Américas

Região vitivinícola: Maipú Part. I – Mendoza – Argentina

Como mencionei no post anterior sobre Mendoza, leia aqui De volta à terra do Malbec – Mendoza – Argentina, achei mais didático e funcional dividir os relatos sobre minha última viagem à Capital do Malbec em posts,  de acordo com a região produtora visitada.

Na Província de Mendoza são três as regiões mais conhecidas: Maipú, Luján de Cuyo e Valle de Uco. Mas também há várias bodegas nas regiões de Agrelo, Tunuyan, San Carlos, San Rafael e Godoy Cruz. Ainda se produz cerca de 20% dos vinhos argentinos na província de San Juan, vizinha de Mendoza. A fim de elencar motivos para retornar à Mendoza (até parece que já não os tenho…risos) nos limitamos nesta viagem a visitar as bodegas nas três regiões vitivinícolas principais (lembrando que são de mais de 1.200 bodegas em Mendoza) e deixar as demais, bem como a província de San Juan, para uma próxima Jornada Etílica à Argentina. Meu desejo é que seja a bordo de Frida Home, minha Casinha Sobre Rodas.

Maipú foi o local que escolhemos para nos hospedar durante nossa estada em Mendoza, numa casinha no Clube de Campo, em meio aos plátanos e álamos, que estavam pintados com as cores do outono. Compunham um adorável tapete de folhas nas ruas internas, e nuances de laranja, amarelo e tons terrosos nas copas das árvores.

Maipú está localizada a apenas 20 km do centro de Mendoza e concentra algumas das bodegas  mais antigas e tradicionais da região. E são muitas bodegas!

Dedicamos dois dias para conhecer essa região e foi bem difícil escolher quais vinícolas visitar, pois dava vontade de ir em todas! Risos. Mas na real, como mencionei no post anterior, é importante delimitar a quantidade de vinícolas que você vai conhecer em um dia. Particularmente, eu acho que 3 é o número máximo, para conseguir aproveitar com calma cada um delas. Mais do que isso fica bem corrido e o bacana da viagem para Mendoza, na minha opinião, é poder curtir com calma as vinícolas. O ideal é programar a visita à última bodega do dia com o almoço incluso. Fiz assim no meu roteiro e funcionou super bem. Vamos a ele então!

Um parêntese: Como já escrevei no outro post, é super recomendado agendamento prévio das visitações, com um bom prazo (2 ou 3 meses), sob o sério risco de cair de paraquedas na bodega e dar com a cara na porta. É força de expressão, mas é também a mais pura realidade. Para não ficar frustrado com negativas de disponibilidade, principalmente nas bodegas mais renomadas, agende previamente.

Foram 2 dias dedicados à Maipú. No primeiro deles fizemos os deslocamentos utilizando o transporte público, sem problemas e atrasos, graças ao meu super ” homem do Google Maps”, o amore Lu, que sabia tudo sobre as rotas dos busões de Mendoza. No segundo fizemos um tour de bike (já disse que adoro circular pelos lugares pedalando, né), mas sobre esse farei um post à parte.

Outro parêntese: quando viajo sozinha ou estou à frente da organização de viagens que faço com amigas ou com a família, fico super atenta a todos os detalhes. Até fico meio estressadinha. Mas quando viajo com o Lu me permito relaxar e deixo que ele tome conta de boa parte da logística da viagem, principalmente com questões relativas a deslocamentos, transportes, localização, pesquisas na internet. O guri é bom nisso!

Retornando ao primeiro dia de nosso roteiro etílico em Maipú… Nossa primeira parada foi na Carinae Vinedos y Bodegas. Eu já conhecia essa bodega, a visitei durante minha estada anterior em Mendoza, link aqui Mendoza – Argentina “Pelos caminhos do vinho”, mas quis retornar com o Lu.

Lá encontramos um grupo de brasileiros, que também fariam a degustação, e a conversa em torno da mesa foi em bom português. Optamos por fazer a degustação de 5 rótulos, pelo qual pagamos 300 pesos argentinos cada um. Confesso que me decepcionei um pouco com a Carinae. Não com os vinhos, os quais considero muito bons, mas com o atendimento. Achei que a atendente estava com pressa, preocupada com o horário do próximo grupo agendado, e quase nos enxotou da sala. Também achei a degustação extremamente econômica, ou seja, o vinho servido mal cobria o fundo da taça. Tudo bem que se está falando de uma degustação, não era para encher a cara, mas sei lá, achei meio avarento…

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Degustação na Carinae

O que salvou a visita foi a presença do simpático casal de proprietários, os franceses Philipe e Brigite Subrá, que adquiriram as instalações no final dos anos 90, revigoraram o local e iniciaram a produção efetiva de vinhos em 2003. A propriedade é uma vinícola familiar e pequena, cuja produção não alcança 100 mil litros por ano.

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Com a proprietária da bodega, Brigite Subrá

Durante a degustação nos foi explicado que o nome da Bodega – Carinae – foi escolhido em homenagem a uma constelação que aparece em noites de verão e durante todo o período de colheita. No local, os 11 hectares de vinhedo de uvas Syrah, Malbec e Cabernet Savignon também recebem, cada qual, o nome de uma constelação especial.

Na Carinae não fizemos o tour pelas instalações, até porque eu já conhecia e o Lu não se interessou em fazê-lo.

