Brasil

Mochilão 2021 – Part. III: Piauí – Brasil

Finalmente cheguei ao Piauí!! O Estado era efetivamente o meu objetivo, meu propósito de viagem, pois era o único da Região Nordeste que eu ainda não tinha feito check in. Se bem verdade que os demais ainda carecem de mais visitas e interações de minha parte. Mas com certeza vai rolar, pois AMO o Nordeste e o povo nordestino com suas naturais características de acolhimento, hospitalidade, simplicidade e simpatia.

Como relatei no post anterior, link aqui Mochilão 2021 – Part. II: Maranhão – Brasil, cheguei em Parnaíba a noite, depois de uma viagem de busão desde Tutóia, no Maranhão.

Cheguei na rodoviária e peguei um mototáxi (nunca andei tanto de mototáxi como nessa viagem e digo que adorei – rápido, eficiente e barato), que me levou até o Parnaíba Hostel, sobre o qual eu tinha recebido ótimas indicações. Fui realmente muito bem recebida no hostel, me instalei num quarto com outras duas meninas, com ar condicionado, banheiro no quarto, e tudo transcorreu absolutamente bem por lá. Realmente eu adorei o hostel, as dicas e informações recebidas, o astral das pessoas que lá trabalham, as acomodações e serviços. O café da manhã então… uma arraso, um capricho, uma delícia. Show! Super recomendo o Parnaíba Hostel.

Depois de uma boa noite de sono acordei cedo, disposta a conhecer a cidade e definir passeios para os próximos dias. Com as informações que recebi do pessoal do hostel resolvi ir caminhando até um ponto de ônibus para pegar o transporte público (ônibus) até à Praia do Sal. Foi uma boa caminhada debaixo do maior sol. O bacana é que fui observando a cidade, os prédios antigos bem conservados. Quando me dei por conta já estava lá.

Porto das Barcas

O ponto do ônibus indicado fica bem próximo da região do Porto das Barcas, por isso aproveitei para dar umas voltas pelo complexo histórico revitalizado enquanto aguardava o horário do bus. Bem legal o lugar mas concluí que o melhor horário para curtir seria no finalzinho de tarde, quando o sol e o calor dá uma trégua e o clima fica mais ameno, com aquela vibe gostosa de entrada da noite.

Tomei o ônibus que atravessou a Ponte Simplício Dias e em cerca de meia hora trafegando pela PI-116, passando por povoados, o motorista sinalizou a parada na praia. A Praia Pedra do Sal, com 8 km de extensão, é a praia do parnaibano, e fica na Ilha Grande de Santa Isabel a 15 km do centro de Parnaíba. Chegando à praia se avista um conjunto de rochedos graníticos, que nada mais é que um morro de pedras que avança oceano adentro, dividindo a praia em dois lados: o bravo, mais frequentado por surfistas por possuir ondas fortes e o lado manso, ideal para descanso, pescaria e acompanhar o pôr-do-sol. Fiquei na parte mansinha, claro.

Me instalei num dos quiosques da praia, que são bem rústicos, pé na areia. A praia estava super tranquila, maré baixando, quase deserta, com poucos frequentadores. Muito bom para relaxar.

O nome Pedra do sal vem das formações de sal nas concavidades das pedras após a evaporação da água do mar. Dona de uma beleza rústica rara, areia clara, bem fininha e mar de águas claras a Praia Pedra do Sal, única praia de Parnaíba, é uma das mais visitadas do litoral piauiense. Eu não poderia deixar de conhecer, né. É muito visitada, principalmente, pelo seu famoso e lindíssimo pôr do sol. O inconfundível fenômeno da natureza, todos os dias, ao cair da tarde atribui à praia um clima de aconchego e romance. Em alguns meses do ano como março e julho o espetáculo é ainda mais belo, pois o sol passa a se pôr por trás do mar. Eu acabei não assistindo o show da natureza ali porque retornei à cidade na metade da tarde. Queria ver o pôr do sol do Porto das Barcas.

