Brasil

Mochilão 2021 – Part. II: Maranhão – Brasil

Cheguei na Estação Anjo da Guarda, em São Luis, numa sexta-feira a noite. Corpo cansado, em virtude de passar o dia todo no trem, afinal foram quase 13 horas de viagem, sentada num assento não muito confortável. Mas feliz pela experiência enfim realizada. Tipo “vivi, posso contar”. Risos.

Tomei um táxi na estação e rumei para a Pousada Portas da Amazônia, no Centro Histórico de São Luis, que o pessoal local chama de Reviver. Eu já havia ficado nesta pousada anos atrás, quando fui a São Luis para fazer a trip aos Lençóis Maranhenses, link aqui Lençóis Maranhenses e muito mais Maranhão – Brasil e São Luís, Alcântara e Raposa – Roteiro no Maranhão – Brasil e Lençóis Maranhenses: muita areia para o meu caminhão – Brasil. Tinha nítidas lembranças da beleza do Centro Histórico, os casarões antigos, os azulejos, as ruelas, os prédios e casarões compondo paisagens que pareciam pinturas. Ao retornar, todo o meu deslumbramento com o cenário se renovou.

Passei um final de semana maravilhoso em São Luis. Como já conhecia, me senti desobrigada de conferir os lugares tipo “tem que ir” e me liberei para flanar pelo Centro Histórico e curtir minhas amizades. Sobre amizades, me refiro muito especialmente a meu encontro com minha amiga Lia, que conheci em 2019 durante o intercâmbio que fiz em São Francisco, na Califórnia, e sua adorável família, moradores em São Luis.

Após uma boa noite de sono acordei descansada, tomei café e fui bater perna pelo Centro Histórico. Neste trajeto espiei a Casa Frankie, uma pousada instalada num casarão lindo e decidi na hora trocar de hospedagem. Ao dar de cara com a cama com dossel definitivamente caí de amores. Encerrei minha diária na Portas da Amazônia e me instalei faceira na Casa Frankie. Adoro ambientes com objetos e decoração de época, em que os detalhes parecem me contar histórias vividas ali, no passado.

No sábado a tarde Lia me levou para conhecer a parte moderna de São Luis, que eu não conhecia, chamado de Espigão Costeiro da Ponta d’Areia. Trata-se de uma estrutura de 600 metros de comprimento que foi construída na Península da Ponta d’Areia com o objetivo de controlar a erosão da orla da praia de mesmo nome, protegendo os prédios e melhorando o tráfego de embarcações. O resultado é o aumento da faixa de areia da praia, que fica retida na longa passarela que adentra pelo mar.

Acertadamente nós fizemos a visita perto do fim da tarde, quando o clima começou a dar uma refrescada, e emendamos com o pôr do sol, que é o grande atrativo do Espigão. Por ali também se localiza o Forte de Santo Antônio, recém reformado. Tudo bem bonito, conferindo um ótimo astral ao local.

Ao anoitecer Lia me trouxe de volta à pousada para nos reencontrarmos logo depois, já com a companhia dos pais dela, e fomos todos jantar peixe frito e também ensopado num restaurante recomendado por eles. Muito bom.

Depois do jantar demos umas voltas pela cidade e por fim me deixaram na pousada, já com a proposta de nos reencontrarmos na manhã do dia seguinte para curtirmos um dia de praia. Topei, claro.

Noite no Reviver, em São Luis

Ainda tive ânimo para dar uma circulada pela noite do Centro Histórico, a tempo de conferir o video mapping que estava sendo projetado no Palácio dos Leões, a sede do Executivo Estadual, alusivo às festividades natalinas. Bem lindo.

Video mapping natalino na fachada do Palácio dos Leões, em São Luis

No domingo acompanhei Lia e sua família até a Praia de Araçagy. Antes passamos na Estação Rodoviária de São Luis e comprei minha passagem de ônibus para seguir para Tutóia na manhã seguinte. Tive um maravilhoso dia de praia, comidinhas gostosas, banhos de mar e muita conversa com pessoas especiais. Depois da praia ainda passamos no apartamento da família de Lia para comer feijoada. E lá a querida Lu, mãe de Lia, e artesã talentosa, confeccionou na hora e me presenteou um terço feita de contas coloridas. Eu simplesmente amei o presente e guardo com muito carinho.

Pessoas especiais em São Luis
Praia de Araçagy
A arte e a artista

Quando finalmente retornei à Casa Frankie estava rolando um carnavalzinho na rua em frente, com uma banda de músicos tocando sambas das antigas, puxando o povo pra dançar. Acabada, cansada, fiquei espiando o agito da janela da pousada, mas doidinha de vontade de participar da festa, confesso. Comi um lanche do iFood e tratei de dormir, pois cedo pegaria o ônibus para seguir viagem.

Carnaval de rua. Só sambas e marchinhas das antigas

Na segunda-feira cedinho me despedi da Casa Frankie e segui para a rodoviária. Mais uma longa viagem de busão a vista.

