Américas

Encerrando a Trip Argentina 2019 – Argentina

Viajar é bom, mas voltar pra casa é melhor ainda. O velho ditado aqui, no início de um post do meu blog sobre viagens, pode parecer controverso, mas não é. Entre tantos ensinamentos sobre a arte de bem viver (a gente insiste, quer aprender… risos) que as viagens tem me trazido ao longo dos anos, um deles, bem importante, é que viajar, afinal de contas, também é aprender a amar as coisas que parecem insignificantes no nosso cotidiano.

Nos últimos dias de uma viagem a saudades vai brotando aos poucos. Começo a sentir mais falta da família, especialmente das filhas (até das brigas e dos ranços!), dos amigos, do meu banheiro, da minha cama, da comidinha caseira, enfim, da “buena vida” e do conforto conhecido de casa.

Então, mesmo sendo uma wanderlust de carteirinha, que ama viajar, no finalzinho das viagens meu coração vai tomando a direção de casa. Nesta viagem à Argentina não foi diferente. E pensando aqui… que bom que se tem bons motivos pra voltar pra casa.

Como mencionei no post Buenos Aires – Argentina , a logística desta viagem consistiu inicialmente, numa viagem de carro por cerca de 5 horas, de casa até Uruguaiana, depois um táxi para atravessar a Ponte Internacional entre Uruguaiana/RS e a cidade argentina de Paso de Los Libres. Depois busão, mais ou menos 7 horas de viagem, até Buenos Aires. E para o deslocamento até Mendoza, a capital argentina dos vinhos, viajamos de avião,  1 h e 45 min de voo.

Encerrada nossa estada de uma semana em nossa casinha em Maipu, no Departamento de Mendoza, chegou a hora de fazer o caminho inverso, para casa.

Para ler outras narrativas sobre essa viagem, acesse os links abaixo:

De volta à terra do Malbec – Mendoza – Argentina

Região vitivinícola: Maipú Part. I – Mendoza – Argentina

Região vitivinícola: Valle de Uco – Mendoza – Argentina

Região Vitivinícola: Luján de Cuyo – Mendoza – Argentina

Wine Bike Tour – Maipú Part. II – Mendoza – Argentina

Na noite anterior a nossa saída de Mendoza combinamos com um remis para nos buscar em Maipú e nos levar até um determinado ponto de ônibus, previamente pesquisado por Lu, “O Homem do Google Maps”. Tivemos que acordar cedinho, 5 h 30 min da manhã, para nos aprontar. No horário combinado o motorista estacionou o carro na porta da casinha no Clube de Campo. Carregamos as malas no carro e fizemos um curto trajeto até o ponto de ônibus. O Lu confirmou que por ali passava o coletivo que nos levaria até o aeroporto. Tudo certo. Aguardamos alguns minutos e partimos, ainda na escuridão da noite (nesta parte da Argentina o dia clareia mais tarde). Foi um trajeto longo até o aeroporto, de cerca de uma hora, mas bem tranquilo, poucos passageiros no veículo naquela hora da manhã. Só com essa opção de transporte público economizamos muitos pesos argentinos, que foram beeem gastos com os excelentes vinhos que bebemos em Mendoza.

Depois do busão nos deixar na porta do aeroporto fomos atrás de um gostoso desayuno, onde passamos o tempo até o horário da partida de nosso voo. Tudo certinho também. Chegamos no Aeroparque em Buenos Aires perto das 11 horas da manhã.

Um Uber nos levou até o Terminal de Ônibus do Retiro, de onde partiria à noite o nosso busão com destino à Paso de Los Libres. No Terminal tratamos de guardar nossa bagagem num locker, ficando livres das malas e prontos para dar mais uma circulada pela cidade.

Para este dia não tínhamos nenhuma programação prévia. Já havíamos visto muito da capital argentina. Propus ao Lu que fôssemos de trem até a cidade de Tigre. A cidade fica a cerca de 33 quilômetros da capital e eu pensei em aproveitar o dia para fazer o passeio de barco pelo Delta do Tigre. Eu fiz esse programa durante uma estada passada em Buenos Aires, achei bem bacana, e gostaria de compartilhar a experiência com o Lu. Ele topou, claro. Fomos até a Estação de Trens do Retiro para nos informarmos sobre os horários dos trens e tempo de deslocamento. Infelizmente, lá fomos informados que a linha estava inoperante, em manutenção. A alternativa seria uma demorada e complicada troca de linhas de trens no meio do caminho, que poderia nos atrasar no horário, eis que nosso busão partiria às 22 horas. A contragosto, desistimos.