Tenho uma historinha sobre meu retorno para Parnaíba. Lá vai. Quando resolvi retornar à parada de ônibus para aguardar o ônibus fui informada que ele só chegaria por ali em cerca de uma hora. Pensei: puxa, vou ter que aguardar todo esse tempo aqui… Decidi tomar um sorvete numa sorveteria do outro lado da rua, que funciona em anexo a um hotel. Enquanto tomava sorvete comentei que estava aguardando o ônibus, que iria demorar. E a atendente me sai com essa: “tem um hóspede aqui do hotel que acabou de falar que está indo de carro pra cidade. Você quer que eu peça uma carona a ele?” Mas gente… que gracinha a disposição da menina em me ajudar. Topei, claro.

Rapidinho ela foi até o hóspede que estava pronto para partir e retornou com a informação de que ele me levaria de carona. Pronto! Partiu, Parnaíba. Fui bem faceira, curtindo o geladinho do ar condicionado, conversando com o rapaz, que era funcionário de uma empresa que faz manutenção naqueles cataventos gigantes que produzem energia eólica. Em 15 minutos já estávamos cruzando a ponte, entrando na cidade. A carona me deixou junto ao Porto das Barcas, local que solicitei ficar, a fim de curtir o pôr do sol. Agradeci e ofereci uma graninha, que ele recusou. Só gente gentil…

Depois de curtir o final de tarde num barco que funciona como bar e restaurante, que fica atracado no Porto das Barcas (puxa, esqueci o nome) retornei de mototáxi para o hostel. Jantei ali perto e me organizei para o passeio que contratei para o dia seguinte: o Parque de Sete Cidades.

No dia seguinte bem cedinho fui para a rodoviária de Parnaíba a fim de pegar o ônibus das 6 horas da manhã com destino à cidade de Piracuruca, interior do Piauí, distante cerca de 140 quilômetros de Parnaíba. Cheguei na pequena cidade eram 8 horas da manhã e o guia Welhington me aguardava em seu carro, conforme havíamos combinado.

Primeiro fizemos uma parada para conhecer a igreja da cidade, o pequeno centro histórico e depois passamos num supermercado para comprar água e lanches para passar o dia no parque, pois lá dentro não há lanchonete, restaurante. Neste passeio fui apenas eu e o guia Welhington. Dá para fazer o passeio também a pé ou de bicicleta, mas o calor é muito forte, e os atrativos, muito distantes uns dos outros. Achei super acertado ter escolhido fazer de carro, pois não sei se eu daria conta de caminhar embaixo daquele sol que só tem no Piauí. Risos.

Parque Nacional de 7 Cidades é uma unidade de conservação brasileira, localizada em área de transição entre cerrado e caatinga. São 36 quilômetros de proteção integral à natureza e abriga um conjunto de formações geológicas de peculiar beleza. De quebra, ostenta inscrições rupestres de 6 mil anos, que acrescentam uma dimensão cultural a um passeio que poderia ser apenas panorâmico.

Depois de uma rápida parada na entrada do parque, onde há algumas informações sobre as formações geológicas, tipo um museu, nos identificamos na portaria e ingressamos na área do parque.

O Parque Nacional das Sete Cidades ou Cidades de Pedra se destaca por suas cidades ilusórias, ricas em monumentos e semelhanças com a realidade. Esse cenário paradisíaco já foi mencionado pelo autor de “Eram os Deuses Astronautas”, Erich Von Dãniken, que atribuiu a construção das Sete Cidades de Pedra a forças não naturais.

Filosofias como essa atraíram historiadores, cientistas, geólogos, arqueólogos e até mesmo ufólogos do mundo inteiro!

No parque, caminhei sob as árvores, me refresquei num olho d’água e vi muitas rochas em formatos históricos, simbólicos, humanos e de animais. Também fiquei encantada com as inscrições rupestres.Tudo orientado pelas explicações do guia Welhington. Em virtude da época as cachoeiras estavam secas. Para completar esse mundo de sonhos ouvi o trinado de aves a voejar pelo céu ou descansando sob as árvores, tudo sob um lindíssimo céu azul e sol. Muito sol. Não é nenhuma Atlântida, mas, com certeza, é um paraíso natural e misterioso, escondido do interior do Brasil.