No busão rumo à Tutóia

O ônibus estacionou na rodoviária de Tutóia por volta das 14 horas (são 327 quilômetros desde São Luis). Antes teve umas paradas em pequenas cidades e para o povo almoçar num restaurante de beira de estrada.

Desci do ônibus e contratei um serviço de mototáxi que me levou até a Pousada Lua Branca, em frente à Praia da Andreza. Eu já havia reservado um quarto na pousada e gostei da tranquilidade do local, especialmente por se tratar de uma segunda-feira. O atendimento da proprietária sempre foi muito atencioso.

Vista do meu quarto na Pousada Lua Branca
A calmaria da praia em frente à pousada

Aproveitei o final de tarde para ver o pôr do sol do alto das dunas que cercam a cidade de Tutoia. Mas aí já teve uma aventura, né. Conto tudo. Primeiro que aceitei sugestão de seguir até à duna de mototáxi, o que foi acertado. Realmente não era tão perto como eu imaginava. Se eu seguisse caminhando iria perder o espetáculo. O mototáxi se mostrou titubeante sobre onde me deixar, mas enfim, acertou o caminho. Subi a imensa duna quase correndo. Observei as pessoas lá no alto, já contemplando o final de tarde e acelerei o que deu. Literalmente “botando os bofes pra fora”. Mas ok, cheguei a tempo de curtir, fazer umas fotinhos.

Encerrado o momento pensei “vou retornar caminhando pela praia até a pousada”. Só que quando iniciei o trajeto me dei conta que estava solitária num local ermo. Deu um medinho. Apertei o passo quando vi mais lá na frente duas mulheres caminhando juntas. Busquei companhia, né.

Solidão na caminhada na praia

Nisso vi dois meninos sentados numa duna, em frente à praia, fumando baseado, me observando. Pensei “só o que falta me assaltarem e levarem meu celular”. Tasquei a louca e parti em disparada, numa corridinha acelerada, até alcançar a dupla feminina de caminhantes. Aí puxei papo, relaxei e seguimos as três conversando.

As novas amigas me esclareceram que a pousada ainda estava longe e me orientaram a cortar caminho por dentro, pela área urbana. A noite já se insinuava. Concordei e segui com elas. Nisto elas cochicharam e anunciaram “conversamos aqui e ela vai te levar de moto até sua pousada, é mais tranquilo e seguro”. Gente, que coisa mais amável! Concordei, obviamente.

Uma delas tirou a motocicleta da garagem de casa, subi de carona e seguimos. E realmente a pousada não era pertinho dali. Mas de moto, em poucos minutos, eu estava na frente da Lua Branca. Maravilha! Agradeci imensamente a carona, quis fazer um pagamento e acreditem que ela não aceitou?! Disse que fez “de coração”, que não aceitava pagamento. Que anjo gentil…

Tomei banho, saí para jantar num restaurante próximo, de frente para a praia, escutando o barulho das ondas batendo nas pedras. De barriga cheia, canseira instalada, desabei na cama num sono profundo. Um lindo passeio me aguardava no dia seguinte.

Após o café da manhã aguardei até que vieram me buscar num buggy que me levou até o porto da cidade, local de saída do passeio para conhecer o Delta do Paranaíba (ou Delta das Américas) pelo lado do Maranhão.

O Delta é um fantástico monumento natural, com diversas ilhas formadas pela foz de diversos rios, entre eles o Rio Parnaíba. Como a foz tem a forma de um triângulo, ganha o nome de Delta. É o único Delta das Américas e o terceiro maior do mundo. Os outros são os do rio Nilo, na África, e do rio Mekong, no Vietnã.

São mais de 70 ilhas para percorrer e visitar, mas uma das curiosidades é que a maior parte delas fica em território do Maranhão. Apesar disso, o destino ficou mais famoso a partir da cidade de Parnaíba, no Piauí.

Pontal da Melancieira, aparece na maré baixa

Dessa forma, é possível fazer um passeio de barco até algumas dessas ilhas, partindo de Tutóia, que foi o que eu fiz neste segundo dia na cidade. O passeio é feito com uma lancha voadeira (como as distâncias são grandes, esse tipo de embarcação mais rápida é a mais recomendada). O passeio incluiu parada para banho no Pontal da Melancieira, com a maré baixa formando bancos de areia. Ainda na baia de Tutóia, visitamos o Cemitério dos Navios, onde o guia foi contando as curiosas histórias de como essas embarcações chegaram aos locais, ainda no século passado. Durante o percurso teve a parada para almoço num restaurante pé na areia. Seguimos depois com apreciação da fauna e flora dentro dos Igarapés e também subimos as dunas da baia da Melancieira, que tem uma vista linda do Delta. Perto das 17 h o barco seguiu até uma área chamada de Dormitório dos Guarás, para assistir à Revoada desse exótico pássaro vermelho. Retornamos ao porto de Tutóia assistindo o pôr do sol por volta das 18 h. É um passeio imperdível. Eu amei.

