Américas

Região vitivinícola: Valle de Uco – Mendoza – Argentina

Dando seguimento ao relato de nossa Jornada Etílica em Mendoza, depois do start em grande estilo na região de Maipú, para ler link aqui Região vitivinícola: Maipú Part. I – Mendoza – Argentina, foi a vez de conhecermos as bodegas localizadas no Valle de Uco, região localizada a cerca de 100 quilômetros do centro da cidade. A beleza da paisagem, com a Cordilheira dos Andes sempre no horizonte, imponente pano de fundo para os parreirais a perder de vista, e a riqueza fértil do solo, localizado até 1.500 metros acima do nível do mar, chamam a atenção nesta região produtora, e isso influencia na qualidade das uvas, gerando vinhos de excelente qualidade.

Para ler sobre os outros passeios que fizemos em Mendoza link aqui De volta à terra do Malbec – Mendoza – Argentina.

Considerando a distância das bodegas do Valle de Uco desde Maipú, onde estávamos hospedados, decidimos neste dia “alquilar” (alugar) um carro. Foi uma ótima ideia. Com a ajuda de nossa anfitriã Noelia, definimos a empresa e reservamos o veículo. Acordamos cedo em nossa casinha no Clube de Campo, tomamos nosso desayuno e acionamos um remis para nos levar até à Arena Maipú, que é um centro de compras que compreende um cassino, um hotel poderoso, um supermercado, lojas, restaurantes e lanchonetes. No hall do hotel funciona a empresa locadora de veículos. Chegamos cedo por lá a fim de aproveitar bem o dia. Tudo certinho, tanque cheio, GPS do Google Maps ligado, partimos.

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O dia começou nublado, mas mesmo assim as rutas estavam lindas, ladeadas pelos álamos e plátanos

O dia começou com friozinho e céu nublado, mas ao longo da manhã o céu foi limpando, o sol mostrou a cara, e foi tudo lindo demais. As fotos comprovam.

Inicialmente pegamos a Ruta Nacional 40, uma rodovia que atravessa a Argentina de Norte a Sul. Depois acessamos a Ruta Provincial 96, uma estrada que vai em direção às montanhas e que tem um belo visual. A estrada 96 termina na Ruta Provincial 89, ao longo da qual se encontram a maioria das vinícolas do Valle de Uco.

A primeira bodega para a qual tínhamos reserva era a Domaine Bousquet, bodega que produz vinhos orgânicos.

No final de 1990 Jean Bousquet veio à Mendoza de sua cidade sulista francesa, Carcassonne, para procurar terras onde sua família pudesse continuar sua tradição de produção de vinhos. Ao descobrir o clima e as condições únicas do Valle de Uco ele foi convencido a mudar sua bodega para a região argentina. Em 1998 comprou terras em Tupungato, onde atualmente continua a combinar suas tradições europeias com o clima e o terroir peculiares de Mendoza.

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Os vinhedos da Domaine Bousquet

A Domaine Bousquet pratica a vitivinicultura orgânica, sem o uso de aditivos químicos. Bastante atenção é conferida à sustentabilidade do processo de produção. As uvas orgânicas tendem a produzir menor quantidade de cachos de uvas de alta concentração, o que acarreta em uma expressão mais saborosa e natural do terroir. A vinícola produz ambas as linhas Domaine Bousquet e Cameleon, as quais são vendidas em 45 países ao redor do mundo.

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A cave da Domaine Bousquet

No horário marcado, 10 horas da manhã, iniciou a visita às instalações da Domaine, primeiramente na área dos tanques de fermentação e depois descemos para a cave, onde os vinhos são guardados em barricas de carvalho. O ponto alto da visita, óbvio, foi na sala de degustações. Degustamos 4 vinhos, entre brancos e tintos, por 330 pesos argentinos. Vinhos de ótima qualidade.

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Apesar do frio e do tempo nublado circulamos pela área  da bodega, que é bem bonita, especialmente o restaurante Gaia.