Ficamos no parque até por volta das 14 horas, culminando a visita com um maravilhoso e refrescante banho num olho d’água. Na saída do parque dividi com Welhington uma cajuína bem gelada para celebrar o dia incrível que passei por lá. Em seguida retornamos pela estrada em direção à cidade. Mas felizmente fizemos uma parada na propriedade “Quintal do Curiólogo”, fundado em 2012, localizado na comunidade Vamos Vendo, Zona Rural de Piracuruca, que possui cerca de 21 hectares e apresenta passeios a pé e de bicicleta. O local é um empreendimento da família do guia Osiel Monteiro. O nome do quintal faz alusão à curiosidade das pessoas que, para ele, é algo que faz parte da natureza do ser humano. Com a transformação do quintal em ponto turístico, Osiel contou que o espaço ajudou a fortalecer o turismo da comunidade.

Fiquei encantada com a criatividade dos irmãos proprietários do local e especialmente gostei das casas feitas encima das pedras e árvores e já fiquei com muita vontade de passar uma noite ali, observando as estrelas. Quem sabe na próxima viagem, né?

Me demorei lá pelo Quintal do Curiólogo e quando cheguei na rodoviária de Piracuruca não haviam mais passagens disponíveis para o ônibus das 16 horas. Resumo: comprei a última passagem do ônibus das 18 horas para retornar à Parnaíba. Fazer o que, né? Me instalei na padaria em frente à rodoviária e fiquei navegando na net e fazendo lanche até o horário da partida do bus.

Nem precisa dizer que cheguei em Parnaíba eram quase 21 horas, mortinha de cansada, motivada pelos deslocamentos de ônibus, pelos agitos do dia no parque e pelo sol todo que peguei. Mas contente pelo passeio realizado. Eu adorei tudo. Então só comi um lanche rapidinho, tomei um banho e desmaiei na cama. No dia seguinte eu teria mais um dia de passeio. E bem intenso.

Eu já havia combinado esse passeio quando cheguei em Parnaíba, com o Zezinho (ele se chama de “Zezim”), o “mototáxi dos mochileiros”, após ter recebido ótimas indicações da pessoa dele e do passeio pelo pessoal do hostel e em relatos que li no mochileiros.com e foi muito top mesmo.

Acordei renovada, descansada, tomei um ótimo café da manhã e no horário marcado, pontualmente lá estava, em frente ao hostel, o Zezinho. Partimos era 9 horas. Eu na carona da moto e Zezinho coordenando o passeio.

A primeira parada foi na Lagoa do Portinho, no trajeto que leva à cidade de Luis Correia. Eu amei o lugar e por mim já teria passado o dia inteirinho ali mesmo. Mas não era possível, senão eu não conheceria os outros lugares lindos da região de Luis Correia.

Eu adoro lagoas, prefiro água doce a do mar. E achei a Lagoa do Portinho, com suas altas dunas e a água cristalina, perfeitinha, perfeitinha… Quero voltar a ela, com certeza.

Seguindo o passeio Zezinho fez uma parada para eu conhecer uma área de mangue onde há um tablado de madeira, um píer com barcos, bem bacana. E logo seguimos em direção às praias.

O Piauí é o Estado brasileiro com a menor faixa de litoral. São apenas 66 quilômetros de costa, e mais da metade – exatamente 46 quilômetros – fica no município de Luis Correia. É na pacata cidade que estão algumas das mais desejadas praias do Piauí.

A fim de conhecer as praias de Luis Correia fizemos várias paradas. Zezinho ficava disponível para o tempo que eu desejasse curtir cada praia. Uma maravilha. Foi assim que conheci a Praia do Atalaia (achei muito urbanizada e muvuquenta, por isso não me demorei ali), a Praia do Coqueiro, Praia Peito de Moça e do Barro Preto. Dessas todas eu gostei mais da Praia do Macapá, mais rústica e afastada. Facinho eu moraria lá. É ali que deságua o rio Camarupim que forma uma foz ladeada pelo manguezal, e a travessia deve ser feita de carro, dando a volta.

A grande pedida da Praia de Macapá é curtir sua tranquilidade. Como fica em uma parte que eles chamam de lagoa, o mar é calmo e sem grandes ondas na maioria do tempo. Então, passei um bom tempo aproveitando as barracas, sentada de frente para o mar e simplesmente relaxando.

Eu peguei a maré baixa, e aproveitei para caminhar pelos bancos de areia que se formam, deixando a paisagem ainda mais linda. Os praticantes de Kitesurfe dão o show.

