Brasil · Casinha sob rodas

Frida na Rota da Amazônia Atlântica – Pará – Brasil

Com as férias escolares de Julho no horizonte e a decisão das meninas de viajarem para o Sul do País, a fim de visitar os familiares e amigos, nós que ficamos (eu, Lu e o Thiago) aqui pelo Hemisfério Norte 😉 começamos a delinear como essa quinzena seria aproveitada para conhecer mais do Pará e a Região Amazônica. O Lu teria uma semana de recesso no trabalho. Após várias pesquisas na net (adoro!) apresentei duas sugestões/propostas: seguirmos para a região litorânea do Pará, mais especificamente até o município de Bragança e arredores, a bordo de Frida – nossa casinha sobre rodas – ou viajarmos para Manaus e curtirmos a experiência de um lodge de selva e também aproveitar para conhecer o rústico município de Novo Airão.

O Lu fez suas avaliações e concluiu que a sua semana de folga do trabalho seria destinada a conhecer a região de Bragança (Amazônia Atlântica). Euzinha, com folga da função com as meninas por mais uma semana, resolvi que após nosso tour rodoviário eu voaria para Manaus. Não queria perder nadinha da minha folga da rotina de mãe/dona de casa/cozinheira/etc/etc.

O relato da trip ao Estado do Amazonas será feito separadamente pra que este daqui não fique demasiado longo. Aguardem que logo sai!

Foi só o tempo de me despedir das meninas e das minhas visitas (mamis e a amiga Maria Luiza) no aeroporto, que minhas providências já se direcionaram à organização de nossas coisas na Frida. Pegamos a estrada na manhã seguinte.

Foram cerca de 4 horas de viagem por estradas asfaltadas em razoáveis condições, pelas BRs 010, 316 e 308 e por fim, já na metade da tarde do sábado estacionamos na orla fluvial de Bragança, junto ao Rio Caeté.

Banhada pelo rio Caeté, Bragança é uma das cidades mais importantes da História do Pará e da Região Norte do Brasil, uma cidade do interior. Com um ornamento nobre com palmeiras imperiais, a frente da cidade é um monumento de imponência peculiar. É uma terra que traz uma sensação acolhedora característica para locais onde os rios ainda ditam, de certa forma, o ritmo da vida em geral.

Toda a cultura exposta na história de Bragança se manifesta de forma mais completa na celebração da Festividade do Glorioso São Benedito, com a Marujada, fundada a 03 de setembro de 1798, maior contribuição de fé e cultura, de história e folclore do povo, em honra ao Santo Preto, iniciada pelos antigos escravos da vila, cujas datas principais são os dias que compreendem o período de 18 a 26 de dezembro, quando acontece a festa e a procissão solene.

Aliada a festa e não podendo dela ser desvencilhada, acontece a festa da Marujada, que reúne rituais coreográficos como a Roda, o Retumbão, o Chorado, a Mazurca (ou Mazunga), o Xote, a Valsa, o Arrasta-pé e a Contra-dança. O que o quotidiano nega àquelas pessoas o tempo da festa proporciona.

Estacionamos a Frida junto à fofinha Igreja de São Benedito (construída por volta de 1753, de herança jesuíta, com traços barrocos na parte interna, abrigando a efígie de São Benedito, centro dos festejos da Marujada) e fomos caminhar com os dogs ali pela orla, apreciando a vista do rio Caeté e dos barcos. Depois seguimos nossa caminhada pela cidade, apreciando os antigos casarões, os prédios históricos, praças, igrejas. Pegamos uma típica chuvinha da tarde no Norte, mas não desistimos. Por fim localizamos o Hostel Guarimã onde fomos muito bem acolhidos pela Valéria e pela Letícia, que concordaram que utilizássemos a estrutura do hostel como ponto de apoio. Show!

Retornamos até onde havíamos deixado a Frida e antes de seguirmos para o Guarimã lanchamos comidas típicas do Pará adquiridas numa barraca de comida, bem sentados numa pracinha.

Dormimos tranquilos na Frida, estacionada na rua, bem em frente ao Hostel. Na manhã seguinte seguimos para a Lagoa Azul, localizada nos Campos Naturais Bragantinos, na comunidade de Acarpará, distante da vila do Acarajó uns 5 km. Na entrada do acesso é cobrado o valor de R$ 10,00 por carro.

Durante nossa visita ao local a lagoa estava bem cheia, deixando submersos os decks de madeira. Dava impressão que caminhávamos sobre as águas. Embora o tom da água pendesse, ao meu ver, mais para tons de verde do que azul, eu achei o local bem bonito. No local tem umas cabaninhas pra se abrigar do sol. A água bem fresca e limpa, ideal para banhos revigorantes.