Como ainda tínhamos um bom tempo até o horário agendado para nosso almoço com degustação na Bodega La Azul, decidimos visitar a Bodega Salentein, localizada próxima dali. Eu já conhecia a Salentein, fiz visita e degustação por ocasião da minha estada anterior em Mendoza, link aqui Mendoza – Argentina “Pelos caminhos do vinho”, mas nesta oportunidade não consegui conciliar horários. Como já mencionei, montar os roteiros de visitações nas bodegas de Mendoza dá trabalho, é um bom exercício de logística. Ainda bem que o roteiro é feito meses antes das degustações, porque exige neurônios bem afiados. Então fomos apenas dar uma olhada nas instalações, nos vinhedos e na loja. Dei uma espiada no estiloso restaurante Killka, de onde tenho ótimas recordações do almoço com as queridas amigas Adri e Elisa, em 2015.

A Bodega Salentein nasceu pelo sonho de Mindert Pon, um visionário holandês que se encantou pela Argentina, seus vinhos e sua cultura. Mais do que isso, Mr. Pon foi pioneiro em instalar a bodega no Valle de Uco, tido hoje como uma das melhores regiões argentinas para a produção de vinhos de alta qualidade. Seus 800 hectares de vinhedos variam de altitude entre 1.050 e 1.700 metros e se beneficiam da pura água do degelo da neve.

A premiada bodega Salentein oferece vinho, arte e gastronomia num prédio com arquitetura arrojada, um lugar onde o respeito pela terra e costumes está presente desde a construção, feita com materiais naturais, em homenagem às raízes da cultura andina e com estilo de Museu de Arte Moderna, com suas esculturas, pinturas e obras de arte. Para além dos vinhos que produz, que são de alta qualidade, a bodega em si é um espetáculo à parte.

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O acesso à Salentein já impressiona

Quando chegamos na Salentein o céu já estava azul, o sol brilhava, e o contraste com as cores de outono nas folhas dos parreirais fazia a paisagem parecer uma pintura. Admiramos a arquitetura dos prédios, ingressamos na loja, circulamos por ali, até próximo ao nosso horário na La Azul.

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Eu tinha muita expectativa com relação ao almoço com degustação na Bodega La Azul, depois dos comentários e indicações que li na internet. E de fato, não nos decepcionou. Pelo contrário, nos surpreendeu positivamente. Eu e o Lu a elegemos como nossa melhor experiência de bodega nesta estada em Mendoza. Uniu conceitos de caprichada, gostosa e farta refeição, atendimento acolhedor (nos sentimos à vontade no ambiente), que é mais despojado do que a Bodega El Enemigo e a Lagarde, onde almoçamos no dia seguinte. Sinceramente, o contexto era tão favorável que a avaliação dos vinhos ficou em segundo plano. Mas com certeza, os vinhos produzidos pela bodega são do “padrão Mendoza”, ou seja, muito bons. Tudo aliado ao visual escandaloso da Cordilheira ao fundo, os parreirais, o céu azul, o sol, e a muito vinho… risos. Nenhuma vontade de sair dali. Nenhuma.

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Tudo azul na La Azul
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Acho que o Lu gostou da La Azul…
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Até a rolha é azul na Bodega La Azul

Diante de tantas bodegas em Mendoza que impressionam pela estrutura moderna ou pelo tamanho, a La Azul se diferencia e encanta pelo aconchego rústico e personalidade, pelo fato de ser uma pequena vinícola familiar. Afora a localização, a bodega oferece um menu harmonizado de respeito em uma casinha simpática, rústica e com pinceladas em tons de azul e outras cores suaves nos objetos, móveis, nos rótulos e até nas rolhas, além do imenso céu azul que cerca e abraça o local.

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Na chegada fomos recepcionados pela visão das empanadas indo para o forno

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Muita comida deliciosa na sequência dos pratos servidos no restaurante

Depois do almoço maravilhoso, das sobremesas divinas, ainda fomos convidados a conhecer a área de produção de vinhos da bodega. Levamos as taças, bebemos vinhos direto das barricas e nos divertimos enquanto aprendíamos um pouco mais sobre a grande paixão dos mendocinos. Concluo sobre o a La Azul dizendo: altamente recomendada e apaixonante!

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As sobremesas: a minha continha vinho…
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Bebemos vinho direto da barrica

Mas eis que cometi o equívoco sobre o qual já tinha lido e relido sobre as visitações nas bodegas mendocinas: o almoço com degustação deve ser o último programa do dia.