A contragosto concordei em deixar a Praia do Macapá, com a promessa de Zezinho de assistirmos um pôr do sol de arrasar. Então tá. Mas antes fizemos uma rápida parada na Praia do Arrombado para conferir mais um atrativo das praias do Piauí: a árvore penteada. Trata-se de um tamarinheiro, que é um símbolo do litoral piauiense e uma amostra de como o vento sopra forte por lá: o caule se entortou no sentido do vento criando um cenário perfeito para uma foto. Que eu fiz, claaarooo!!

Já caía a tarde quando Zezinho voou com sua moto para a Praia do Itaqui, a fim de assistirmos o pôr do sol prometido. O local escolhido por Zezinho me pareceu um prêmio após o dia intenso vivido, pelo sobe e desce da motoca, os solavancos na estrada: a Pousada Vila Itaqui, na praia do mesmo nome.

Ambiente lindo e agradável, playlist gostosa, na vibe do pôr do sol que se aproximava. Pedi um drinque e fiquei sentadinha com os pés na areia, só curtindo as cores pigmentando o céu e refletindo na praia. Que momento incrível dessa viagem eu tive ali. Foi demais. Muito grata ao Zezinho por me conduzir por todo o dia de passeio e finalizar com essa maravilha da natureza.

Já era noite quando iniciamos o trajeto de retorno para Parnaíba. Cheguei no hostel em torno das 19 horas. Cansada mas muito feliz. Que dia foi esse, senhores…

Tomada de gratidão pelo que foi visto e vivido, adormeci rápido e profundamente. No dia seguinte teve mais paisagens lindas e mais experiências.

O passeio de domingo eu contratei por indicação do pessoal do hostel. Fiz com a empresa Igaratur e gostei muito. Embora eu já tivesse feito o passeio no Delta do Parnaíba lá em Tutóia, Maranhão, eu também queria conhecer pelo lado do Piauí. E adorei! Achei bem diferente da experiência anterior. E bacana!

O passeio saiu do Porto dos Tatus, na Ilha Grande de Santa Isabel, a 11 km do centro de Parnaíba. Desta vez fui num barco grande, tipo catamarã. Então a paisagem passava mais devagar, com o grande barco deslizando pelas águas. Um passeio que eles chamam de Delta Tradicional: tranquilo e sereno. Eu realmente precisava de algo mais calmo, que não me exaurisse as forças, como foram os dos últimos dias (tudo lindo, mas puxado para o corpo desta garota de 50 aninhos).

Neste passeio no Delta a desembocadura foi na barra (boca) das Canárias, após o barco navegar por alguns canais menores. Devido à baixa velocidade da embarcação esse passeio durou em torno de 7 horas — com música, comida e bebida a bordo. Teve também uma parada para banho próximo à foz do rio e outra nas dunas do Morro Branco, já parte dos Lençóis Piauienses. No meio disso tudo assistimos a demonstração de extração de caranguejo no mangue. Um teatrinho bem “pega turista” mas ok.

Antes de retornarmos ao porto ainda rolou no barco uma sessão de “toc toc”, que são os martelinhos batendo para comer caranguejos, que por sinal, eram enormes. Me limitei a acompanhar a movimentação, seja porque ainda estava saciada por conta do almoço farto servido no barco. E também que não me dou muito com o negócio. Aprecio caranguejo quando servido somente a “massa” em algum prato.

Cheguei de volta no hostel após esse gostoso passeio era em torno das 15 h 30 min. Tomei banho, organizei minha mochila e acionei novamente o Zezinho. Isto porque eu havia combinado com ele para me levar até a Praia de Barra Grande. O horário de ônibus não favorecia um deslocamento naquele mesmo dia e eu tinha um roteiro em mente para cumprir. Então decidi ir para Barra Grande de moto com Zezinho. Pense a aventura que foi isso.

Eram 16 horas e Zezinho já me aguardava em frente ao hostel. Tudo certo exceto pelo fato de Zezinho me alertar: “você sabe que são 70 quilômetros até lá, né?” Sério, gente, eu estava tão decidida a ir que não me detive a pesquisar a distância, calculei por alto que seriam uns 30 quilômetros.