A aventura hilária no local foi que eu vi um grupo de pessoas passeando na lagoa a bordo de uma canoa. A curiosa aqui, claro, também quis experimentar. O canoeiro cobrava 10 reais por uma hora de uso da canoa, e o contratante arcava com os remos. Convidamos para o passeio um casal que conhecemos no hostel, além da Letícia, que toparam a empreitada. Gente, foi tenso, viu. Os tais dos remos estavam em estado deplorável, e pouco serviam para o fim com que foram construídos. A habilidade dos remadores também era mínima. Resultado: ficamos rodando em círculos com o barquinho, sem conseguir avançar muito na lagoa. O céu ameaçava chuva a qualquer momento, e uma certa apreensão com o desenrolar do passeio substituiu minha animação inicial. Felizmente os remadores chegarem num consenso sobre o manejo dos remos e retornamos à margem. Eu ria, mas era de nervoso. O amore Lu, um dos remadores, revirava os olhos com uma expressão que me dizia “cada uma que você me inventa”, saiu da canoa com uma bolha de calo na mão por conta do remo. Lembrancinha do passeio e mais uma história pra contar.

Saímos da Lagoa Azul já pensando no almoço. Tocamos para a Toca do Urubu, um restaurante regional que funciona junto a um igarapé. A água foi represada formando uma piscina de águas escuras e refrescantes. Acabamos não entrando na água, somente sentamos e molhamos as pernas, pois logo a chuva que ameaçava desabou forte. Almoçamos comida gostosa por preço justo ali e depois retornamos ao Guarimã Hostel onde pernoitamos novamente.

Enquanto transcorria a tarde chuvosa em Bragança, a simpática proprietária da hostel, a Letícia, nos brindou com café da tarde servido em xícaras de barro confeccionadas por artesãos da região e um bolo salgado delicioso. No entardecer cessou a chuva e então fomos conferir a cafeteria Nazarezinha, que nos foi recomendada pela Letícia. Pequena e aconchegante, decorada em tons suaves, fofinha e com com uma cardápio de doces, salgados e cafés, merece uma menção honrosa de um lugar bacana pra se conferir em Bragança.

No dia seguinte eu e o Lu acordamos cedinho e fomos caminhar pela cidade, nos dirigindo ao Mercado Municipal de Bragança. Eu adoro ir nesses mercados. Acho que representam bem a cara do lugar visitado, sua cultura e peculiaridades. Lá compramos peixe e é claro, a famosa farinha de Bragança – a melhor do mundo!

Concluídas as compras retornamos ao hostel para o café da manhã. Nos despedimos do pessoal que tão bem nos acolheu e partimos pra estrada. Nossa primeira parada não foi longe dali. O Google Maps facilmente nos indicou a localização do Mirante de São Benedito, do outro lado do rio Caeté, seguindo por estrada asfaltada. Uma bonita homenagem religiosa e cultural do povo bragantino ao seu padroeiro e protetor.

Bem bacana o mirante. Após vencermos uma escadaria com cerca de 100 degraus, que sob o sol do meio da manhã, ainda pareceu uma tarefa facilmente vencível apreciamos a vista parcial da cidade, os barcos navegando no rio Caeté, o verde da vegetação. Além da espaçosa área do mirante ainda nos animamos a subir um pouco mais, acessando uma escadaria que circunda a estátua do Santo Padroeiro. Lá de cima fizemos lindas fotos da cidade de Bragança e do rio Caeté.

Depois da visita ao mirante seguimos por estrada de chão em razoáveis condições até a Vila que Era, local onde nasceu Bragança, onde surgiu a primeira aglomeração humana que deu origem à cidade. Demos uma volta pelo tranquilo vilarejo, desfrutando da simplicidade da localidade. Por ali indagamos sobre a localização dos artesãos que confeccionam as panelas de barro características da Vila que Era. Facilmente identificamos o aglomerado de casas pertencentes ao membros da mesma família.

Foi lá que eu conheci a Dona Nazaré, a matriarca da família, e segundo ela, pertente à quarta geração que herdou a técnica, o conhecimento sobre a confecção de panelas e utensílios de barro que ali são vendidos. A simpatia em pessoa a Dona Nazaré. Rapidinho eu estava dentro da casa dela, comendo banana (vamos merendar, disse ela) e a escutando contar do destino de filhos e netos, toda orgulhosa. Mais um pouco eu ficava para o almoço. Do alto de seu conhecimento, sabedoria e simplicidade, Dona Nazaré marcou essa viagem. Eu, óbvio, saí de lá com duas lindas panelas de barro para minha cozinha.

