uma semana, só curtindo as belezas e os vinhos de Mendoza.

Acordamos dispostos a curtir mais um pouco da cidade até o horário de nosso vôo para Mendoza, no final da tarde, no Aeroparque. Embora o tempo continuasse instável, depois de tomar o café da manhã e de guardar nossas coisas no depósito do hotel, fomos bater perna.

Seguimos de Uber até o Caminito, no Bairro La Boca. Eu e o Lu já conhecíamos as coloridas casinhas do Caminito e arredores, que é um lugar bem típico, uma marca de Buenos Aires (pelo menos para os turistas). Então… fomos. Nossa primeira parada foi no tradicional café La Perla, localizado na estratégica esquina que leva ao Caminito, na Vuelta de Rocha. O bar funciona há mais de 80 ano e tem um estilo bem peculiar. No interior, a madeira se faz presente no teto, no balcão-geladeira e nas mesas e cadeiras. As paredes de tijolinho à vista estão cobertas de fotos de muita gente, um exemplo é a do Bill Clinton visitando o bar em 1997.  O café foi centro de reunião de socialistas e rebeldes e hoje é um dos cafés mais simpáticos de Buenos Aires.

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Interior do tradicional Café La Perla

Como acontece com os lugares muito turísticos, o cenário do Caminito é bastante fake, artificial mesmo. Muitas pessoas te chamam para entrar nos restaurantes e oferecem passeios de forma insistente, chegando a tocar no ombro ou andar atrás de você por um tempo até passar do chato para o irritante. As lojinhas de souvenir são ótimas para comprar imãs de geladeira, alfajores, camisetas, e por aí vai. Alheio a isso tudo, é difícil ir a Buenos Aires e não dar uma passada por lá. A quantidade de turistas de todas as partes do mundo, que circulam pelas ruas, comprovam essa tese.

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Cenário clássico do Caminito
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Muitos casais dançando tango em frente aos restaurantes, para entusiasmar a clientela

Depois de comer um lanche no Caminito seguimos em direção ao estádio de La Bombonera. No caminho até lá, muuitaas lojas vestidas de azul e amarelo, as cores do Boca. Cogitamos fazer o tour guiado dentro do estádio, mas como eu ainda queria ir a outro local, pressionados pelo horário do voo, desistimos.

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Estádio La Bombonera
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Tudo azul e amarelo no entorno do Estádio

Do Caminito seguimos para o Bairro San Telmo, pois eu “precisava” fazer uma foto junto à estátua da Mafalda, a garotinha criada pelo cartunista Quino em 1962. Enfim, fiz o desejado check in junto à famosa escultura, localizada no cruzamento das ruas Chile com Defensa. Também localizamos no prédio mais adiante, no número 371 da rua Chile, uma placa que indica o edifício onde Quino morou por muitos anos. Com um desenho da garotinha mais contestadora da Argentina, a placa traz a frase “Aqui viveu Mafalda”.  Mais fotinhos.

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Eu e Mafalda

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Decidimos dar uma pernada pelo Bairro de San Telmo, e fomos caminhando até o hotel Cruce. Foi uma boa caminhada, bacana para absorver a atmosfera do bairro. Passamos por restaurantes e locais que ficaram marcados tipo “no retorno à Buenos Aires venho aqui”. Sim, porque desta vez, a hora da partida se aproximava. Pegamos nossas malas e rumamos para o Aeroparque. Nosso voo partiu no horário, foi tranquilo, e no início da noite pousávamos em Mendoza. À partir daqui já é outra história.

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Agitos nas ruas do Bairro San Telmo

Encerro este post com uma citação de Santo Agostinho, da qual gosto muito. Avancemos!

“Não vês que somos viajantes?
E tu me perguntas:
Que é viajar?
Eu respondo com uma palavra: é avançar!
Experimentais isto em ti
Que nunca te satisfaças com aquilo que és
Para que sejas um dia aquilo que ainda não és.
Avança sempre! Não fiques parado no caminho.”

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