Bem, eu já na rua, com a mochila em mãos e Zezinho ali, com a moto, pronto pra me levar, eu faria o que? Nada, né. Bora lá, Zezinho. Conto que foi puxadão, gente. Mas sobrevivi, cheguei lá, após umas três paradas pra eu mudar de posição, para acomodar o meu mochilão, para me espichar. Meu ciático e minhas costas doíam bastante. Eu rezava para chegar logo, de olho nas placas de sinalização pra ver que distância ainda faltava para chegar.

Depois de uma hora e meia de viagem de moto, enfim, eu estava em frente ao Raízes Hostel em Barra Grande. Paguei o Zezinho, me despedi dele (ele tinha todo o trajeto de retorno à Parnaíba) e agradeci por tudo. Super indico o trabalho do Zezinho, profissional Dez!

Entrei pelo portão do Hostel, dei uma espiada pela área toda e não vi alma viva. Tudo aberto, as bagagens dos hóspedes jogadas por lá e somente euzinha no prédio. E que prédio! Fiquei encantada com o estilo da construção, feita com materiais da natureza, com adobe, todo baseado no conceito de bioconstrução. Para entender: Bioconstrução é o termo utilizado para se referir a construções onde a preocupação ecológica está presente desde sua concepção até sua ocupação (Wikipédia).

Fiquei aguardando no local por cerca de uma hora e meia (havia avisado anteriormente a proprietária sobre o horário de minha chegada) até que apareceu a voluntária que atua no hostel, que simplesmente declarou com um sorriso “eu estava na praia com a turma e esqueci da hora”. Simples assim. Eu iria brigar? Estando naquele lindo lugar, em Barra Grande do Piauí?! Nem pensar. Me instalei na cama do dormitório coletivo e tudo certo.

Saí para comer uma pizza, para dar uma espiada no centrinho da vila, seguindo as dicas do caminho que me foram dadas por outra hóspede do quarto. Seguida da afirmação “me disseram que é muito seguro caminhar à noite por aí”. Me restou confiar e seguir, né.

Medinho de caminhar no escuro por vielas escuras, em ruas e becos pé na areia. Mas logo eu escutei música que vinha de mais adiante, vi luzes e me acalmei. Cheguei numa área com vários bares e restaurantes, um mais fofinho e rústico do que o outro, puro charme com vibe praiana. Adorei. Escolhi comer uma pizza de massa bem fininha, feita no forno a lenha, no capricho, para comemorar minha chegada à Barra Grande depois da aventura da viagem de moto. Merecido!

Fome saciada, fiz o caminho de retorno para o hostel, me aninhei em minha cama e dormi pesado. Feliz, feliz, por estar em Barra Grande.

Passei dois dias maravilhosos em BG (como carinhosamente as pessoas se referem à Barra Grande) e afirmo que poderia ficar meses por lá. Ou anos. Eu caí de amores pela simplicidade do lugar, pela tranquilidade, pela segurança, pela beleza da praia, pela temperatura e transparência do mar. Enfim, pela energia desse lugar que ganhou meu coração. Saí de lá querendo ficar. Isso que já contei por aqui que nem sou muito de praia, né. Mas BG é especial. Quero muito retornar, ficar mais tempo por lá.

Fiz caminhadas solitárias pela praia, tomei muito banho de mar, apreciei o pôr do sol, fiz amigos, me diverti. E ainda fui conhecer o Maior Cajueiro do Mundo, que fica no município de Cajueiro da Praia. Na verdade Barra Grande é um distrito, pertence administrativamente à Cajueiro da Praia.

Pois foi por lá que descobri que o título que antes pertencia à Pirangi do Norte (estive lá anos atrás), no Rio Grande do Norte, agora deverá ser de Cajueiro da Praia e vai entrar para o Guinness, o Livro dos Recordes.

Para chegar até o Cajueiro-Rei de Cajueiro da Praia pedi carona na rua bem em frente ao hostel. Pois demorou nadinha e lá estava eu, sentadinha no banco traseiro de um carro, no ar condicionado, prestes a me apresentar frente ao Cajueiro-Rei. A carona me deixou no centrinho de Cajueiro da Praia e aí enfrentei uma boa caminhada embaixo do sol quente que já reinava não era nem 10 horas da manhã. Por fim cheguei no cajueiro, dei uma circulada, fiz umas fotinhos e dei por feito o check in. Aproveitei para caminhar mais um pouquinho até à praia que fica atrás do Cajueiro-Rei.

