Américas

De volta à terra do Malbec – Mendoza – Argentina

Iniciei o relato de mais essa trip à Argentina contando sobre como foi o nosso “stopover”- meu e do Lu – na Capital dos hermanos, link aqui Buenos Aires – Argentina. Stopover é uma expressão do mundo da aviação, quando se faz uma parada no meio da viagem, para que o passageiro possa passar um tempo em uma cidade de conexão. É uma conexão voluntária. Como relatei no post mencionado acima, nós chegamos em Buenos Aires por transporte rodoviário (nosso busão de primeira classe, risos), e seguimos para Mendoza de avião. Aqui somente tomei emprestado o sentido de “conexão voluntária” da palavra.

Enfim, após um vôo tranquilo, chegamos em Mendoza no início da noite de um sábado. Permanecemos por lá durante uma semana, retornando à Buenos Aires na manhã do sábado seguinte, bem cedo. Foi nesse intervalo de dias que passeamos pela cidade, e especialmente curtimos o mundo dos vinhos, que adoro. Visitamos as bodegas, os parreirais, bebemos muito vinho, comemos refeições deliciosas, sempre com o visual da Cordilheira dos Andes ao alcance dos olhos.

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Na nossa bodega preferida nesta estada em Mendoza: La Azul . Top 10 nos quesitos vinhos, comida, atendimento, visual e acolhimento.

Eu já conhecia a região de Mendoza, mas para o Lu esta foi a primeira vez. Então eu repeti alguns passeios na cidade para que ele pudesse conhecer também, o que não foi nenhum esforço para mim.

Desde o planejamento inicial o foco desta viagem sempre foi Mendoza, mas como chegaríamos por Buenos Aires, a hospedagem agendada se referia a uma semana, e o Lu tinha alguns dias a mais do que isso de férias, por óbvio aproveitamos para curtir também a linda capital portenha. E curtimos muito. Mesmo com tempo instável, fizemos lindos passeios e ótimos programas culturais. Nessa visita à BA conheci lugares novos e revisitei outros. Super valeu.

Sempre gostei de vinhos. E minha paixão por esse “Mundo dos Vinhos” só aumentou depois de minha primeira visita à Mendoza, que fiz no ano de 2014 com amigas, viagem narrada aqui Mendoza – Argentina “Pelos caminhos do vinho”. Foi nessa ocasião que meu paladar definiu que meu tinto preferido é o Malbec e que o branco é o Torrontés. Mas assim… não desprezo outras castas, não. Na verdade, gosto de experimentar variedades que ainda não conheço.

Mas não tem como escapar do chavão:  Malbec é sinônimo de vinho argentino. E com justiça.  O país é o maior produtor mundial da uva. Só para contextualizar, do total de hectares plantados um terço é de malbec. E a província é responsável por produzir 70 % de toda a bebida que é feita na Argentina.

Então, Mendoza sempre foi uma referência pra mim quando penso em vinhos. Mesmo depois da minha visita à Serra Gaúcha, ocasião em que eu e o Lu visitamos o Vale dos Vinhedos a bordo de Frida, link aqui Vale dos Vinhedos – Bento Gonçalves/RS – Brasil, quando também bebemos ótimos vinhos, Mendoza é o primeiro lugar que me vem à mente se tratando de vinhos de qualidade e lindas paisagens e bodegas.

Dizem que Mendoza tem mais de 1.200 bodegas e eu acredito nisso, pela quantidade delas que vi pelo entorno da cidade. Por isso, afirmo: organizar um roteiro de visitação independente dá trabalho. Primeiro é preciso compreender a dinâmica desse tipo de turismo e se adequar a ele. Ou você contrata uma agência (e paga bem mais caro por isso, claro) que vai montar seus roteiros diários pelas bodegas e vai providenciar transporte entre uma a outra, ou do contrário, é você tem que pensar em todos os detalhes previamente. Viajantes independentes que somos, eu e o Lu optamos pela segunda opção. E deu tudo muito certo!