Então resolvemos caminhar em direção ao centro da cidade, para escolher um restaurante para almoçarmos. Em meio a isso tudo, desde que partimos de Mendoza, fizemos várias tentativas de contato com o motorista do Uber do carro onde o Lu esqueceu o celular uma semana atrás, sem sucesso. Contei essa história no post Buenos Aires – Argentina, confiram lá.

No meio do caminho demos de cara com o Museu de Armas de Buenos Aires. Entramos no saguão, movidos pela curiosidade, solicitando informações. Nos deparamos com uma figura, um militar reformado do Exército Argentino (ele disse ser ex-combatente na Guerra das Malvinas), que trabalha na recepção e controle dos visitantes, e que acabou nos convencendo que a visita valeria a pena. E E ele tinha absoluta razão.

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Mesmo que você não curta armas, como eu, é impossível sentir-se indiferente diante do arsenal do Museu. Muito mais do que uma simples exposição de canhões, espadas, lanças, sabres, pistolas, fuzis e inúmeros outros objetos, o Museu oferece uma verdadeira aula de História para o visitante. Trata-se de um breve passeio através das armas ao longo dos séculos, focando em sua evolução técnica e histórica.

A exposição inicia com uma coleção medieval, que inclui armaduras, couraças, balestras, escudos, espadas e capacetes, entre outros. Segue por várias salas, muito bem organizadas, com exposição de muitas armas de fogo, inclusive metralhadoras, e armas brancas de vários períodos históricos e nacionalidades. Uma das salas mais interessantes, a Sala de Armas do Oriente, exibe armaduras cerimoniais, armas brancas e de fogo e outros objetos do Japão e de países como China, Turquia, Pérsia, entre outros. Também vimos uma curiosa coleção de miniaturas de soldados com diferentes fardas militares argentinas. No final do recorrido acabamos comprando um soldadinho de chumbo como lembrança da visita.

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Depois do Museu passamos pelas Galerias Pacífico, para usufruir da wifi e tentar novamente um contato com o Uber. Estava difícil, pois o rapaz demorava a responder, e quando o fazia, se esquivava de ir ao nosso encontro.

Nesta altura a fome já estava grande. Lembrei de um restaurante onde jantei durante minha estada em Buenos Aires com minha filhota Sara, viagem que contei aqui Chicas em Buenos Aires – Argentina e que gostei muito. Encontramos o endereço do “La Posada de 1820”, numa esquina da San Martín com Tucumán. Comemos muito bem lá: o Lu foi de parrilla argentina e eu pasta. Cerveja pra acompanhar.

Resolvida a questão da fome, seguimos caminhando, meio sem rumo, em direção à Plaza de Mayo. No trajeto chamou nossa atenção um prédio histórico com desenhos pintados na fachada. Espiamos. Fomos convidados a conhecer, gratuitamente, o Museo Mitre.

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Não é muito comum percorrer solos que tenham mais de um século. Mas o Museo Mitre tem mais de dois e pelos muros do que hoje é o museu passaram não só Bartolomé Mitre e a sua família, mas muitas outras figuras chave da história Argentina.

A biografia de Mitre seria muito comprida para relatar agora. Homem de múltiplas inquietudes, e não isento de polêmica, a sua vida esteve sempre atravessada por diversas funções, como Presidente da Argentina, até os seus trabalhos como historiador e jornalista (fundador do jornal La Nación).

De estilo colonial, a casa organiza-se ao redor de três pátios abertos, para os quais se direcionam os diferentes ambientes, que se é possível contemplar, além da biblioteca. Fomos muito bem atendidos e orientados pelos simpáticos funcionários do museu. Uma visitação gratuita e interessante, que surgiu de forma inesperada, como foi o Museu de Armas.

Do Museo Mitre seguimos em direção à Plaza de Mayo, pois eu queria conhecer a Farmácia de La Estrella, que fica pertinho. Eu li na net que trata-se da mais antiga farmácia em funcionamento da cidade, desde 1834, e preserva no mobiliário todos os traços do período colonial, abriga quadros, vidros de remédios ancestrais, móveis de nogal e uma fascinante pintura no teto. Trata-se de um pequeno museu com entrada franca. O lugar faz parte da história nacional e guarda a pompa da época em que Buenos Aires queria ser Paris.