Fiquei um pouco na praia, curtindo, e puxei conversa com alguns pescadores que estavam por lá. Eu pedi dicas de como retornar para Barra Grande e logo um deles se prontificou para me levar de volta até o hostel. Pois então?!

Ainda achou que não estava limpinho, que iria em casa tomar um banho e logo retornaria com sua moto para me levar. Então tá. Fiquei tomando banho de mar, na praia cheia de conchinhas, até o retorno dele, que não tardou. Segui de carona, bem faceira, de volta à Barra Grande, apreciando a paisagem beira mar.

Agradeci muito a gentileza e dei uma gorjeta ao simpático pescador. Optei por ficar na praia, para almoçar por lá e me despedir de BG. Um até logo, melhor, né. Meu ônibus partia da rodoviária de Barra Grande no final da tarde.

Curti a praia até umas 15 horas e então fui para o hostel onde tomei uma banho, organizei minha mochila e segui para a rodoviária com um mototáxi. O ônibus partiu para Teresina às 17 horas, Mais uma longa viagem a vista.

O ônibus estacionou na rodoviária da capital piauiense quase a meia-noite. Cansada. Peguei um táxi até o Real Palace, um hotel situado no centro da cidade. Não demorou eu estava lá. Já instalada no quarto, após um banho, dormi o sono dos cansados viajantes.

Acordei cedinho como sempre, já recuperada e disposta a conhecer e aproveitar Teresina. Meu voo de retorno à Belém estava marcado para o meio-dia do dia seguinte. Então tomei café, chequei na net os lugares que eu queria visitar e saí pra rua. Tudo a pé, pois os atrativos ficavam na região onde eu estava hospedada.

Embaixo do maior sol, secura típica do sertão, fiz um tour pelo centro de Teresina. A compreendi como uma cidade linda, histórica e com muito verde, com parque, rios, áreas verdes diversas, lagos…
Devido ao calor, árvores pelas ruas são encontradas aos montes, o que se pode perceber principalmente de cima do principal mirante da cidade, na Ponte Estaiada. Não é à toa que ela é chamada de “A Cidade Verde”.

Minha caminhada iniciou com uma visita ao Museu do Piauí, fundado em 1934. Com a monitoria de uma funcionária do local conferi o rico acervo, aproximadamente 7 mil peças que contam a história do Estado. Fósseis e artefatos pré-históricos, – como, por exemplo, machados primitivos, louças e porcelanas antigas, moedas, arco e flecha… – além de artesanato, quadros e mobília do século XIX é um pouco do material que encontrei neste museu.

Bem próximo dali fui conhecer o Mercado Central São José, também chamado de Mercado Velho. O mercado é o cartão postal para quem chega em Teresina e permanece até hoje como ponto de exportação de mercadorias. Além disso, o lugar conserva a verdadeira tradição e cultura dos teresinenses, que se identificam com a história do Mercado Velho. Muito artesanato em palha, madeira e couro são encontrados nas lojinhas deste velho mercado. Como de costume comprei poucas e pequenas peças, somente para marcar a minha passagem pela cidade.

Ao sair do Mercado Central dei uma espiada no interior da Igreja Nossa Senhora do Amparo. Sentei um pouco num dos bancos da igreja para apreciá-la, para tomar água e para recuperar as forças para seguir no passeio. Bem na frente da igreja fica o Marco Zero de Teresina. Segui, suando em bicas.

Na sequência estive visitando o Centro de Artesanato Mestre Dezinho. O nome do espaço foi dado em homenagem a um importante artesão do Piauí, José Alves de Oliveira, que tem obras ao redor do mundo. O Centro de Artesanato é palco de eventos culturais, escola de balé e música e, claro, artesanato local. São 25 lojinhas localizadas em uma antiga sede da Polícia Militar que funcionou durante a ditadura no Brasil. Uma excelente troca de função, não?!