Dunas na Baía da Melancieira
Observando cavalos-marinhos
O espetáculo dos guarás indo para seu dormitório nas árvores do Delta
Mais um pôr do sol de arrasar

No meu último dia em Tutoia acordei cedo e após o café dei uma caminhada pela cidade, comprei lembrancinhas, até que o guia veio me buscar para o passeio do Circuito Praias de Tutoia, incluindo os Pequenos Lençóis da região de Tutóia, que ficam fora da área do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, dentro de uma Área de Proteção Ambiental (APA).

Em um veículo 4×4 jardineira o grupo que integrei partiu para um roteiro todo percorrido através das praias de Tutóia. O passeio também pode ser realizado de buggy ou quadriciclo. Como havia uma família no grupo me ofereceram seguir no banco do carona da caminhonete, ao lado do motorista, o que considerei um fator de sorte. Fui de boas, no ar condicionado, escutando as histórias de Jorge, o motorista/guia.

Cemitério de Navios na Baía de Tutóia

O passeio iniciou na Praia da Barra, onde a imagem da carcaça de um navio chama a atenção. A partir dali, o passeio é todo pela praia, passando também pela Praia da Moita Verde e pela Praia do Amor. Teve uma pausa para um gostoso banho de mar. Também passamos pela comunidade do Arpoador, onde vive uma colônia de pescadores.

Seguimos o passeio passando por altas dunas e coqueiros. Em virtude da época a maioria das lagoas estavam secas ou com pouco água. Com exceção de uma grande lagoa, que o guia disse ser permanente, alheia ao período do ano ela nunca seca. Mesmo assim, achei a paisagem linda.

Pois estava eu, num estado de encantamento com a paisagem, quando a caminhonete 4×4 simplesmente afundou na areia, bem no alto de uma duna, quando o motorista foi fazer uma manobra. Encalhou ali por volta do meio-dia e meio. Desce todo mundo. Mulheres e crianças se refugiaram do sol inclemente debaixo de um solitário cajueiro, enquanto os homens suavam em bicas na tentativa de desatolar a caminhonete, sem sucesso.

Debaixo do cajueiro, só observando

Acompanhei de longe os trabalhos, por cerca de uns 40 minutos, observando o guia Jorge tentar manter contato pelo celular, para pedir ajuda, mas o sinal do telefone e da internet estava bem ruim. Foi então que decidi interferir. Afinal situação não era boa: as crianças do grupo pediam por água, reclamavam de fome, e não havia ali. Tenso.

Fui até o Jorge, que tentava comunicação com o celular do alto de uma duna e me prontifiquei a caminhar de volta até um ponto onde ele indicou no trajeto que havia uma palhoça na beira de uma lagoa, que recebia os turistas com água, bebidas e lanches como camarão assado, queijo coalho, essas coisas. Lá poderia pedir ajuda para desatolar a caminhonete.

Jorge titubeou um pouco e acabou aceitando minha proposta. Me protegi do sol da forma que deu e parti observando as indicações que me foram dadas: que logo eu encontraria a lagoa, que era para seguir pela trilha da vegetação em seu entorno até à palhoça.

Na descida da primeira duna, a areia quente encontrou meus pés encima dos chinelos de borracha e a coisa ficou feia, literalmente fritou. Saí correndo, pulando, até chegar na sombra de algumas árvores e por fim a lagoa. Enfiei os pés na lama para refrescar a pele dos pés queimadas. Segui a trilha circundando a lagoa, encontrei cabras e um grupo de mulheres e crianças. Contei minha história e segui caminhando até a palhoça. O povo me observava de longe até que me aproximei. Ufa.

Tão logo fiz o relato do ocorrido os homens se armaram com enxadas, pás e garrafas de água e partiram na direção que indiquei. Com minha missão de mensageira cumprida, me joguei numa redinha instalada dentro da lagoa e bora descansar com uma água de coco em mãos, e com os pobres dos meus pezinhos de molho na água fresca. Encomendei um queijo assado na brasa que ficou pronto bem na hora que Jorge e a turma chegaram com a caminhonete. As caras do povo anunciavam que não estavam nada contentes com o incidente que frustrou o passeio. Queriam retornar já para a cidade, cochichou o Jorge. Bora então.

Circundei toda a lagoa

Cheguei na pousada a tempo de tomar um banho, organizar minha mochila e acionar um mototáxi para me levar à rodoviária de Tutóia. Meu ônibus com destino à Parnaíba, no Piauí, partia às 16 h. Comi um lanche numa padaria em frente à rodoviária, que serviu como almoço daquele dia e parti com o busão. O curioso é que o veículo não tinha ar condicionado, as janelas seguiam abertas, com o vento nos salvando do sufoco do calor. Segui o fluxo e curti um lindo pôr do sol na estrada para o Piauí.

No busão, ao sabor do vento

Cheguei na rodoviária de Parnaíba eram 18 h 30 min. Um mototáxi me levou até o Parnaíba Hostel, onde fiquei instalada durante os meus dias na cidade.

Sobre meu relato das descobertas e aventuras em terras piauienses conto no próximo post. Imperdível.

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Mochilão Brasil 2021: Pará, Maranhão e Piauí – Brasil

Iniciando o Mochilão 2021 – Part. I: Pará – Brasil

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