Previamente se entenda, dois ou três meses antes da viagem propriamente dita, se falando das reservas nas bodegas mais famosas e conceituadas. Mas assim… não tem produção de vinho ruim em Mendoza. O que diferencia uma bodega da outra, além do renome, é a arquitetura diferenciada dos prédios, o paisagismo, o capricho na decoração e no atendimento.

Mesmo iniciando os contatos por email com algumas bodegas de renome meses antes, não consegui disponibilidade para os horários de visitação desejados. Mas não fiquei desapontada. Visitamos excelentes bodegas e tomamos vinhos maravilhosos.

Mais um detalhe sobre as visitações: não se recomenda visitar mais do que três bodegas por dia, sendo que na última recomenda-se fortemente incluir um almoço tardio. O motivo é óbvio: depois de 2 ou 3 visitas você já está “pelas tampas” de tanto vinho, possivelmente embriagado (em diferentes níveis, deve-se ressaltar), e sem condições de distinguir mais se você está degustando um Malbec, ou Cabernet Saviganon ou Tannat. Risos.

Como são três as regiões produtores de vinho em Mendoza, eu tive que combinar as visitas dessa forma: um dia de tour pelas bodegas localizadas em cada uma das regiões, ou seja, Maipu, Luján de Cuyo e Vale do Uco. Ainda deixei um dia extra para repetir a região de Maipu, que é onde estávamos hospedados e onde fizemos o tour de bike pelas bodegas, o que foi muito legal.

Com o intuito de organizar o relato dessa “Jornada Etílica” e não torná-lo muito longo, resolvi neste primeiro post descrever os passeios que fizemos na cidade de Mendoza e o Tour de Alta Montanha, deixando para relatar sobre nossas visitas às regiões produtoras em posts separados, um para cada uma delas.

Como mencionei anteriormente, chegamos em Mendoza no início da noite de sábado, e nos limitamos a nos instalar em nosso chalé no Clube de Campo de Maipu. Fizemos esse deslocamento com transporte coletivo público e já em Maipu pegamos um remis. Os remis são automóveis com um motorista que funciona de forma muito similar aos táxis, só que os remis não têm nenhuma cor ou característica distintiva, não tem taxímetro e o preço é determinado previamente em função do trajeto. Os remis também não podem parar na rua para pegar passageiros, devendo ser reservados por telefone.

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Nossa casita em Maipu durante uma semana, em meio aos plátanos

Passamos no único mercadinho que ainda estava aberto, em frente à Praça Central de Maipu,  a fim de comprar alguns itens e garantir nosso jantar e o café da manhã. Também adquirimos um cartão Red Bus, que é um cartão utilizado para pagar o transporte público da cidade. Você compra o cartão, coloca o valor de crédito correspondente ao número de passagens que deseja, pode recarregar quando desejar, e usa nos ônibus e no metrobus. Muito fácil e prático. Usamos muito. E detalhe: ele pode ser compartilhado, então um cartão foi suficiente pra nós dois.

O que achei muuiitoo legal é que tanto no primeiro uso do ônibus, na nossa chegada na cidade, quando ainda não havíamos adquirido o Red Bus, quanto depois, quando em alguns trajetos não tínhamos saldo suficiente no cartão para pagar nossas passagens, os motoristas liberavam bem de boas. Viajamos muitas vezes de graça. Achei uma postura muito amistosa com os turistas.

Quanto às linhas de ônibus, o Lu se achou no Google Maps refente aos itinerários que precisávamos fazer, informando local de saída e o destino, e o aplicativo mostrava o número das linhas que poderíamos tomar (os ônibus eram identificados por essa numeração) bem como a localização das paradas de ônibus por onde estes passavam. Muito prático. Confesso que nessa parte de deslocamentos deixei tudo a cargo do Lu e deu tudo super certo.

E essa questão dos deslocamentos se torna muito importante numa viagem como essa, pois como tínhamos horários fixos agendados nas bodegas, tínhamos que planejar o tempo que precisávamos para ir de uma a outra, combinado com os horários em que os ônibus passavam onde estávamos, bem como se nos deixariam próximos aonde precisávamos (na próxima bodega agendada). Um excelente exercício mental e de logística. Fomos aprovados com louvor nesse quesito, alheio a todo o vinho que ingerimos.