No afã de aproveitar de forma intensa o tour etílico, eu acabei marcando uma visita a mais uma bodega, para a parte da tarde, mais precisamente às 15 hs 30 min. Mas tive uma boa motivação. Explico. Entre as muitas horas de leitura na net sobre as melhores e mais bonitas bodegas de Mendoza, se destacava a Andeluna Cellars, no Valle de Uco. Eu estava decidida a visitá-la. Aconteceu que os horários de visitação não conciliavam pela parte da manhã. Ou eu a visitava na parte da tarde ou não a visitava.

Foi assim que, a contragosto, eu e o Lu saímos da La Azul. As duas bodegas se localizam próximas uma da outra.

Realmente a bodega Andeluna Cellars é muito bonita. O contraste do prédio de tijolos aparentes, o paisagismo bem cuidado, os parreirais, os álamos e plátanos, com as cores outonais, tudo forma um conjunto harmônico e agradável.

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Num desses sofás o Lu fez seu cochilo

Quando chegamos o tour de visitação estava iniciando. Me aproximei da responsável pelos agendamentos e expliquei nossa real situação: tínhamos o agendamento, viemos até ali, mas estávamos fartos de vinho, e só queríamos apreciar o lugar. Ela foi muito gentil e compreensiva. Permitiu que permanecêssemos à vontade pelos ambientes da bodega, sem qualquer custo. E ainda nos brindou com taças de vinho rosé. Achei de uma delicadeza…

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Eu e o Lu nos jogamos num sofá da área externa da bodega e ficamos bebericando em nossas taças de vinho e apreciando a paisagem. Em minutos o Lu pegou num sono ferrado, efeito do que foi nosso almoço, claro. Eu fiquei circulando pelos jardins e parreirais, fiz fotos, e no final pedi uma café expresso, que me foi dado como cortesia. Definitivamente, Andeluna ganhou meu coração por esses detalhes no atendimento. Sobre o vinho, confesso que não posso opinar, pois já estava “passada”.

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Quando a bodega fechava suas portas a funcionária veio gentilmente nos avisar que os serviços do dia estavam se encerrando. Tudo suavemente. Por tudo isso, pretendo na próxima viagem à Mendoza retornar à Andeluna em “melhores condições” para bem apreciar seus vinhos.

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O visual dos vinhedos da Andeluna Cellars

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Depois de toda essa turnê e de todo o vinho que bebemos, ainda tivemos ânimo para ir mais longe no Valle de Uco. Eu encasquetei que queria revisitar a Bodega Gimenez Riili. Eu já havia estado lá na outra passagem por Mendoza, mas queria comprar o Torrontés produzido pela bodega, um regalo para minha amiga Adri, que foi quem me apresentou a essa variedade de uva branca, e que se tornou a minha preferida entre os brancos. Sei lá como, o Lu topou. Final de tarde, o sol já se escondendo por detrás das montanhas da Cordilheira, as cores do sunset espalhadas pelos parreirais e pelo céu, chegamos na Gimenez Riili.

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O charme do restaurante/pousada da Gimenez Riili

Lá não tomamos mais vinho por que não tinha como, estávamos saturados. Conhecemos o restaurante, que é novo para mim, foi construído após minha primeira visita à bodega, circulamos pela área externa, fizemos umas fotos, compramos duas garrafas de vinho, e já escurecia quando partimos pelas rutas.

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Vinhedos da Gimenez Riili
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Garantindo meu Torrontés e da Adri

O Lu se puxou e retornou para Maipú dirigindo, mas graças a Baco, chegamos bem. Devolvemos o carro na locadora já perto das 21 horas. Ainda pegamos, na corrida, um busão até em casa. Jantamos uma pizza, bebemos mais vinho, e caímos durinhos na cama. Que dia foi esse, senhores?! Bom, isto é “Experiência Mendoza”!

“O vinho é este ponto entre o centro da terra e o centro do universo, e há algo que está acontecendo com ou sem nós. Nós simplesmente somos um participante gentil, ou apenas um observador”, Hardy Wallace, enólogo

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