Américas · Intercâmbio

Bairro Castro: um marco na história do Movimento LGBT+ – San Francisco – Califórnia/EUA

Firme na disposição de desbravar San Francisco sob o maior número de aspectos possíveis, tirei uma tarde da semana para conhecer um dos maiores e mais famosos bairros gays do planeta. Eu já tinha informações de que Castro é um dos bairro mais descolados e divertidos da cidade. Um bairro repleto de bares badalados, restaurantes gostosos e lojinhas para lá de divertidas que agradam visitantes e locais, gays ou héteros. Claro que eu não deixaria de visitar!

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Lojinhas abarrotadas de itens super divertidos e coloridos

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E assim que terminou minha aula na St. Giles School e meu almoço por lá mesmo, peguei minha magrela e me larguei pela Market Street rumo a Castro. Ladeira acima, alternando entre pedal e empurrar a bike, foram cerca de 20 minutos até eu dar de cara com a enorme Castro Rainbow Flag, a bandeira que identifica o Movimento LGBT+ em qualquer lugar do mundo, enorme, tremulando na esquina da Market com a Castro Street. Dali para a frente, tudo é Rainbow!

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Essa enorme bandeira fica na Praça Harvey Milk (a praça ganhou esse nome, pois nela o ativista costumava dar seus discursos).

Sobre a criação da bandeira e seu significado: Em 25 de junho de 1978 foi apresentada ao público a bandeira LGBTQ+ durante desfile do orgulho gay nos Estados Unidos. O responsável por criá-la foi o artista Gilbert Baker. Ele era militar, mas após ser dispensado com honras do exército, foi morar em São Francisco, na Califórnia, onde começou a se envolver mais com o movimento LGBTQ+, que, no início dos anos 70, estava começando a ser mais discutido.

Sabendo dos seus talentos e envolvimento com a causa, o supervisor da cidade de São Francisco na época, Harvey Milk pediu para que Baker criasse um ícone para a comunidade LGBTQ+, que até então não tinha uma simbologia oficial (vale lembrar que Milk foi o primeiro político assumidamente gay nos Estados Unidos a lutar pelos direitos do grupo – vide o ótimo filme “Milk”). Então o artista começou os trabalhos e se inspirou nos hippies, que enxergam o arco-íris como um símbolo da paz, e na canção Over the Rainbow, que diz que “além do arco-íris existe um lugar muito bom”.

Originalmente Gilbert dispôs oito faixas, com o seguinte significado: rosa para a sexualidade, vermelho para a vida, laranja para a saúde, amarelo para o sol, verde para a natureza, azul para a arte, índigo para a harmonia e violeta para o espírito. Depois surgiram outras versões, incluindo ou retirando faixas de cores. Mas o mais importante é a mensagem de respeito à diversidade. Legal, né.

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Ao atravessar a rua 19th (com muito cuidado para não ser atropelada) olhei para o alto e vi o festival de arco-íris da rua.

Sobre a história do bairro: começou com a corrida do ouro em 1849. Em poucos meses a população de San Francisco sofreu um crescimento estupendo e ganhou uma população de homens solteiros como nunca se viu igual. A Segunda Guerra Mundial e a base da Marinha instalada na cidade, trouxeram mais homens para o Castro, e muitos deles acabaram ficando por lá mesmo depois da guerra.

Nas décadas de 60 e 70 o bairro já era conhecido pelos locais como o bairro gay de San Francisco, mas tudo era muito reprimido e muito disfarçado. Aos poucos surgiram os primeiros ativistas e os primeiros bares gays da região como o Twin Peaks. Em 1978 quando Harvey Milk foi assassinado a história ganhou importância e conquistou apoio de quase todos os habitantes de San Francisco, gays ou héteros. Castro foi então declarado o primeiro bairro gay do mundo.

Depois de chavear minha bike num poste na Praça em homenagem a Harvey Milk fiz meu tour pelo bairro a pé. Primeiro fui conhecer a Pink Triangle Park and Memorial, ainda na Market Street.