Depois da passagem pela Vila que Era retornamos ao asfalto e seguimos em direção ao município de Augusto Corrêa, pois na parte da tarde eu já havia reservado uma visita à Fazenda Bacuri, que fica bem próxima dali.

Após dar uma circulada pela pequena cidade nos instalamos com a Frida na orla do rio para preparamos nosso almoço. Junto à calçada, na sombra, brisa soprando, vista para o rio, fizemos dessa paisagem nosso quintal durante as horas que ali passamos. Não demorou para chamarmos a atenção de um morador, um caminhoneiro aposentado que reside do outro lado da rua. Rapidinho já tínhamos água e energia elétrica para abastecer a Frida. O “vizinho” também nos ofereceu gentilmente o banheiro. Maravilha de recepção acolhedora para viajantes como nós. Conversamos, contamos que nossos pais também foram caminhoneiros, recebemos dicas sobre a região. Almoçamos cação e arraia assados no forno com legumes refogados. O cação não ficou muito bom e foi a refeição dos cães da rua. A arraia salvou nosso almoço.

Lavamos rapidinho a louça, organizamos nossas coisas na Frida e nos tocamos para a Fazenda Bacuri, pois o horário da nossa visita estava agendado para às 14 horas. Chegando lá a proprietária, Hortência Osaqui nos aguardava para dar início ao tour.

A propriedade é um bom exemplo de produção e manejo de frutas da Amazônia. A fazenda produz desde frutos até polpas, doces, geleias e licores. Os produtos são orgânicos com certificação para os mercados brasileiro, americano e da comunidade europeia.

São 64 hectares no total, com trilhas, igarapé, nascentes, lavouras de mandioca, agroindústria de processamento de frutas, sistemas agroflorestais com espécies frutíferas e florestais, meliponicultura e criação de galinha caipira. A propriedade, na justificativa do seu próprio nome, também é destacada em específico pelo extrativismo de bacuri manejado: são 35 hectares com 18 modelos de fruto e safra média de 300 mil frutos e 2 toneladas só de polpa, em 4 meses (janeiro a abril – no mais tardar, maio).

São produzidas dezenas de tipos de geléia, doces, licor e beiju de mandioca. As sementes já são vendidas para uma empresa de biocosmésticos, para o desenvolvimento de manteiga. As cascas, ricas em antioxidantes, estão sendo avaliadas também para biocosméticos e biomedicamentos.

A fazenda também oferece turismo de conhecimento, uma experiência por meio da qual é possível fazer uma trilha de cerca de uma hora de duração dentro da área de manejo, que foi a que fizemos. Depois da trilha, a degustação dos produtos é uma explosão de sabores.

Para nós a surpresa ficou por conta da descoberto da Micologia (nada a ver com os macaquinhos, os micos, tá), que é a especialidade da biologia que estuda os fungos, como os cogumelos. A experiência é de imersão cultural, gastronômica e ecológica. A Hortência, ao longo da trilha, nos explicou sobre a importância dos fungos e nos ensinou a identificá-los na natureza. Ao final da trilha Hortência nos convidou para sentar em troncos, no meio da mata, e sentir a floresta que nos rodeava, numa experiência sensorial bem bacana!

A água fresca do igarapé convidava os suados turistas a aliviar o calor antes de seguirmos para a mesa. A alimentação servida ao final do passeio, posta numa mesa linda, é toda baseada nos produtos desenvolvidos ali e preparada conforme a tradição e critérios de segurança e saúde: tudo da propriedade é certificado e os ingredientes são naturais. Uma passada na lojinha garantiu um pote de geleia de cupuaçu com pimenta pra casa e uma garrafa de licor de jambo que é uma delícia.

Saímos da Fazenda Bacuri já era tardinha, rumo à Praia de Ajuruteua, onde chegamos no início da noite. Estacionamos em frente à praia e eu e o Lu fomos caminhar pelo vilarejo em busca de ponto de apoio para a Frida. Encontramos na Pousada e Bar Leds, que possui um estacionamento grande, com vista para a praia, com energia elétrica e água disponível. Como fomos num dia de semana, o local estava absolutamente deserto e tranquilo, bem como preferimos. O proprietário da pousada também tem um mercadinho em anexo onde nos abastecemos do que precisávamos.

Etimologicamente, o nome da praia é originado da junção entre as palavras “ajiru”, um fruto típico do local, e da expressão indígena “tela”, que significa lugar onde tem muito, ou lugar de.