Com o intuito de nos situarmos melhor na cidade reservamos o domingo para fazer um City Tour. Fomos de ônibus até o centro e lá, próximo à Peatonal, adquirimos nossos vouchers. Pagamos 450 pesos argentinos cada um. Como já estava próximo do horário do almoço decidimos almoçar num restaurante por ali antes de iniciar o passeio.

O serviço do Mendoza City Tour é do tipo Hop on/Hop off, ou seja, você pode descer em cada uma das 20 paradas previstas e subir no próximo ônibus que passar (intervalo de uma hora entre cada um dos três ônibus que circulam).

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Cerro de la Gloria – Monumento em homenagem à vitória do exército do general José de San Martín sobre as tropas espanholas

Confesso que eu e o Lu não curtimos muito esse passeio. Achamos que aproveitaríamos melhor o dia se contratássemos um remis para nos levar passear pela cidade, nos pontos mais interessantes. Não nos empolgamos em descer em muitas das paradas e nos limitamos a caminhar pela Plaza Independência, que é a principal da cidade e no Cerro da Glória. No restante, apenas avistamos do interior do ônibus, como o belo Parque General San Martín.

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Parque General San Martín

Também achamos o serviço desorganizado: o aúdio não funcionava, não transmitia as explicações sobre os pontos turísticos e um dos ônibus era de modelo tradicional, diferente do que foi apresentado na propaganda. Por fim, não havia grande apelo turístico nas paradas propostas. Não recomendamos.

Aproveitamos a proximidade com um grande supermercado para comprar gêneros alimentícios e vinhos, e retornamos de ônibus para nossa casinha em Maipu. O ônibus nos deixou na parada em frente ao Clube de Campo.

Dias depois, num intervalo entre os tours de vinho, fizemos o passeio chamado Tour de Alta Montanha, que eu já havia realizado anteriormente. Contratamos através de nossa simpática anfitriã, pelo valor de 1.200 pesos argentinos cada um. Foi um lindo passeio, que iniciou por volta das 9 horas da manhã e se estendeu até às 19 horas. Ao todo foram percorridos cerca de 400 km contando ida e volta.

O micro ônibus nos buscou no Clube de Campo e seguimos com o grupo em direção às montanhas.  O tour da Alta Montanha acompanha a Ruta Nacional 7, também chamada de Carretera Libertador General San Martin, importante estrada que liga Mendoza a Santiago.

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Em termos geográficos, o grande destaque e o ponto mais alto desse tour é o Monte Aconcágua, segundo maior pico depois do Monte Everest. O Monte Aconcágua faz parte da Cordilheira dos Andes, o conjunto de montanhas com mais de 7 mil km de extensão, que margeia praticamente todos os países da costa ocidental da América do Sul, como Chile, Argentina, Bolívia, Peru e Colômbia.

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Monte Aconcágua com a neve eterna em seu pico

A primeira atração do tour fica a apenas 60 km de distância do centro de Mendoza, a Represa Potrerillos. A represa, construída em 1999, é responsável por abastecer a cidade durante a época da seca – inclusive irrigando as vinícolas – e também pela geração de energia elétrica. Fizemos uma parada rápida na encosta para observar a paisagem e o lago Mendoza.

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Represa de Potrerillos

A segunda parada foi no pequeno vilarejo de Uspallata, que serve como parada para tomar um café e fazer um lanche durante o tour.

Seguindo em direção à fronteira com o Chile, e da estrada observamos a Estação de Esqui Los Penitentes, que se encontrava fechada na ocasião. Mais adiante fizemos uma rápida parada ao lado da estrada para fazer fotos na entrada do Parque Provincial do Aconcágua.