Finda a visita à Carinae, atravessamos a rua para conhecer a Olivícola Laur. Mendoza, além de excelentes vinhos, produz azeites de alta qualidade. Na Olivícola Laur tivemos a oportunidade de ver de perto oliveiras centenárias (a propriedade existe desde 1906), a antiga fábrica e todo o processo de extração do azeite (do mais rústico ao mais moderno), desde a colheita da azeitona (que acontece entre abril e junho) até o engarrafamento. Antes de iniciar o tour na olivícola aderimos à degustação de diferentes produtos, de azeitonas a azeites e balsâmicos (150 pesos argentinos a degustação). Veio em hora super apropriada, pois eu já tinha fome às 11 horas da manhã. Foi bacana porque foge ao tradicional tour dos vinhos e é uma experiência única para os amantes da boa comida. Nos incluímos nessa turma! Risos. Saí de lá saciada e com vidros de azeitona e aceto balsâmico cremoso tipo italiano numa sacolinha.

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A degustação na Olivícola Laur

Pegamos mais um busão e pronto, descemos em frente à Bodega Aleanna – Projeto El Enemigo, de Alejandro Vigil. Verdade seja dita: em Mendoza, a bodega que eu mais queria conhecer era a Casa El Enemigo de Alejandro Vigil.

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Os jardins da El Enemigo

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E quem é Alejandro Vigil? Alejandro é o enólogo principal da vinícola Catena Zapata e apontado como um dos profissionais mais talentosos da vitivinicultura argentina, uma espécie de enólogo popstar. O projeto El Enemigo (Bodega Aleanna) é uma parceria de Alejandro com a filha mais nova de Nicolas Catena, Adrianna Catena. Atualmente  El Enemigo produz 100 mil garrafas, com destaque para a produção de Cabernet Franc, Bonnarda e Chardoannay.

Eu tinha muita expectativa acerca dos vinhos e do almoço nesta bodega, em virtude do seu renome e prestígio. E realmente, ela não me decepcionou. Foi uma das melhores experiências enogastronômicas que tivemos em Mendoza. “Chica de mucha suerte”, até fotinho com Alejandro eu fiz, quando ele veio nos cumprimentar na mesa, muito simpático e comunicativo.

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Com o enólogo da El Enemigo, Alejandro Vigil

O tour inicia na parte externa da bodega, com o guia explicando sobre os vinhos, sobre a casa e sobre a carreira e o trabalho do próprio Alejandro. Desde a entrada de acesso à bodega se percebe o capricho e a paixão de Alejandro pelo que faz. Jardins bem cuidados, paisagismo caprichado, obras de arte espalhadas pelo espaço, tudo pensado para agradar aos olhos dos visitantes, situá-los no mundo dos vinhos e inseri-los em outra paixão de Alejandro, a obra A Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Na continuidade do tour, fomos convidados a conhecer o Inferno. Sim, amigos. Repleto de barricas de carvalho, o Inferno da Casa El Enemigo tem aroma de pedras, madeira e exala arte. Inebriada pela atmosfera, sou guiada até o Purgatório. É no Purgatório que estão guardados os vinhos mais nobres da casa. Um corredor de pedras e mais barricas de carvalho, servem de caminho até uma espécie de jardim de inverno, onde uma videira anciã recepciona os visitantes.

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No “Inferno” de Dante, numa leitura de Alejandro

Depois do Purgatório, chegamos próximo ao restaurante. O que pode ser ali? O Paraíso, óbvio! Já que passamos pelo Inferno e pelo Purgatório, decidimos nos jogar no Paraíso!!!

Menu de quatro passos, coisa dos deuses, pois estávamos no céu! Da salada à costela que se desmanchava, tudo foi digno de aplausos. Pratos com uma apresentação exemplar e bem servidos, um verdadeiro banquete de sabor. As ervas aromáticas, os produtos regionais e carnes argentinas são parte da essência da cozinha da El Enemigo. Foi um banquete harmonizado inesquecível, pelo qual pagamos 1.200 pesos argentinos por pessoa. É um valor bem razoável se comparado a restaurantes brasileiros nem tão estrelados como é o El Enemigo.

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Escolhemos fazer a degustação chamada Autentica Expresíon Varietal, com degustação de 3 rótulos (detalhe hiper super importante: eles repõem o vinho nas taças!) e por ela pagamos 535 pesos argentinos. Eu e o Lu optamos por rótulos diferentes e compartilhamos entre nós as degustações, somando então 6 rótulos na nossa mesa, o que foi uma ótima ideia. Em suma: os vinhos da El Enemigo dispensam apresentações, são todos maravilhosos !!

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Uma loucura essa costela

Confesso que eu e o Lu, empolgados que estávamos, deletamos completamente os critérios de harmonização nesse almoço. Tomávamos branco, pulávamos para o Bonarda, voltava para o Cabernet Franc, tomava mais Malbec, comia pão, comia prato principal, voltava para a entrada… Risos.

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As sobremesas divinas

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Vai por mim, esse lugar, esse vinho e esse almoço harmonizado são imperdíveis em Mendoza! Não esqueça: requer agendamento prévio de, no mínimo, dois meses antes.

Contrariados, deixamos a El Enemigo já na metade da tarde, pegamos nosso busão e retornamos felizes da vida para nossa casinha. O dia estava ganho com essa visita à El Enemigo. Fizemos nosso start pelas bodegas de Mendoza em grande estilo. Obrigada Deus, obrigada Alejandro, obrigada Dante, foi uma experiência inesquecível. Mas teve muuiito mais nos dias que se seguiram. Afinal, estávamos em Mendoza, não é…

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