Sobre essa questão tenho mais uma estorinha de viagem. Estava eu visitando as lojinhas do Centro de Artesanato quando numa delas o artesão que trabalha e produz peças em madeira, chamado Antonio Carlos de Oliveira, começou a me contar histórias relacionadas à ditadura militar no Brasil, me mostrou fotos, leu lista de nomes e dados sobre esse período medonho da história do país. Sentei num banquinho para escutá-lo pois a esta altura minha pressão já tinha caído no pé. Depois de contar muitas histórias Antônio me convidou para conhecer o porão que abrigou presos políticos durante a ditadura militar. No box 43, onde eu me encontrava, abaixo do ateliê dele. A grade já enferrujada e que dá acesso ao calabouço fica logo na entrada do ateliê, bem ao lado onde eu estava sentada escutando Antonio Carlos a mais de uma hora.

Titubeei por alguns minutos sobre atender ou não ao convite dele, um arrepio me passou pela espinha, senti uma energia ruim naquele local. Antonio Carlos me incentivou “você já está aqui, eu desço ao porão com você”. Respirei fundo e disse “vamos lá”. Então Antonio Carlos levantou a pesada grade de ferro instalada no piso de seu atelier, acendeu uma lâmpada lá embaixo e começamos a descer a escada. Num espaço pequeno, sem janelas ou qualquer ventilação, vi muitas marcas de sangue pelas paredes e uma argola de ferro na parede, que segundo o artesão, servia para torturar os presos. Dei uma olhada na sala e logo pedi pra subir, para sair dali. Ufa… Na lojinha de Antonio Carlos agradeci pela atenção e acolhida e me despedi rapidamente dele, levando comigo uma Cajuína. Que encontro foi esse?! Um alívio retomar minha caminhada pela quente e seca Teresina, com o “meu sol” bem encima da minha cabeça.

Segui meu trajeto pelo centro da cidade. Alguns locais eu apenas contemplei externamente. Um deles foi o Palácio de Karnak, que é a sede do Poder Executivo do Piauí. Se trata de um edifício em estilo neoclássico (com características gregas e romanas) e que chama atenção pela arquitetura e leva este nome devido a uma região da cidade egípcia de Tebas, o bairro Karnak. Sem nenhuma ligação específica com o Egito em si, o nome provavelmente foi somente uma homenagem dos construtores, que levantaram o Palácio ainda no século XIX. Outro foi o Teatro 4 de Setembro, que leva este nome porque foi no dia 4 de setembro de 1889 que algumas senhoras da alta sociedade levaram ao presidente da província da época uma proposta de construção de um teatro para a cidade, e assim surgiu o Teatro 4 de Setembro. Atualmente, é um centro de cultura importante da capital do Piauí, sendo palco tanto de espetáculos nacionais quanto internacionais. Também foi assim com a Igreja de São Benedito, que estava fechada para reformas. A Igreja de São Benedito tem uma história fortemente ligada à escravidão em Teresina. A igreja foi idealizada, financiada e construída pelo povo negro, que era proibido de entrar nas outras igrejas da cidade, juntamente com os indígenas, leprosos e demais pessoas “mal vistas” pela elite.

Passava das 13 horas quando entrei num restaurante para almoçar. Comi num buffet que resolveu o problema que me assolava: fome e sede. Na saída resolvi ir descansar um pouco do calorento passeio no quarto do hotel, sob as bençãos de Nossa Senhora do Bendito Ar Condicionado (brincadeirinha). Caminhava em direção ao hotel quando escutei música. E era música boa, cantada ao vivo por uma banda, numa calçada do centro de Teresina. Não resisti e me aproximei. Aí o ritmo já era reagge. Assim como outros transeuntes, parei para escutar a apresentação dos músicos, balançando o corpo no ritmo,enquanto fazia fotos e vídeos. Estava curtindo o momento, né. O grupo era muito bom. Depois de um tempinho e algumas músicas, deixei minha contribuição no chapéu da turma e segui meu caminho.

Quase chegando no hotel fui abordada por um dos integrantes da banda, que vinha em seu carro. Disse que curtiu me ver dançando e me passou seu perfil no Instagram, caso quisesse acompanhar o trabalho dele. Pronto: mais uma história de viagem. Foi assim que conheci Bob Robson: cantor, apresentador de TV e locutor de rádio. Por convite dele acompanhei por algum tempo seu programa de rádio no estúdio da Rádio Assembléia, no prédio da Assembléia Legislativa do Piauí. Conversamos bastante sobre música. Muito legal!