Meus planos de conhecer a Farmácia foram frustrados quando nos aproximamos da Plaza de Mayo. Havia uma grande aglomeração de pessoas no entorno da praça e nas ruas de acesso, muitos gradis, policiais argentinos de prontidão, um clima de confronto. Entendi que se tratava de alguma manifestação contra o governo, alguma reivindicação popular, não tenho certeza. O fato é que quando tentamos avançar em direção à Farmácia, iniciou uma correria generalizada, a polícia começou a fechar os acessos à Praça. Foi só o tempo de eu e o Lu darmos meia volta e sairmos rapidinho do meio da confusão. Ufa… A Farmácia de La Estrella vai ficar para a próxima. Peninha.

Vento gelado de final de tarde soprando, eu e o Lu nos refugiamos na Confeitaria Pani, na esquina do prédio da Galerias Pacífico. Nos entupimos de doçuras e chazinhos e aproveitamos a wifi até o horário de fechamento do estabelecimento. Tudo pra tentar recuperar o aparelho celular do Lu que estava de posse do motorista de Uber, como mencionei antes. Foram três horas de tentativas, sendo que somente tivemos sucesso após o Lu acionar o aplicativo e noticiar o fato, o que culminou na suspensão do cadastro do motorista até que o mesmo nos devolvesse o telefone. Aí o dito cujo se coçou e veio rapidinho até nós. Pronto. Foi duro, mas enfim resolvido, o Lu conseguiu resgatar seu celular, uma semana depois.

Já chegando próximo ao horário de partida do busão, rumamos para o Terminal do Retiro, pegamos nossas malas e aguardamos. Logo nos instalamos nas nossas poltronas no veículo, pegamos a estrada, jantamos o que nos foi servido, e dormimos, cansados que estávamos das andanças do dia.

Nem vi  as horas passarem. Quando espiei pela janela do ônibus percebi que estávamos chegando em Paso de Los Libres. Hora de descer, quando o dia estava recém clareando. Pegamos um remis pra nos levar até Uruguaiana, onde nossos carros estavam guardados. Antes de pegar a estrada fomos a um hotel da cidade para um café da manhã reforçado. Depois eu e o Lu nos despedimos, cada um tomando seu rumo. Pra mim foram cerca de 5 horas de direção até chegar em casa, já na metade da tarde.

Para encerrar o post desta viagem, faço um plágio de mim mesma, com um pouco de atualização. Depois de revisitar pela quarta vez Buenos Aires e pela segunda vez Mendoza, concluo: vale a pena revisitar lugares. Elenco os motivos:

  • As cidades mudam rapidamente, surgem novas atrações, outras fecham. É interessante presenciar a mudança e saber que tudo está em constante evolução, lembrando que é assim que a vida acontece.
  • Quando visitei Buenos Aires pela primeira vez fui num formato de excursão, batendo ponto naqueles pontos turísticos tipo “tem que ir”, acompanhada do pai de minhas filhas e de casais amigos. Na segunda vez fui com amigos, numa vibe de curtição, própria da festa de Reveillon que passei na capital argentina. Na terceira oportunidade, estava acompanhada da filhota Sara, e queria mostrar Buenos Aires pra ela, numa perspectiva mais alternativa ao turismo convencional. Já nesta passada, me senti desobrigada de fazer qualquer check in. Queria algo mais cultural, mais autêntico. O mesmo se deu em relação à Mendoza. Revisitar uma cidade pode te fazer perceber o quanto você mudou as suas preferências, refinou seus gostos e melhorou a sua visão de vida. E quando a companhia muda, a perspectiva e até mesmo opiniões podem mudar.
  • Quando visito um lugar pela primeira vez a ansiedade toma conta, quero aproveitar ao máximo, uma lista sem fim de atrações para visitar e um tempo curto que precisa render, tipo “missão impossível”. Quando retorno, com mais calma, é que percebo que ficou muita coisa para ser vista.

Seja revisitando lugares ou viajando para conhecer novos… “tudo vale a pena”. Agora plagiando Fernando Pessoa (com os devidos créditos), “se a alma não é pequena”.♥

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