A Praia de Ajuruteua tem aproximadamente 3 km de extensão e 800 m de largura, em maré baixa. A praia é constituída de areia fina e branca, águas claras e ondas fortes e está cercada por dunas e vegetação de mangue. Dizem ser uma das praias mais lindas do litoral paraense. Nós aproveitamos a manhã na praia e fizemos nosso almoço na Frida. Ficamos por ali até a metade da tarde e depois seguimos para a Vila dos Pescadores.

Encontramos a Vila dos Pescadores deserta. Nossa referência era o Restaurante e Pousada Kiall, que estava fechado. Chuviscava e o local nos pareceu pouco convidativo, ermo até. Penso que num final de semana, com sol e movimento no restaurante o cenário pareça mais animador. Então decidimos seguir viagem.

Em contato com a Letícia, proprietária do Hostel Guarimã, solicitei indicações de igarapés, campings onde pudéssemos pernoitar, já no trajeto em direção à Belém. A atenciosa Letícia nos indicou vários, localizados no entorno do município de Tracuateua. Entramos na cidade para compras itens no supermercado e recebermos mais informações. Pelas imagens acessadas no celular me interessei especialmente pela Toka da Amizade, um hotel com igarapé. Mas havia dúvidas se o mesmo estava em funcionamento, pois a meses estavam fechados, em manutenção. Preferimos arriscar e seguimos por um trajeto de estrada de chão, cerca de 2 quilômetros do asfalto. Chegamos no local ao anoitecer, e já na entrada encontramos uma placa informando que o local estava temporariamente fechado. Ignoramos o aviso e entramos na propriedade. Um funcionário nos indicou o restaurante onde se encontrava o gerente, o super gente boa e xará do Lu, o Luciano.

Explicamos que estávamos em viagem e gostaríamos de passar a noite no local, descansar, preparar refeições. Embora o local estivesse fechado ao público o Luciano nos acolheu, cedeu energia elétrica e banheiro e nos deixou bem à vontade. Instalamos a Frida num gramado, preparamos nosso jantar e dormimos sob as bençãos de Nossa Senhora do Ar Condicionado.

Na manhã seguinte eu e o Lu saímos para caminhar pela propriedade e ficamos encantados com o capricho do lugar, a limpeza, a organização. Realmente nos sentimos privilegiados por podermos desfrutar de um local tão belo e bem cuidado, praticamente só pra nós, além dos funcionários que estavam trabalhando. Conferimos o igarapé, uma trilha pela mata e até a pocilga adornado com mosaicos. Coisa chique, gente!

Eu estava sem carne para o almoço, e a cozinheira da propriedade ia para a cidade fazer compras e concordou em comprar frango para nós. Logo retornou e nossa refeição estava garantida. Enquanto o Lu preparava o almoço na Frida eu aproveitei a água fresquinha do igarapé e renovei o bronzeado, só curtindo a vibe tranquila do lugar, junto com Cora e Chiclete, que se esbaldaram com a liberdade de andarem pra lá e pra cá.

Depois do almoço instalamos a rede no redário e rolou aquele cochilo gostoso. Na metade da tarde organizamos nossas coisas para seguirmos viagem de volta à Belém. Agradecemos muito à acolhida do pessoal da Toka da Amizade. Realmente o empreendimento faz jus ao nome. Show de bola!

Chegamos em casa no início da noite. Foram 5 dias de passeio pela Amazônia Atlântica que nos ofereceram maravilhosas experiências, muito conhecimento e momentos de lazer e descanso. Voltamos para casa renovados.

Eu tive a quinta-feira para organizar minha mochila para a nova trip dessas férias de julho. Ao meio-dia de sexta-feira voei para Manaus, para dar início a uma aventura pela qual eu tinha muita expectativa: uma experiência em um lodge de selva. Mas essa será tema do próximo post aqui no blog. Aguardem.

Finalizo com citação de Claudeth Camões, que traduz o espírito dessa trip: “A beleza está em todo lugar, quer ver vossa vista clarear, menina é, o tempo, a ti o realizar das histórias em verdades de amar”.

4 comentários em “Frida na Rota da Amazônia Atlântica – Pará – Brasil

  1. Passou uma viagem pela minha cabeça. Todo mundo deveria conhecer a região bragantina dessa forma. Com as dicas dadas pela Letícia do Guarimã Hostel tenho certeza que a trip ficou ainda mais prazerosa. Saudade dessa terrinha abençoada. Obrigado pela leitura nostálgica é gostosa. ❤️

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s