Antes disso, ao entardecer, fui conhecer o Mirante da Ponte Estaiada João Isidoro França. O complexo turístico tem construção recente, foi inaugurado em 2010. No espaço do Complexo se pode fazer trilhas, andar de bicicleta ou curtir o visual do rio e da vegetação do entorno, além de poder comprar artesanato e lembrancinhas vendidas nas barracas que se encontram no local.

Mas a principal atração com certeza é o mirante, com 95 metros de altura e com uma visão 360° de toda a capital, que já pode ser apreciada durante a subida, pois os elevadores que levam até o alto do mirante são panorâmicos.

Achei muito bacana todo o espaço, principalmente o elevador panorâmico e a cúpula superior. Consegui ficar por lá até o pôr do sol e foi muito lindo. Para acessar o mirante paguei a taxa de 4 reais.

No meu último dia em Teresina acordei cedo, tomei café, fiz o check out no hotel e chamei um Uber. Destinei algumas horas da manhã para conhecer o Pólo de Cerâmica de Poty Velho antes de seguir para o aeroporto, que fica na mesma região do Pólo.

No bairro Poty Velho encontra-se uma das tradições teresinenses, que é a produção de artefatos de cerâmica. O Polo Cerâmico foi criado em 2006 e reúne diversos artesãos em cerca de 25 lojas, onde mais de 300 famílias trabalham produzindo a arte em potes, jarros, esculturas, joias, mandalas e muito mais. A tradição no bairro vem desde 1964 e as peças são vendidas para todo o Brasil.

Para quem gosta de cerâmica, este lugar é uma perdição… e o melhor, os preços são ótimos!!! Obviamente, saí de lá com todas as peças que achei que eu podia carregar na bagagem de mão. Pensem o que foi isso! Tudo bem apertado e encaixado. Não trouxe mais peças por falta de mala mesmo.

Próximo ao meio-dia chamei um Uber e rapidinho eu estava no aeroporto. Deu tempo de fazer umas fotinhos no letreiro da fachada do prédio, comer um lanche e segui para a área de embarque. Eram 17 h 30 min quando pousei em Belém. De volta pra casa, depois de 15 dias fora.

O que ficou desta viagem? Percebo que a cada experiência de viagem solo me dou conta da “manha” de viajar sozinha, livre, leve e solta. Risos. Na real, acho que com a maturidade conquistada, com a experiência de outras viagens, outros mochilões, me sinto mais segura e disposta a viver novas experiências com leveza e alegria. Isso tem me possibilitado conhecer mais e mais pessoas bacanas e interessantes. Creio que essa abertura pessoal para o novo, para a beleza das descobertas e dos encontros (nada casuais), com presença e intensidade, tem feito de minhas viagens eventos especiais e cheios de significado. E que me fazem querer repetir. E com certeza irei. Me aguardem.

Sobre o Piauí, lugar lindo, que amei conhecer, com pessoas calorosas como o Sol que brilha forte por lá, deixo uma poesia de Ana Kaline Brabosa.

UM LUGAR, UM SONHO

Piauí, lugar de fronteiras. Fronteiras não só de terras, mas fronteiras de tempo, de espaço, de culturas. Terra onde o passado e o presente se encontram e se perdem em seus detalhes, seus caminhos, suas belezas.

Terra de um passado de lutas, revoluções, terra berço, terra mãe do homem, homem piauiense, americano, brasileiro. Terra pisoteada pelo gado e pelos pés de homens que desbravaram um chão tão sagrado.

Lugar descrito em versos, cantos, lugar de mitos verdades e encantos.

Terra de vaqueiros, de delta, de encontro de águas turvas, cristalinas, encontro de histórias, versos, culturas, vidas e por que não de cajuínas?

Teu mapa não é só mais uma parte do Brasil, é a essência deste. É a essência da liberdade, da nacionalidade, do amor à pátria, à terra, ao chão.

Brasileiros podem não ser piauienses, mas piauienses são brasileiros de nome, de nacionalidade, de alma e de amor. Amor este que foi capaz de entregar vidas, sonhos, metas, a um sonho, a um desejo, a uma meta: a liberdade.

Foi esse amor por ti, Piauí, que reuniu homens de vidas simples, mas de alma e coragem especiais, únicas, inesquecíveis, imortais.

Links para acessar os outros posts sobre essa viagem Mochilão 2021:

2 comentários em “Mochilão 2021 – Part. III: Piauí – Brasil

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s