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Homenagem aos gays mortos durante o regime nazista na Alemanha

Num pequeno jardim há uma instalação: são triângulos de concreto que homenageiam de forma singela os quase 15.000 gays assassinados durante o regime nazista de Hittler. O triângulo rosa preso nos uniformes diferenciava os gays, e hoje é um dos símbolos do movimento.

Depois atravessei a movimentada avenida para acessar a Castro Street. A primeira parada foi no Twin Peaks. Este foi o primeiro bar do Castro com janelas. Antes do Twin Peaks, todos os bares gays da região era escondidos em cômodos internos ou porões. Com o Twin Peaks ninguém mais precisou se esconder. Muitos dos frequentadores do Twin Peak são mais velhos e frequentam o bar desde a inauguração. Valeu a visita pelo contexto histórico e pelo interior vintage.

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Twin Peaks na esquina, na entrada do bairro

Quando iniciei minha caminhada pela rua já dei de cara com ativismo em tempo real: dois ativistas (quase) pelados caminhando tranquilamente pela calçada. Como a lei de San Francisco proíbe pessoas nuas pela cidade os ativistas costumam cobrir a parte íntima com uma meia ou um lencinho. Eu vi esses ativistas não somente no Castro mas em vários outros lugares. Esse é o clima de respeito e tolerância que domina a cidade.

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Peladões no Castro, sem serem perturbados

Segui meu caminho tentando aparentar naturalidade com a cena, e usei como desculpa para olhar para cima a bela fachada do Teatro Castro, prédio de 1922. A placa de neón foi adicionada em 1930. Fiquei reparando nos detalhes tanto na fachada como na bilheteria enquanto os peladões sumiam na rua.

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Mais adiante, no cruzamento com a 18th St tive mais uma amostra da singularidade e do orgulho latente no bairro, ao atravessar a faixa de segurança mais colorida do mundo! Perto dali encontrei um board de anúncios histórico (ainda usado para promover festas e eventos locais). Na época de Harvey Milk eram ali que eram anunciados os protestos ativistas. O board é bem colorido, e de certa forma, engraçado.

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Faixa de segurança rainbow

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Do outro lado da rua há um pequeno museu que conta a história do Castro e dos grupos que lutaram por igualdade na região. Eu queria visitar mas infelizmente naquele dia estava fechado.

Ainda seguindo na Castro St encontrei o prédio onde funcionava o antigo estúdio fotográfico de Harvey Milk e hoje é a sede de uma das principais ONGS da causa LGBT em San Francisco, a Human Rights Campaign. Eles vendem uma série de camisetas e outros artigos cuja venda é revertida para causas locais. Na frente de estúdio há duas placas em homenagem a Harvey Milk. Obviamente comprei pequenas lembrancinhas.

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Antigo estúdio de Milk, hoje sede da Human Rights Campaign

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Uma cena engraçada que vi logo adiante, na esquina das ruas Castro x 19th : uma coleção de bonecos super criativo e irreverente enfeitavam uma janela. Nela bonecas do tipo Barbi e Ken contam a história gay, e a luta por direitos humanos na cidade. Uma brincadeira criativa de um dos moradores que acabou virando atração turística.

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Bonecos nada inocentes

Outro aspecto que me chamou a atenção caminhando pelo bairro foi a quantidade de casas vitorianas super bonitas e bem cuidadas. Todas com a bandeira rainbow na frente, nos terraços ou nas janelas. Orgulho gay, né!

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Só quando a tarde caía é que iniciei o trajeto de retorno para casa, agora morro abaixo pela Market Street. Ainda fiz um pit stop no supermercado para comprar alguns itens e já noite aterrissei em casa cansada mas feliz pelo passeio. Mais do que isso, tive uma aula de Direitos Humanos em tempo real, a céu aberto. Isso é Castro!

Mais links sobre San Francisco e minha experiência de intercâmbio:

Intercâmbio a uma hora dessas?!

I arrived in San Francisco! Me situando… – Califórnia – Estados Unidos da América

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Aloha, San Francisco! Califórnia/EUA

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