Na sequência passamos pelo vilarejo de Las Cuevas, onde mais tarde almoçaríamos. Las Cuevas é o último vilarejo localizado no território argentino antes da estrada chegar ao Chile. É aqui que fica localizada a estátua do Cristo Redentor de Los Andes. Situado a 4.200m de altitude acima do nível do mar, o Cristo fica bem na divisa entre a Argentina e o Chile, simbolizando a união entre os dois países.

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Estrada de terra que serpenteia a montanha para acessar o Cristo Redentor

Para chegar até o Cristo é preciso subir a encosta de uma montanha, um caminho um pouco difícil e que só pode ser feito de carro. O acesso só fica liberado em uma curta temporada durante o verão. Da outra vez que fiz esse passeio não foi possível acessá-lo por causa da neve. Como desta vez fomos no início de maio e ainda não havia nevado, pudemos subir, apreciando uma vista sensacional das montanhas com seus picos nevados, a estrada e o vilarejo lá embaixo. Suportamos o vento gelado para circular por ali e fazer fotos.

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Depois de um curto tempo lá no alto da montanha retornamos para Las Cuevas, onde almoçamos num restaurante. O mesmo em que eu havia estado durante a minha viagem anterior à Mendoza. Só que na ocasião havia grande acúmulo de neve na montanha, diferente do que encontrei desta vez.

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Depois do almoço iniciamos o trajeto de volta. Fizemos uma última parada para visitar a Puente del Inca, a curiosa ponte de cor amarelo que fica bem em cima do Rio Las Cuevas e é na verdade uma formação geológica natural, causada pela erosão e pelo processo de sedimentação que ocorreu há milhões de anos. Já a cor amarelada das rochas se dá devido à presença de enxofre e outros minerais em sua composição.

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Puente del Inca

Na década de 1920 foi construído ao redor do rio um hotel de águas termais chamado Puente del Inca. Até hoje suas ruínas podem ser vistas por lá. Em 1965 houve uma avalanche na região e a estrutura do hotel não resistiu. Hoje, a única outra construção ao redor da ponte é uma pequena capela, que milagrosamente resistiu à avalanche. Em torno desse atrativo funciona uma simpática feirinha de artesanatos. Ali compramos poucos souvenirs, lembranças da viagem.

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Mais adiante fizemos um pit stop para uso de banheiros em Uspallata e seguimos de volta até a cidade de Mendoza, onde chegamos no início da noite. Ao invés de ir direto para Maipu, aproveitamos para descer do transporte próximo à Avenida Aristides Villanueva.

A Avenida é conhecido como sendo uma referência para se encontrar bares e restaurantes dos mais diversos estilos, dos mais clássicos até pubs irlandeses (estive neste na vez passada, na companhia das amigas). O público é bem variado: turistas, jovens, casais e famílias. O movimento, mesmo nos restaurantes, começa tarde. Eu e o Lu, cansados como estávamos, nos limitamos a lanchar empanadas e papas fritas na companhia de um amigo brasileiro, mineiro, que conhecemos durante o tour. Demos um tempo para o vinho e pedimos cervejas.

Passava das 22 horas quando decidimos retornar para Maipu. Tentamos ir de metrobus, mas naquele horário não circulava mais. Então andamos umas 10 quadras até encontrarmos a parada de ônibus onde passava o dito cujo que nos deixava na frente de “casa”. Assim foi. Chegamos cansados dos agitos do dia, só pelo banho e cama.

Como mencionei, os outros 4 dias em Mendoza foram dedicados às rotas vitivinícolas nas regiões produtoras, dias em que nosso vocabulário esteve muito mais relacionado a palavras como “vinhos, vinhedos, caves, cepas, terroir, vindima, safra, varietais, bodegas, blend, bouquet…” Os fãs do Elixir de Baco não tiveram do que reclamar. Conto tudo nos próximos posts. Tim tim!

“Você não pediu para nascer e, salvo raríssimas exceções, morrerá contra a sua vontade. Então, trate de aproveitar o intervalo entre esses dois momentos da melhor maneira possível: beba bons vinhos e coma bons pratos compartilhando-os com bons amigos.”  João Fillipe Clemente

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